quinta-feira, 8 de junho de 2017

Não tenha medo da dor, porque é por meio da dor que a nossa alma se cura

Por: Elienae Maria Anjos

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“Como começa essa história? Começa como muitas outras histórias. Com um garoto velho demais para ser uma criança, jovem demais para ser um homem e um pesadelo.”

No princípio de tudo deveriam existir momentos leves, festas sem fim, guloseimas coloridas, brinquedos surpreendentes, aventuras fantásticas e diversões sem limites a ponto de nossa barriga ficar dolorida de tantos risos soltos tomando os espaços em nosso paraíso, mas, o que de fato acontece muitas vezes é o contrário de tudo isso, porque há vidas que experimentaram em sua infância inícios traumáticos antes de conhecer sobre o que venha a ser a vida, a verdade, a dor, a morte e a cura. Esse capítulo inesperado que surge precocemente entre a inocência da infância e as surpresas da adolescência não é em vão, porque por mais que seja inexplicavelmente dolorido, é necessário todas as coisas existirem, pois isso é vida. É vida que segue a partir da dor do parto quando chegamos ao mundo até a passagem que nos leva do mundo.

“Os humanos são feras complicadas.”

É notório que raramente experimentaremos o gosto de vencer, em contrapartida, muitas vezes perderemos sim, tendo ao findar de cada guerra algo muito especial e esse prêmio chama-se experiências, estas sempre serão as vitórias necessárias para ficar em nossa história depois que compreendermos certas realidades. É claro que tudo dependerá do ponto de vista de cada um de nós quando enfrentamos todos esses pesadelos que não são perceptíveis somente durante o sono, muitos são assustadoramente vivos e presentes…

“Vocês creem em mentiras confortáveis, embora saibam a verdade dolorosa que torna essas mentiras necessárias.”

Sete Minutos Antes da Meia Noite (A Monster Calls) foi escrito por Patrick Ness e publicado no Brasil pela Editora Novo Conceito. O livro retrata com grande propriedade uma história conturbada que se inicia na infância e prossegue até a adolescência de um garoto de 13 anos. Em 2016 o diretor Juan Antonio Bayona, produziu com extrema sensibilidade a adaptação dessa história para o cinema, nos presenteando com um drama-fantasia, tendo o mesmo título original.

“A vida é assim. A gente bagunça tudo com o tempo.”

A princípio, diante do título, pensei que se tratasse de uma história de terror, mas, assim que se iniciou compreendi que não era desse gênero, pois entre os caracteres informativos o garoto começou a desenhar e o lápis que segurava se tornou animado, saindo livremente, rabiscando uma folha. O papel de repente é tomado por cores lindas, pincelando pinturas fantásticas produzidas com a tinta Aquarela, porém, mesmo com essa sutileza encantadora é perceptível entre os quatro personagens uma forte ausência de tons quentes na vida, nos sentimentos e também na comunicação verbal que é silenciosamente forte em todo o filme, sendo assim, seus sentimentos são expostos somente pelas expressões faciais carregadas de confusões e tristezas.

“Você está sempre perdido no mundo dos sonhos.”

A maior força é concentrada no protagonista Conor O’Maley (Lewis MacDougall), que interpreta a dor, a revolta e a grandeza emocional de um garoto que passa por momentos de introspecção diante da ausência do pai, suportando o sofrimento da mãe com câncer e as dores físicas causadas pelas agressões de seus colegas de escola… Já não bastasse tudo isso ainda nutre mágoas pela submissão que tem diante de sua avó materna, que é extremamente rígida. A partir desse quadro sombrio, Conor começa a expor suas dores desenvolvendo um pesadelo que se repete todas as noites, porém, somente assim ele extravasa seus sentimentos, que rejeita e esconde das pessoas que participam de sua vida, talvez, evitando que as angústias não se exponham e tomem um domínio maior de seus dias.

“As pessoas não gostam do que elas não entendem. Elas ficam com medo.”

A partir dessa tentativa de fuga sua mente se abre para um leque de imaginações surpreendentes, tendo maravilhosas e terapêuticas fantasias. Surge então a figura de um monstro que na verdade é um Teixo, conhecido como a Árvore da Vida e da Morte, porque sua essência é ao mesmo tempo venenosa e curativa, mas, apesar de sua aparência gigantesca, medonha e voz horripilante, aquele monstro chegou à vida de Conor para salvá-lo de seus monstros interiores, produzindo através de três fantásticas histórias pedagógicas a libertação e a cura que ele tanto precisava.

“Nem sempre há um mocinho, Conor O’Malley, e também nem sempre há um vilão. A maioria das pessoas está em algum lugar no meio.”

Sete Minutos Depois da Meia Noite é um alerta sobre alguns pontos significativos no desenvolvimento emocional da criança e do adolescente, e que às vezes não nos atentamos quando ocupamos alguns papéis importantes nos ciclos de vida de cada um deles. Por isso é preciso fazer uma leitura do que temos feito e mudar o quanto antes, para que eles enxerguem em nós a segurança, o amor e a compreensão que precisam. Para isso precisaremos caminhar no mesmo tempo e espaço de um passo inseguro e curioso de uma criança na estrada da vida.

Precisaremos reconhecer que a inocência da infância não pode ser quebrada ou abortada por nossas pressas de realização, na corrida desvairada contra o tempo que todos os dias vivenciamos. É preciso aceitar que eles possuem a sua própria sabedoria, mesmo sendo inexperientes e que em todo tempo estão nos ensinando, sem precisar da arrogância que nós muitas vezes estamos fazendo uso. Somos seus cúmplices ou companheiros e não seus donos, que com mão de ferro dominam, constrangem e silenciam seu servo sem nenhum traço de compaixão.

Podemos ajudá-los a compreender uma realidade muito simples que pouco se fala com sinceridade: humanos não são perfeitos, nós erramos, choramos, mentimos muitas vezes, por vergonha escondemos a verdade, tememos desejar algo, nos arrependemos ou não, pois temos o livre arbítrio, desde que reconheçamos a consequência de cada escolha.

“Você só queria que a dor cessasse… a sua dor. É o desejo mais humano que existe.”

Não é errado sentir medo, fugir da dor não é fraqueza é apenas ser um ser limitadamente humano.
É preciso preencher a vida de sonhos, sempre, ainda que nada aconteça, nada mude ou não se realize, ainda assim não se deve desistir de cultivar a esperança e a fé.

“No fim, não importa o que você pensa, apenas importa é o que você faz.”

E finalmente, olhando diretamente nos olhos de uma criança ou adolescente declare uma grande verdade que muitos não assumem: Quando estamos diante dos progressos pessoais que adquirimos através das evoluções que passamos, reconhecemos que toda essa busca frenética nos fez perder um bem muito maior e eterno que só existe na alma de uma criança que tem vivido uma infância naturalmente humana.

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Sobre o autor

Elienae Maria Anjos

Uma criança-mulher que não quer deixar de crescer na sensibilidade. Que brinca com seus lápis e tintas nas telas palpáveis e visionárias do emocional. Que aprendeu a escrever nos papéis virtuais o que só o diferente entende. Amiga dos livros físicos e humanos. Amante dos pensamentos. Eterna admiradora da Sétima Arte. Apaixonada por lágrimas e sorrisos. Mãe de cinco gatos. Enfim, habito dentro do refúgio que há em minhas escolhas e em tudo o que escrevo, que vai além do meu infinito, mas, em minha varanda emocional há um espaço para quem queira se aproximar...

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