terça-feira, 13 de junho de 2017

Religiosidade, Individuação e Sentido da Vida

Por: Milene Lunes

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Do ponto de vista de Carl G. Jung – um dos maiores investigadores da alma humana de todos os tempos – a religião é uma atitude específica do espírito humano, sendo, portanto, completamente independente de um credo particular ou de uma instituição religiosa. Tal atitude corresponde a uma observação daquilo que veio a ser conhecido em psicologia analítica pelo termo “numinoso”. Os arquétipos (estruturas do inconsciente profundo ou inconsciente coletivo) são comumente considerados “numinosos” porque podem, ao invadir a consciência, provocar uma intensa reação de ordem emocional. Dessa maneira, para Jung, a religiosidade corresponde a uma atitude de observar de forma muito cuidadosa e respeitosa as forças  que podem dominar um indivíduo.

Como forma de compreender a dinâmica dessas forças, é preciso refletir sobre o conceito de “complexo”. Todo complexo possui um núcleo arquetípico. De uma maneira geral, Jung define complexo como uma estrutura energeticamente carregada capaz de perturbar, leve ou gravemente, o desempenho da consciência. O fenômeno da possessão – transtorno mental de ordem passageira ou permanente que funciona como porta de entrada para o mal no mundo – corresponde ao momento em que um conteúdo inconsciente aparentando um imenso poder, ultrapassa o limiar da consciência e ataca a personalidade podendo “dobrá-la” ou destruí-la por inteiro. A possessão corresponde à chamada desumanização e está intimamente ligada a questão da liberdade humana. O termo desumanização se refere a estar fora do domínio humano porque se está identificado com as forças (arquetípicas) do inconsciente coletivo. Na possessão, o Ego é subjugado de tal forma que o sujeito não é mais ele mesmo, mas passa a ser a força unilateral e inconsciente pela qual foi assimilado. O poeta Victor Hugo menciona que “a liberdade é o ar respirável da alma humana”. De forma análoga, a possessão rouba o “ar” da personalidade, sufocando-a ou aniquilando-a. Nesse sentido, somente é possível falar em liberdade humana em seres psicologicamente conscientes.

Portanto, a atitude religiosa a qual se refere Jung corresponde a que cada um observe e confronte dentro de si essas forças  obscuras capazes de dominar a personalidade. O vazio interior e a ausência de sentido na vida são resultados da ausência de uma relação adequada com o sagrado, ou seja, com aquilo que é essencial e profundo na alma. Cabe lembrar que é o confronto com o inconsciente (Sombra) que permite ao ser humano um desenvolvimento espiritual mais elevado. Trata-se de um momento que faz parte da chamada “individuação” – um processo de unificação da personalidade  – uma etapa longa, difícil, que ocorre (quando ocorre) na segunda metade da vida. Jung menciona que entre todos os seus “pacientes com mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão da sua atitude religiosa e que nenhum se curou realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse propícia”.

Na segunda etapa da vida (próximo aos 40 anos) é de extrema importância que atitudes mais apropriadas ao momento possam ser firmemente estabelecidas pelo indivíduo, o que significa  ser capaz de desistir do que o ego quer e se submeter, livremente, ao que o Self (o nosso centro interior mais profundo) solicita. Assim, é necessário o sacrifício da própria infantilidade em nome de uma renovação da consciência. Contudo, Jung lembra que a individuação não é um caminho a ser percorrido por todos, pois há pessoas que não possuem a força interior necessária ao processo e devem, portanto, ficar afastadas do inconsciente.  Apesar disso, ele adverte quanto a necessidade de ampliação de consciência para aqueles que possuem dentro de si essa capacidade de realização, pois as possibilidades interiores não vivenciadas tendem a atuar  de forma destrutiva no psiquismo. O livre arbítrio reside em escolher de forma consciente (e, portanto, livremente) ir, quando se é chamado, ao encontro do Self – o centro unificador da totalidade psíquica ou nosso “Deus interior”. Para Carl G. Jung, “se uma experiência desse gênero contribuir para tornar a vida mais bela, mais plena ou mais significativa para nós, como para aqueles que amamos – então poderemos dizer com toda a tranquilidade: foi uma graça de Deus”.

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Sobre o autor

Milene Lunes

Psicóloga, mãe da Geórgia, desenhista e poeta.

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