quarta-feira, 14 de junho de 2017

DIVERSIDADES E INJUSTIÇAS

Por: Alberto Silva

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No final da década de 1960, enquanto explodiam as mobilizações estudantis na França – originadas a partir de um grupo de discentes da prestigiada Sorbonne contra os valores conservadores da instituição –, o movimento pelos direitos civis dos negros nos EUA se radicalizava, enfrentando forte repressão policial por todo o país*; e novos formas de condução dos afetos e estilos de vida ganhava força com a cultura hippie, cuja manifestação mor se deu durante o “libertino” festival de Woodstock, outra manifestação marcara época em Nova York, embora seja hoje menos evidenciada quando nostálgicos relembramos daqueles tempos. Sim, pois mesmo para quem nasceu nos anos de 1990 como eu esses tempos de luta me enchem de nostalgia. Tal fato, que foi resgatado no cinema mais recentemente, ficou conhecido como a Batalha de Stonewall, marco histórico para se pensar o movimento LGBT contemporâneo. Embora viesse de muito antes a luta pelo direito ao reconhecimento das sexualidades desviantes ao padrão heteronormativo como legítimas nas sociedades liberais e além*, a práxis reivindicatória que leva a bandeira do arco-íris como emblema é uma construção um tanto mais recente, inimaginável para os primeiros ativistas do século XIX, em forma e em dimensão.

A ilustração da aquisição de alguns direitos, na pluralidade dos contextos passados, também pode ser lida de maneira mais ou menos relativa. A URSS pós-revolução foi o primeiro país a descriminalizar a homossexualidade – embora tenha voltado a ser criminalizada nos anos de 1930 com a guinada stalinista. Na mesma época, países como a Inglaterra puniam severamente relações entre pessoas do mesmo sexo, com castração química inclusive. Caso emblemático foi o de Alan Turing, barbaramente condenado mesmo após os relevantes serviços prestados ao país durante a Segunda Guerra Mundial. Na presente década, chegou a receber o “perdão real”, com muito atraso e após longa resistência da coroa britânica. Nos EUA, a homossexualidade continuou sendo crime até meados dos anos 2000 em alguns estados do “cinturão da bíblia”, notadamente conservadores. Na década de 1950, era comum a veiculação na televisão norte-americana de propagandas que mostravam os homossexuais sendo comparados à pedófilos. Algumas delas estão disponíveis até os dias de hoje no Youtube, servindo como bom material para análise de acervo. Em uma delas, um homem com capa escura e óculos escuros (“the gay men”) aparece próximo a crianças que brincam em balanços, fitando-as fixamente.

A construção dos estereótipos e das negatividades em torno da homossexualidade é histórica. Embora fosse orientação comum na Antiguidade – destaque para os espartanos –, a partir da ascensão do cristianismo e da sua moral restritiva nos primeiros séculos do milênio passado, desaparece enquanto “forma de ser” legítima, juntamente a um conjunto de práticas que não mais convinham aos ditames da nascente Igreja Católica. Permaneceu sendo assim daí em diante, e até hoje a crueza anti homossexual é desvelada sem nenhum tipo de pudor. Crimes contra gays, lésbicas, travestis e congêneres; discriminação sistemática nas famílias e nas demais esferas sociais, campos de concentração à lá Holocausto dos judeus (algo surreal denunciado não apenas na Chechênia, território da Federação Russa, mas poucos anos atrás na África do Sul), castigos em praça pública (a exemplo das chicotadas populares nos países islâmicos) e desprezo sistemático seguido da negação de identidades, numa relação de permanente enfrentamento com a sociedade: esse é um quadro não apenas brasileiro, mas existente no mundo todo. Diante disso, não sobram dúvidas de que a articulação internacional em torno da causa da liberdade e do respeito aos homossexuais é um fundamento civilizatório.

No final da década de 1990, os direitos de tratamento igual aos homossexuais começaram a ser pautados na prática, e de maneira acelerada no continente europeu daí em diante. O casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em 1998 na Holanda, país de reconhecida tradição liberal no campo das liberdades individuais. Daí se seguiram as secularizadas nações escandinavas, e em 2011 o Brasil por meio de julgamento no STF reconheceu a legalidade da união civil, se baseando nos preceitos constitucionais das democracias ocidentais contemporâneas – dentre os quais a igualdade formal entre os cidadãos. Regimes socialistas como o cubano, que por anos, em razão da forte tradição católica, excluíram os homossexuais da cena pública, sofreram revisões profundas, tendo hoje uma legislação local extremamente avançada que abarca a “diferença”. E os EUA, também por força de sua Suprema Corte, autorizou o casamento homossexual nos 50 estados da Federação. Em alguns desses países, no entanto, a luta pelo direito à adoção de crianças por parte de casais do mesmo sexo continua longe de ser uma realidade. Tais conquistas de reconhecimento jurídico foram muito importantes no Ocidente para a comunidade LGBT, mas, como ressaltado acima, estão longe de prover um mundo onde a “tolerância” e o “respeito” sejam princípios conhecidos de todos os seres humanos que manifestam as suas sexualidades em contraposição ao modelo hegemônico.

Quando voltamos a Stonewall – ao bar Stonewall que deu nome à revolta – vemos LGBTs em conflito com a polícia durante dias na luta pela simples prerrogativa de existir e manifestar os seus afetos. “Conflito”: esse é o elemento-chave quando pensamos a emancipação, de todos aqueles que são subjugados e oprimidos pelas estruturas dominantes que não permitem a ousadia da diversidade, ainda mais quando essa vem dos mais vulneráveis. “Existir”: esse é o objetivo dos que persistem e lutam dia após dia pelo reconhecimento em uma sociedade preconceituosa e em uma quadra histórica na qual o preconceito e os discursos de ódio se desinibem e tornam-se cada vez mais despudorados. “Manifestar”: é o ato de demonstração do colorido, da riqueza nas formas de amar e de ser. Conflito, existência e resistência: verbos no infinitivo, palavras de ordem na construção de uma sociedade mais justa. Que possamos refletir e praticar o respeito ao “outro”, mas sobretudo levar essas reflexões e práticas para os espaços ainda escurecidos e/ou obscurecidos. É na claridade do dia que todos os homossexuais merecem ter um espaço para andar de mãos dadas, se beijarem, participarem dos espaços públicos e privados com o devido respeito, se amarem – e terem o nosso amor –, serem felizes.

*Correção: A despenalização da homossexualidade na URSS ocorreu em virtude da perda de validade das leis czaristas logo após a Revolução de 1917, que condenavam, dentre outras coisas, as relações homoafetivas. O casamento civil igualitário é reconhecido pela primeira vez no país na década de 1980 no contexto da Alemanha Oriental. Portanto, a Holanda foi o segundo país e não o primeiro a tornar lei o tratamento igual dos casais homossexuais no que se refere ao matrimônio. Agradeço ao comentarista anônimo pelas informações.

RECOMENDAÇÕES CINEMATOGRÁFICAS

São muitos os filmes que tive a oportunidade de assistir sobre a temática. Não posso enumerar todos, então resolvi escolher os meus cinco favoritos. As sinopses são provenientes da rede social Filmow, tendo em vista que a minha capacidade de sintetizar os filmes foi desgastada em virtude da distância temporal entre o momento que eu os assisti e o momento presente.

01 – Carol (2015)

“Nova York, início da década de 1950. Therese Belivet (Rooney Mara) está trabalhando em uma loja de departamento de Manhattan e sonhando com uma vida mais gratificante quando conhece Carol Aird (Cate Blanchett), uma mulher sedutora presa em um casamento fracassado. Já no primeiro encontro ambas sentem uma atração imediata e ardente, seguida de um sentimento mais profundo. Quando o envolvimento de Carol com Therese vem à tona, o marido de Carol a afronta, desafiando sua competência como uma mãe. Carol e Therese se refugiam na estrada, deixando para trás suas respectivas vidas, e logo se vêem encurraladas entre as convenções e a atração mútua.”

02 – O Segredo de Brokeback Moutain (2005)

“Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennis Del Mar (Heath Ledger) são dois jovens que se conhecem no verão de 1963, após serem contratados para cuidar das ovelhas de Joe Aguirre (Randy Quaid) em Brokeback Mountain. Jack deseja ser cowboy e está trabalhando no local pelo 2º ano seguido, enquanto que Ennie pretende se casar com Alma (Michelle Williams) tão logo o verão acabe. Vivendo isolados por semanas, eles se tornam cada vez mais amigos e iniciam um relacionamento amoroso. Ao término do verão cada um segue sua vida, mas o período vivido naquele verão irá marcar suas vidas para sempre.”

03 – Priscilla, a Rainha do Deserto (1994)

“Terence Stamp, Hugo Weaving e Guy Pearce são três drag queens que viajam pelo deserto australiano apresentando um divertido show. O transporte é um ônibus caindo ao pedaços batizado de ”Priscila”. A empolgante trilha sonora traz músicas dos anos 1980 na voz de grupos icônicos como Abba e Village People, ou cantoras como Charlene, Patti Page e Gloria Gaynor.”

04 – Domingo Maldito (1971)

“Um jovem artista transita livremente entre dois amantes: uma divorciada de meia-idade e um médico judeu. Ambos sabem da existência um do outro e de seu relacionamento com o rapaz, porém preferem manter a situação passivamente por medo da perda do amor. Num final de semana do inverno londrino as coisas, no entanto, complicarão. ”

05 – Maurice (1987)

“No início do século, em uma Inglaterra cheia de preconceitos e condutas sociais, um estudante universitário e executivo declara-se homossexual, ao se apaixonar por um colega da faculdade. Para sobreviver socialmente, age contra sua orientação sexual e se casa com uma mulher.”

Para encerrar, ficamos com o clássico de Glória Gaynor.

Esse texto é dedicado à todo o movimento LGBT, uma das mais belas frentes de resistência política existentes na sociedade brasileira.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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