sexta-feira, 16 de junho de 2017

“O Beijo” de Gustav Klimt – Que beijo é esse?

Por: Milene Lunes

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Não foram raras às vezes em que associaram a obra “O Beijo” do artista vienense Gustav Klimt ao amor. O que na obra apontaria (ou não) nesse sentido? Em se tratando de amor, seria um tipo específico representado? Haveria alguma relação com o comportamento “amoroso” da sociedade vienense do início do século XX? Mas o que é mesmo o amor? Obra instigante, assim como a maioria das obras de Klimt, “O Beijo” é, antes de tudo,  um apelo ao olhar.

A princípio, o gesto revelado pelo título da obra parte do homem: a intenção seria um beijo no rosto ou uma tentativa de alcançar os lábios da moça? Por que a mulher se encontra com a cabeça em posição lateral e não de frente para seu par? Poderia ser sinal de esquiva em relação a um beijo mais íntimo? A mão direita da jovem apresenta um curioso retraimento de dedos. A sutileza de tal representação poderia comunicar algo em especial? O que parece não deixar dúvidas é a atitude de submissão da figura feminina, tendo em vista que a mulher encontra-se de joelhos. Também chama a atenção o fato de estar descalça. O que esse detalhe poderia dizer sobre ela? Chevalier e Gheerbrant mencionam o calçado como símbolo do direito de propriedade: “ao tirar-lhe ou devolver-lhe o calçado, o proprietário transmite ao comprador esse direito”.

O casal está, aparentemente, sobre um penhasco (coberto por um gramado florido). A jovem, posicionada a beira do rochedo, parece completamente alheia a situação (perigosa) em que se encontra. É interessante observar também a força de representação do pescoço masculino em contraste com a ausência de representação do pescoço feminino. De acordo com Chevalier e Gheerbrant, “o pescoço simboliza a comunicação da alma com o corpo”.

Sobre o casal, há uma suposta “aura” dourada: por que ela não cobre igualmente os dois corpos?  O que poderia significar os desenhos circulares com núcleo central? A coloração ao fundo da cena (dourado e marrom) lembra a de um processo de oxidação (ferrugem). Para onde apontaria essa associação? A mulher apresenta as pernas envoltas por uma vegetação, especialmente a região dos tornozelos: “a finura do tornozelo de uma mulher evoca, para os chineses, certas partes mais íntimas de seu corpo. Por sua delicadeza, o tornozelo revela numa mulher possibilidade de refinamento e habilidade nas relações sexuais” (Chevalier e Gheerbrant).

Seria possível associar a vegetação sobre as pernas da moça ao mito de Apolo e Dafne? No mito, Apolo fica impossibilitado (punição) de viver o seu grande amor com Dafne por ter incorrido no erro de hibrys (desmedida) ao se aproximar de Eros (deus do amor) em posição de arrogância. No final, ao ser tocada por Apolo, Dafne se transforma em uma árvore. Não se pode deixar de observar também que a figura masculina ostenta uma coroa de heras. Em que sentido mitológico essa imagem poderia ser compreendida?  Poderia se tratar de algum aspecto de Dionísio? “Hera – um dos enfeites habituais de Dionísio – simboliza a força vegetativa e a persistência do desejo. Dionísio servia-se da hera, como da videira, para provocar um delírio místico nas mulheres que se recusavam a participar do seu culto; mas, uma vez tomadas pelos eflúvios do deus, elas corriam a se juntar às Bacantes nas montanhas. As Bacantes – as furiosas, as impetuosas – eram as mulheres tomadas de paixão por Dionísio e entregues a seu culto com tamanho fervor, que por vezes chegavam ao delírio e à morte” (Chevalier e Gheerbrant).

A contemplação de uma obra de arte deve percorrer as vias do desapego de nossos preconceitos e da disponibilidade para deixar a obra atuar em nosso interior, pois como lembra  Aldo Locatelli “a arte não é para agradar, mas sim para emocionar. É uma janela que um pintor abre para outros homens, para mostrar um mundo que eles não vêem, mas que precisam e devem sentir”. O passo seguinte seria a responsabilidade que cabe a cada um procurar compreender o mundo evocado na própria experiência contemplativa. Que beijo é esse? Talvez um beijo que nem todas gostariam…

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Sobre o autor

Milene Lunes

Psicóloga, mãe da Geórgia, desenhista e poeta.

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