domingo, 18 de junho de 2017

Amar e mudar as coisas me interessa mais

Por: Erick Morais

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Mesmo procurando ser uma pessoa esclarecida e tendo conhecimento, até por isso, sobre aquilo que forma o homem, suas possibilidades e vicissitudes, nobrezas e crueldades; sempre fico espantado e profundamente triste quando me deparo com discursos marcadamente odiosos e sem qualquer capacidade empática. Seja na internet, seja na vida sem cabos, eles sempre aparecem e tenho a impressão que estão cada vez mais fortes.

Preocupa-me saber que existe tanta desumanidade presente nas pessoas e tanta passividade e falta de coragem em quem ainda mantêm a capacidade de refletir e se colocar no lugar do outro. Quando o absurdo e a desumanidade se colocam perante nós é necessário se posicionar e lutar por condições de vida que fortaleçam a nossa humanidade, de modo que não é disseminando ódio ou sendo passivo que melhoramos aquilo que há de gente em nós.

Sendo assim, como disse Saramago: “Escrevo para desassossegar meus leitores”. Não haveria como ser diferente. Sei que textos mais brandos, que não suscitam qualquer tipo de polêmica, que passam a impressão de que a vida é apenas “água com açúcar”, fazem mais “sucesso”, possuem maior receptividade, circulam em qualquer lugar e o “melhor” de tudo: não promovem as famigeradas descurtidas.

Entretanto, a vida possui o seu lado trágico e este também precisa ser trabalhado. Estamos longe de viver em uma sociedade em que as coisas “vão bem”, funcionam corretamente, em que as pessoas têm os seus direitos, constitucionalmente previstos, materializados; assim como também atravessamos um período em que o coletivo, o social, o “nós” parece ter sido esquecido em um quarto escuro, que afasta todos da sua procura. Mas, apesar disso, é necessário que o busquemos e que procuremos construir pensamentos que caminhem no sentido de construir um mundo em que o humano do ser seja, de fato, respeitado e contemplado.

Esse texto pode soar como uma forma de desabafo, e o é, porque todos que escrevo são. Não existe separação entre obra e autor no meu caso. Todavia, é também uma forma de estimular a reflexão sobre o mundo em que vivemos e sobre o mundo que queremos ter. Se a pobreza, a miséria, a desigualdade, a violência (em todos sentidos), a corrupção, o egoísmo, o individualismo, o ódio, etc., existem, por que não falar dessas problemáticas? É preciso ser “marxista” para pensar e discutir problemas sociais e, por conseguinte, do homem? Se for, ou estamos perdidos ou é imprescindível que todos se tornem marxistas.

Acredito na poesia da vida e na capacidade do ser humano agir e transformar o seu meio, de ser sujeito, de mudar as coisas. Quem me lê há algum tempo já deve ter percebido isso. Desse modo, para que essa poesia inexplicável da vida, como falou Drummond, possa aparecer, a reflexão constante e a crítica são indispensáveis, afinal, não vivemos sozinhos, mas antes, em comunidade, de forma que todos devem permanentemente contribuir para a melhor convivência do grupo. E isso não é ser marxista, é ser apenas humano, demasiadamente humano, para além de ver, também conseguir enxergar.

Como cantou Belchior: “Eu não estou interessado em nenhuma teoria. Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Portanto, essa é a crônica do desassossego de um homem desassossegado que procura enxergar e tocar o homem para além de qualquer teoria. Um homem que sabe que quando aquilo que é dito destrói a humanidade que tanto se procura, é hora de repensar as palavras, ou mais profundamente, repensar o coração, fazendo das veias que cortam o peito cordas de viola, a fim de que a música nos desperte e provoque em nosso peito enorme alucinação.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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