domingo, 18 de junho de 2017

Entre pensar e agir, agir e pensar: as velhas dicotomias de sempre

Por: Luciano Pontes

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Desde que fomos assolados pelos pensamentos cartesianos, passando por Kant e tantos outros filósofos, sempre nos restou a dúvida: o que fazemos é pensar antes de agir ou agir antes de pensar?

A frase célebre do filósofo Slavoj Zizek “pense depois aja” pode ser um indício de que estamos indo pra esse caminho. Mas apenas tenho a audaciosa intenção de especular, não é meu papel escrever as soluções. A verdade não precisa ser alcançada a qualquer custo. Se a verdade chegou, acabou a ciência.

O que pretendo fazer é não esgotar aqui o debate. As velhas dicotomias entre Platão-Aristóteles, São Tomás de Aquino-Santo Agostinho, Fundacionalistas-Falibilistas parecem nos rodear com mais veemência na sociedade pós-moderna. A velocidade das transformações a torna líquida (pedindo emprestado o termo do Bauman).  Eis a velha pergunta de sempre: o que fazer diante dessa rapidez de transformação?  Cogito ergo sum ou o contrário?

O grande exemplo ilustrativo que eu trago nessa conversa (assim me sinto mais à vontade) é sobre a tatuagem na testa do ladrão. De um lado, uma torcida apaixonada por “bandido bom é bandido morto”, crivados na categoria da irracionalidade e na imediata tomada de decisão pela punição reflexiva. Um ode ao Código de Hamurabi: olho por olho, dente por dente, seus erros estampados na cara e salve-se quem puder.

De um outro, um pessoal que traz em seu discurso um pensamento mais “não precisava fazer isso”. Sabem que as leis estão aí, aqui e todos nós temos direitos e deveres para sermos julgados em instâncias jurídicas e que o povo não deve sair dando uma de “Frank Castle”. Mas purificam e subvertem a situação para a vitimização grotesca, criando apenas um “tapa-olho” nos olhos da realidade.

A cereja do bolo está no último andar do Empire State. Porque de um lado as instituições são grotescamente ineficazes, há uma série de variáveis sobre um julgamento “legislado”. Do outro, o imediatismo por não acreditar nesse processo,  faz o pensamento evaporar e procurar ser o próprio algoz. Qual lado escolher?

Ouvindo assim, parece um jogo entre Palmeiras e Corinthians, onde você briga com o outro pra defender seu time. E na verdade é o que o sistema e os que o mantêm vivo fazem: retroalimentam o ódio, pois ele faz com que não se reflita sobre nada, sublimamos nossa energia em épicas discussões de Facebook. Hooligans cibernéticos do século XXI não pensam sobre o problema por trás do problema. São lineares.

Entre pensar e agir, agir em pensar, não há meio termo pelo menos é o que parece na loucura da sociedade moderna e ambivalência (mais uma vez Bauman). Ou se pensa e age e vice-versa. Como diria o professor Vladimir Safatle, nossa sociedade é movida por afetos e o medo é o maior deles, o aspecto político central. O medo leva a ação imediata. Medo no sentido lato.  Mas e no caso do tatuador? Esse termo se dá numa perspectiva de Sociedade de Thomas Hobbes: A sociedade é um conjunto de relações intersubjetivas sem relação naturais. O que significa? Cada individuo não tem mais lugar natural e nem seus desejos.

A implicação imediata disso é que completamente não há espaço para todos os desejos, sendo esses ilimitados. Nessa assertiva, todos contra todos gera uma insegurança desmedida.  Palavras de Safatle “O estado de natureza (desses desejos) é latente”. Assim, partindo dessa lógica, a criação de instituições parte do medo dos indivíduos uns com os outros. O que acontece então quando essa instituição ou essas instituições não funcionam? Medo da morte violenta, medo da perda dos bens conquistados e voltamos para o medo da impunidade, no caso do tatuador.

A solução parece apontar para a dialética da situação. Apontar culpado não basta, a menos que você culpe todo o capitalismo por gerar miséria, sendo essa a pior forma de violência contra uma pessoa. Precisamos pensar e agir, depois de agir, pensar de novo, refletir. Uma dialética materialista mesmo: da síntese a tese de novo e de novo, no moto contínuo. Superar então a dicotomia, a polaridade da análise.

Ser tricotômico, no mínimo. Enxergar todos os lados. Ou permaneceremos diante das situações como macacos adestrados. Convido-os a ver as coisas como elas realmente são (a famosa pílula vermelha de Morfeu).

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Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

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