domingo, 25 de junho de 2017

Quando nosso espelho é o retrato de Dorian Gray

Por: Juliana Santin

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O que consegue-se descobrir através da página de uma pessoa no Facebook? Fazendo a experiência de ir descendo na tela no perfil de uma pessoa – pode ser até você mesmo, caso seja um usuário bastante assíduo -, o que é possível concluir? Podemos realmente traçar o perfil da pessoa através de suas redes sociais?

Estava me fazendo essa pergunta dia desses após ter gastado muitos minutos escarafunchando o perfil de uma determinada pessoa. Voltei anos na vida dessa pessoa somente vendo suas postagens no Facebook. Colocando lado a lado o que vi na rede com o que vi na vida real, ficou muito clara a enorme discrepância.

Fiz o mesmo exercício com meu próprio perfil. Faz muito tempo que deixei de postar coisas muito pessoais, o que conta pontos a meu favor; no entanto, sou usuária das antigas. Sempre gostei de tecnologia e sou dessas que instala tudo que sai de novidade antes mesmo de virar moda. Assim, antes do tempo que me afastei um pouco das redes, há um enorme período em que eu postava bastante. E, confesso, nem eu me reconheço em determinadas postagens.

Coincidentemente, em meio a esses devaneios, li o livro O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde. Li o livro praticamente inteiro em um dia. Devorei, mesmo. Depois, fiquei horas e horas pensando. E essa relação com o Facebook foi inevitável.

A história do livro é bastante conhecida: Dorian Gray é um jovem “maravilhosamente bonito, com seus lábios escarlates finamente encurvados, seus olhos azuis diretos e seu cabelo dourado e revolto“. Um artista pinta um retrato muito fiel dele e, ao perceber que esse retrato ficaria jovem para sempre enquanto ele envelheceria e perderia aquela que era, em sua opinião, sua maior riqueza, ou seja, sua juventude (que garantia a beleza), ele deseja que o retrato envelheça em seu lugar e que ele fique jovem para sempre. Seu desejo é concedido.

Claro, o livro é muito profundo e vai muito além da questão do envelhecimento físico. Na verdade, o retrato de Dorian Gray passa a ser afetado também, por todos os aspectos morais envolvidos nas ações dele. É como se todos os afetos negativos atingissem só o retrato, enquanto o verdadeiro Dorian Gray permanece lindo e jovem, somente com a parte “boa”. É como se a “alma” dele estivesse no retrato.

É muito genial essa metáfora da aparência que expomos ao mundo e o retrato sendo nosso “eu verdadeiro”, aquilo que escondemos do mundo. Sem falar dessa ideia de inversão – quem nunca sentiu uma pontada de tristeza ao ver uma foto antiga de si mesmo, jovem, magro, lindo? A inversão dos papéis – a foto envelhecendo em nosso lugar – é realmente brilhante.

É interessante notar que esse livro foi escrito bem antes da era das selfies e das redes sociais. Nessa época, o retrato era pintado por artistas. A ideia de ter milhares de fotos de si mesmo em um aparelho móvel na palma da mão e, mais ainda, de colocar essas fotos em uma rede de acesso mundial, era totalmente impensável para Oscar Wilde.

As redes sociais permitiram hoje que esse mundo de aparências que o Dorian Gray representa se tornasse muito mais palpável e praticamente um universo paralelo. O mundo virtual ganhou tamanha proporção que se confunde com o real, mas com uma enorme vantagem: ele é totalmente editável! As redes sociais estão lotadas de Dorian Gray. Somos todos Dorian Gray.

No entanto, a nossa maior maldição, nossa maior tristeza, é que aquele retrato que traz todas as marcas, os afetos negativos, as rugas, as celulites, os vícios, os maus hábitos, os medos, as inseguranças, as culpas, aquele que escondemos a sete chaves, como Dorian Gray fazia com seu retrato, aparece para nós todo santo dia quando olhamos no espelho.

O problema é quando o abismo entre o que exibimos nas redes e o que vemos no espelho se torna cada vez maior. Isso gera a necessidade de escondermos cada vez mais o retrato, do mundo e de nós mesmos. Além disso, as relações reais não são sustentadas pela imagem criada, levando a relações meramente superficiais e líquidas, como dizia Bauman.

No entanto, vivemos em um mundo cada vez mais obcecado pelas aparências. O mundo estimula que a gente esconda o verdadeiro retrato. O mundo pede aparência, pede falsidade, soterra, dia após dia, nossas “falhas” e “defeitos” embaixo de botox, gluteoplastias, silicones, toneladas de maquiagens, sorrisos amarelos e muito filtro e Photoshop. O mundo aplaude a aparência de plástico (ou plástica) e recrimina a aparência real – física e moral. Não se pode ser feio, velho, nem tampouco demonstrar fraquezas e defeitos. Nem tristes mais podemos ser – medica-se rapidamente, na busca desesperada pelo sorriso de plástico.

Dorian Gray não poderia ser mais atual! Um livro é clássico quando pode ser lido em qualquer época e continua sendo absolutamente atual. O mundo de hoje é uma fábrica de Dorian Gray, formando um exército de pessoas jovens, lindas, ricas e simpáticas, aparentemente perfeitas, mas que têm medo do próprio retrato.

As pessoas temem a si mesmas, hoje em dia. Elas se esqueceram da maior de todas as tarefas, aquela que alguém deve a si mesmo. Claro que são bondosas. Elas alimentam aos famintos e vestem os mendigos. Mas a própria alma delas tem fome e está nua. A coragem se evadiu de nossa raça. (…) O homem mais corajoso entre nós teme a si mesmo” (trecho do livro O Retrato de Dorian Gray).

Mas nada muda o fato irrefutável: o que vemos no espelho é o retrato de Dorian Gray. E isso nos corrói por dentro. Vamos ficando velhos, embolorados, ensanguentados, enrugados e tristes, muito tristes, por baixo dessa aparência de plástico de nossos corpos e de nossas redes sociais. Sofremos de ansiedade e nos escondemos do mundo. As relações só podem ser superficiais, porque não há a mínima chance de revelar o retrato na frente dos outros.

A solução para isso sempre acaba no mesmo ponto: coragem de enfrentar o espelho, de olhar para o retrato e de fazer as pazes com ele. Coragem de entender que rugas, marcas, cicatrizes, dores, tristezas fazem parte de sermos humanos, demasiado humanos. “O objetivo da vida é o autodesenvolvimento”, diz o livro.

Coragem de perceber que quanto menor for o abismo entre o que nos mostra o retrato e o que mostramos ao mundo, mais chances temos de sobrevivência. Porque, como no livro, o destino dos ‘Dorian Gray’, que somos nós, está ligado ao retrato. Ao tentarmos matar o retrato, morremos junto. Quanto mais nos distanciamos do retrato, do que vemos no espelho, do que nos assombra no escuro e na solidão, em nome da aparência, mais perto estamos do desacoplamento completo e da morte simbólica (ou não) de nós mesmos.

(A imagem é uma pintura de Eduardo Solá Franco).

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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