quinta-feira, 29 de junho de 2017

O lixo da Ideologia: a liberdade não é bem o que parece

Por: Luciano Pontes

post

Ao irmos no mercado, nos deparamos sempre com a mesma cena: pessoas olhando produtos, passando pelos corredores. Elas são consumidoras desses produtos, portanto o principal objetivo delas é comprar. Mas o que realmente elas compram? Será que um produto simples como pasta de dente sugere algo a mais?

O filme de John Carpenter, intitulado “They Live” (Eles vivem) é uma obra dos anos 80 que faz alusão aos questionamentos adjacentes. Nele, o personagem John Nada (proposital) é um trabalhador sem-teto, sem nenhum bem material que ao entrar em uma igreja supostamente abandonada, encontra uma caixa de óculos. Até ai parece um roteiro mal feito (típico dos anos 80 mesmo), mas algo me chamou a atenção. Quando John põe esses óculos, olhando para uma propaganda sobre passar as férias no Caribe, ele vê “marry and reproduce” (Case e reproduza).

Continuando, John olha para as revistas em uma banca. Vê apenas mensagens como “Obedeça”, “Assista TV”, “Não pense”. Na verdade esse óculos é o que poderíamos chamar de “crítica à ideologia”.  O protagonista ainda observa algumas pessoas e vê rostos deformados, como se fosse alienígenas disfarçados entre nós. (o spoiler acaba aqui!)

Na verdade, a mensagem do filme é “Por trás do peixe que tu tá vendendo, qual é o peixe que tu tá vendendo?” (Apanhador Só e suas músicas maravilhosas). Quando vamos comprar a pasta de dente no mercado: o que realmente estamos comprando: o produto ou a ideologia por trás deste?

Slavoj Zizek, filósofo marxista, em “O guia pervertido da ideologia” mostra como consumimos lixo todo o dia. Pois, assim como em Eles vivem, nós apenas seguimos ordens. A liberdade é aparente. Temos liberdade de ir comprar mais e mais. Mas isso é um pano de fundo para ELES poderem exercer seu poder. Disfarçado de “Descubra o seu verdadeiro potencial” no anúncio do carro, a mensagem verdadeira diria “ostente”. Um lixo ideológico perigoso.

Palavras do próprio Zizek:

“Quando você põe os óculos, você vê a ditadura na democracia”

Realmente falar de democracia onde a pobreza impera como maior forma de violência é contraditório. Não escolhemos nossos representantes, eles não nos representam (e sim ELES). A farsa da democracia se desmantela e se esfarela, quando Humberto Gessinger, em “3º do plural (ELES)” canta:

“Comida pra vender cigarro, cigarro pra vender remédio, remédio pra curar a tosse…”.

Nossa liberdade não existe: somos condicionados por alguma ideologia.

O que interessa é que nós possamos conscientemente ver a realidade. Numa cena (um pequeninho spoiler), John luta com seu amigo Frank, que se recusa a por os óculos. Saber da verdade dói, as pessoas preferem estar presas em seus cotidianos (não vou evocar Agnes Heller nem ninguém). Precisam dormir, se anestesiar de alguma forma da realidade dura. “ELES vivem, enquanto nós dormimos”.

Infelizmente a realidade é dura. A liberdade é aparente. Nós consumimos lixo, produzimos lixo (material). Minha professora de Geografia dizia “a sociedade é o espelho do lixo que produz”. Ela estava certa, já havia usado os óculos da verdade. Estou os usando e gostaria que você, caro amigo leitor, os usassem também.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER