quinta-feira, 20 de julho de 2017

Educação Libertária: Longe dos “parâmetros” curriculares

Por: Luciano Pontes

post

“Vai lá filho, estuda que eu quero ver você doutor” ou “Tá vendo? Fulano passou em direito e hoje tá tranquilo, estudando pra ser juiz”. Estas e outras frases nós estudantes, em qualquer nível que seja, ouvimos com muita frequência. O papel da educação não é mais de formar e sim de mecanizar processos, dos quais estamos cansados de associar aos “macetes”.

Falo isso porque leciono para algumas pessoas que pretendem fazer concursos e/ou vestibulares. Em sua grande maioria, os alunos não procuram o aprofundamento devido do conteúdo, que se faz necessário e suficiente para o seu real entendimento, tanto no concreto quanto no abstrato. Eles não querem saber porque uma função é do tipo ax+b e sim como responder uma questão em menos tempo.

Aliás o tempo é o maior inimigo dessa educação que se baseia em parâmetros curriculares. Aquela que acha que com 12 anos eu tenho que saber abstrair matemática sem sequer saber a utilização no meu dia-a-dia, que para compreender a história “decorar” (essa palavra é o ápice da não-educação) datas é o principal. Tudo isso porque vai cair no vestibular. Vai ser aquela questão do concurso pra você conseguir o emprego burguês que tanto se ouviu falar na vida escolar.

Venho então recorrer ao grande Edgar Morin, que no seu livro “A cabeça bem-feita” explicita não somente a interconexão entre as disciplinas (o que de fato é um dos auxiliadores na verdadeira educação libertária) quanto no processo de “mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça cheia”. Somos bombardeados por informações de diversos tipos nessa era cibernética, como diria Pierre Lévy. Cabe a nós criarmos um filtro para assimilar as informações necessárias.

O grande problema é associar essas informações, que muitas das vezes vem desconexas com elas mesmas e com o nosso cotidiano. Aquela máxima do “demasiado faz mal” aqui denota a capacidade máxima de informação por segundo, mas da capacidade mínima de absorção por esse mesmo tempo. Deixo bem claro aqui que não culpo nossa revolução tecnológica. Nem mesmo o aluno que prefere copiar o texto da Wikipedia para entregar à professora que nem sequer irá ler. O negócio é o processo como um todo: a informação e a formação.

No cavalgar desses dois processos, entender que o professor, o que ele significa e sua formação, é crucial para uma educação libertadora, porém é um tratado que parece cada vez mais distante. Uma educação que não somente informe, mas sim forme aquele que será o sujeito social. Não podemos mais preparar robôs para realizar processos mecânicos como fazemos nos cursinhos e, infelizmente, nas escolas. Um tratado com via de mão dupla. Uma educação além dos parâmetros curriculares. Além do quantitativo, do texto. Uma educação de verdade.

“A escola foi feita pra tudo, menos pra estudar!”

A frase acima foi proferida pelo professor aqui da UFS, Bernard Charlot, francês erradicado no Brasil. Sua palestra foi maravilhosamente comentada (e eu tive o privilégio de poder assistir) sobre como os alunos não entendem a lógica da escola, eles de fato estão na escola, institucionalmente. Mas não estão nela no sentido de intencionalidade: não se encaixam na escola, porque de fato a escola não os recebem como eles são e sim como eles deveriam ser. Produtos, educação despótica prussiana.

Coloco uma experiência própria: durante minha graduação, fui aluno do PIBID (iniciação à docência). Tive dois anos pra analisar e concluir que algo como esse programa não deve surtir efeito. Sou pessimista nesse ponto, pois o programa, a meu ver, prega/pregava  novas pedagogias, estratégias para o professor que não tem salário bom, trabalha 40 horas e tem que se virar em mil pra ter suas contas pagas no mês. Uma espécie de “professor nota dez” (que tem zero na vida real). Esse tipo de mecanização não pode e nem deve ser o norte para que se haja um novo pensamento no ensino. O ENEM é o resultado máximo de toda a mecanização: você precisa saber coisas de quatro áreas do conhecimento para depois não usá-las em lugar nenhum. E quando um desses passa em um curso “elitista”, o cursinho e/ou a escola apregoam a eficiência educacional do método.

No mais, a educação deve ser aquela que forme com liberdade, sem impor seus mecanicismos e seus macetes. Que traga o pensar e ajude a pensar. Não ensine a obedecer e sim a duvidar. Que simplesmente aja no significado e não no produto final. Que forme além de trabalhadores, pessoas.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER