segunda-feira, 24 de julho de 2017

Porque a generosidade nem sempre é uma virtude

Por: Juliana Santin

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Esses dias estava observando meu cachorrinho e vendo como ele está gorducho. Fiquei pensando um pouco sobre como chegamos hoje em uma situação em que até os cachorros estão acima do peso, mas percebi o seguinte: no caso do cachorro, quem controla a alimentação somos nós, os humanos. Assim, um cachorro come demais – ou come errado – porque os donos permitem. Dessa forma, não é nem um pouco estranho que os problemas e conflitos humanos reflitam-se nos animais de estimação. Afinal, muitos deles são criados como filhos, mesmo.

Se pensarmos na dinâmica da situação, percebemos que o que ocorre é que o cachorro, que é um animal ‘pidão’ por natureza, costuma pedir comida quando nos vê comendo. Nós, então, olhamos para aquela carinha e não resistimos: achamos que um pedacinho de pão ou uma bolacha não vai fazer tão mal assim. O resultado é que o cachorro se torna cada vez mais pidão – e cada vez mais gordo.

O que percebi com essa reflexão foi que, geralmente, não temos força para negar ao cachorro a comida, porque sentimos culpa. Só alimenta cachorro com pão com Nutella pessoas que gostam do animal. Olhamos para aqueles olhos e ficamos com dó e, se não damos, achamos que o animal vai ficar magoado conosco, não vai mais nos amar ou vai sofrer imensamente por não ter comido aquela comida que queria.

Para não fazer o animal sofrer por nossa culpa, damos a comida. Nós nos sentimos boas pessoas, amorosos donos que fazem seu cãozinho feliz, mas, a verdade é que estamos muito longe de estar fazendo bem ao animal. Um animal obeso tem muitos problemas de saúde, dificuldades em algumas atividades e maiores chances de doenças. Assim, a grosso modo, podemos dizer que para não sentirmos culpa, ou seja, para não sofrermos, damos comida demais e acabamos fazendo mal ao animal.

Ora, achei que essa coisa do cachorro que come demais porque não temos força para lhe negar algo que não será bom para ele é uma excelente metáfora para qualquer tipo de superproteção. Uma pessoa que dá demais à outra, inclusive amor, acaba tornando a outra pessoa ‘doente’ e ‘obesa’. É o caso, por exemplo, de pais superprotetores.

Por que nós não temos coragem de falar ‘não’ a nossos filhos muitas vezes, mesmo sabendo que essa deveria ser nossa atitude? Porque temos medo de magoar a criança naquele momento e sentimos culpa por isso. Temos medo de perder o amor do filho, então, damos demais. Achamos que estamos evitando um sofrimento na criança, mas na verdade, estamos mesmo buscando evitar um sofrimento em nós mesmos.

Isso também acontece entre adultos com frequência. Quem lê meus textos sabe que gosto muito das ideias do psiquiatra Flávio Gikovate, falecido no final do ano passado. E quem conhece um pouco de suas ideias já ouviu falar de sua divisão das pessoas entre ‘egoístas’ e ‘generosos’. Ele dizia que existem pessoas que gostam mais de dar do que receber, que classificou como generosos. Por outro lado, essas pessoas precisam conviver com outro tipo de pessoa, aquelas que gostam mais de receber do que de dar; essas, ele chamou de egoísta. O generoso só pode dar demais se existirem pessoas egoístas, que gostam mais de receber do que de dar.

A grande questão que o Gikovate trabalhou exaustivamente para mostrar é que a generosidade não é sempre uma virtude, como pensamos.

O problema é que a generosidade é sempre vista como uma coisa legal, mas, na prática, ela tem suas dificuldades. Às vezes, ou por medo de magoar, ou por culpa, por não querer ficar mal com aquela pessoa, ou até por medo de represália, um pouco reforçado por uma vaidade, porque as pessoas às vezes elogiam muito aqueles indivíduos mais dedicados e generosos, a pessoa acaba se sentindo meio elevado e superior com a sua generosidade, e acaba sendo mais doador do que sendo preocupado em receber, desequilibrando a balança”.

Esse é um ponto de vista que depende, mais do que tudo, de uma visão unilateral, quer dizer, eu estou sendo bacana e generoso, porque estou sendo uma pessoa dedicada ao meu próximo, independentemente da repercussão do meu ato sobre o outro. (…) Se eu sou um pai muito generoso e muito dedicado, provavelmente estarei reforçando o egoísmo do meu filho e não estarei contribuindo para que ele cresça, não estarei contribuindo para discipliná-lo e para ajudá-lo a se tornar uma pessoa também legal e preocupada com os direitos dos outros. Vou torná-lo folgado e, até certo ponto, estarei reforçando a pior parte da alma dele.”

Assim, quando nós muitas vezes nos oferecemos para fazer algo no lugar de nossos filhos porque “não nos custa nada”, estamos impedindo que eles aprendam a fazer sozinhos. Um exemplo disso é meu próprio filho, que durante muitos anos não sabia amarrar o cadarço do tênis, porque, devido à sua dificuldade e impaciência para aprender, sempre comprava para ele tênis que não precisava amarrar. Por dó dele, ou, provavelmente por não conseguir lidar com a minha dor ao ver meu filho supostamente sofrendo por não saber amarrar o tênis, resolvi o problema para ele por anos e o resultado foi que ele demorou muito para aprender, porque não precisava.

O mesmo vale em diversas outras situações. Uma pessoa que tem sempre feitas as suas vontades prontamente, seja por pais ou por cônjuges, não precisa esforçar-se para aprender nada. Torna-se uma pessoa cada vez mais fraca e incapaz, embora externamente ela até se pareça com uma rainha cujas vontades são sempre satisfeitas. Ela chora ou fala mais alto, pronto: tem tudo o que quer na mão. E, assim como o cachorro pidão, acostuma-se com isso.

Mas a verdade é que essa pessoa acaba ficando cada vez mais dependente dos outros, pois não precisa esforçar-se para nada. Lá no fundo, em seu íntimo, a pessoa não se sente rainha de nada, mas sim, sabe que é dependente e fraca e sua autoestima não costuma ser das melhores. É comum essas pessoas serem extrovertidas e muito sedutoras, com aspectos daquilo que conhecemos como pessoas narcisistas, ou seja, que adoram falar bem de si mesmas, dizer que são incríveis; elas precisam ser sedutoras porque dependem de outras pessoas em muitos aspectos. Usam seu charme, como o cachorro fofinho, para obter benefícios.

O fato é que as pessoas que recebem aquilo que não deveriam, o “pão com Nutella” indevido naquele momento, acabam se tornando como o cãozinho gorducho. A solução para esse problema, segundo Gikovate, é as pessoas mais generosas aprenderem a lidar melhor com sua culpa e com sua vaidade, para que deixem de desequilibrar a balança para o lado errado. Com isso, as pessoas mais folgadas acabariam tendo que se virar para crescer sozinhos – e acabariam crescendo e evoluindo muito nesse processo. É como o cãozinho que se recusa a comer ração, porque quer pão ou bolacha; se você não der nada além do que ele precisa (isso não significa deixar o animal passar fome), ele será obrigado a comer o que é bom para ele.

É claro que podemos fazer gentilezas e favores para pessoas que amamos, inclusive, nossos filhos, mas, como disse Gikovate, “sempre é interessante a gente imaginar a repercussão das ações da gente sobre as outras pessoas”. Encher nossos filhos ou outras pessoas de ‘bolachas’, que podem se traduzir em iPhones, carros, dinheiro, concessões, provavelmente fará mais mal do que bem para eles. Dessa forma, devemos sempre buscar relações, seja de qual natureza for – até mesmo com nossos animais de estimação –, que levem ao crescimento, ao bem-estar e à saúde, física e mental, de todos.

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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