quinta-feira, 27 de julho de 2017

Bauman e a crise da educação na pós-modernidade

Por: Genialmente Louco

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A educação tem sido, desde os mais antigos pensadores, um dos temas mais frequentemente discutidos. Ao longo da história, a busca por princípios que permitam ao ato educativo formar os cidadãos que a sociedade demanda – tanto no que diz respeito à sua sobrevivência e prosperidade, como à sua transformação, quando necessário – tem motivado pensadores de diversas áreas a questionar os valores subjacentes à prática pedagógica.

Atualmente, a educação formal se constitui em direito humano. Sobre isso, nossa Constituição Federal reza que “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988, Art. 205).

É preciso reconhecer que formar plenamente o indivíduo, torná-lo um verdadeiro cidadão e prepará-lo para o trabalho é uma tarefa grandiosa. Tão grandioso quanto os objetivos da educação brasileira seja talvez o descontentamento geral para com essa tarefa que o Estado se auto incumbe. Mas, o que é preciso mudar para que a educação institucionalizada faça jus às grandes diretrizes que a norteiam? Para o próprio Estado, é preciso, entre outras coisas, que a escola se adeque às demandas surgidas com o desenvolvimento das Tecnologias da Educação e Informação (TICs).

“Desde a construção dos primeiros computadores, na metade deste século, novas relações entre conhecimento e trabalho começaram a ser delineadas. Um de seus efeitos é a exigência de um reequacionamento do papel da educação no mundo contemporâneo, que coloca para a escola um horizonte mais amplo e diversificado do que aquele que, até poucas décadas atrás, orientava a concepção e construção dos projetos educacionais” (BRASIL, 1997, pág. 27-28).

Todavia, muitos devem se lembrar de que a resposta a tais demandas, em muitos casos, foram professores tentando compreender tecnologias que seus alunos mais novos já dominavam.

Para o sociólogo Zygmunt Bauman, esse não é o “x da questão”. O problema poderia ser definido como o que ele mesmo chamou de “cultura da oferta”, um processo que se desenrola de modo a transformar todos os aspectos da vida em mercadoria a ser consumida e rapidamente descartada. A rede mundial de computadores reforça um movimento muito maior de homogeneização das culturas mundiais – também eufemicamente chamada de globalização. Não se trata apenas de interconectar as diversas partes do mundo, mas de massificá-las, a fim de facilitar a inserção de hábitos e costumes que facilitem o movimento econômico-político predominante; o de consumir e descartar regularmente. Assim, fortalecido pelo alcance universalizado das diversas mídias e da rede mundial de computadores (hoje, figurando principalmente em suas diversas “redes sociais”), o consumismo desenfreado, combustível que retroalimenta o capitalismo, tem se impregnado nos diversos setores de nossas vidas.

Para Bauman, o reflexo disso na educação tem sido a sua transmutação em apenas mais uma mercadoria. Enquanto tal, não precisa corresponder à objetivos formativos que não estejam estritamente ligados ao movimento mercadológico. Nessa perspectiva, “a ideia de que a educação pode consistir em um ‘produto’ feito para ser apropriado e conservado é desconcertante, e sem dúvida não depõe a favor da educação institucionalizada” (BAUMAN, 2010, pág. 42).

A formação passa então a ser substituída pela informação. Hoje, vemos todo tipo de informação disponibilizada na internet. Muitas vezes, tais informações são veiculadas de forma indiscriminada e não passam por nenhum tipo de filtro. Nesse ponto evidencia-se ainda mais a necessidade do foco no quesito formação, pois, não obstante a grande gama de informações acessíveis, é perceptível a todos a forma como computadores e outros dispositivos análogos são utilizados de forma nada educativa. Por vezes, o uso de tais tecnologias chega a ser anti-educativo, na medida em que muitos se apropriam sem nenhum aprofundamento de resumos e sínteses simplistas e empobrecidos quando precisam fazer pesquisas ou trabalhos acadêmicos – isso sem falar nos sites de “trabalhos prontos”.

“Essa massa de conhecimento acumulado transformou-se no epítome contemporâneo da desordem e do caos. Nela mergulharam e dissolveram-se pouco a pouco todos os critérios ortodoxos de ordenamento: tópicos de pertinência, atribuição de importância, necessidades determinantes de utilidade e autoridades determinantes de valor. A massa faz esses conteúdos parecerem uniformemente descoloridos. Pode-se dizer que, nela, todas as informações fluem com o mesmo peso específico; portanto, para aqueles a quem se nega o direito de reivindicar a competência de seu próprio julgamento, embora sejam expostos às correntes de teses contraditórias dos especialistas, não há como separar o joio do trigo” (BAUMAN, 2010, pág. 59).

Tudo está ao alcance de um clique. Tudo parece ter a mesma importância. Notícias falsas são compartilhadas efusivamente. Dietas milagrosas surgem do nada e são largamente adotadas. As ditas “redes sociais” absorvem usuários e sobrepujam relações sociais reais. Jovens aceitam desafios com risco de morte (e morrem por eles) compartilhados nessas mesmas redes sociais. Pessoas morrem em acidentes enquanto absorvidas em jogos digitais… Frente a esse cenário, fica claro que se exige da educação respostas a questões surgidas de um processo que não pretende formar indivíduos, mas massificá-los, homogeneizá-los.

A educação se vê hoje em uma crise que reflete as próprias dificuldades de se viver num mundo líquido (tomando emprestando outro conceito de Bauman). Num mundo em que até as bases sociais mais sólidas se liquefazem. Num mundo em que se chegou mesmo a cogitar que a popularização do computador e sua rede mundial tornariam obsoletos escolas e educadores. Num mundo em que “A arte de viver num mundo hipersaturado de informação ainda não foi aprendida. E o mesmo vale também para a arte ainda mais difícil de preparar os homens para esse tipo de vida” (BAUMAN, 2010, pág. 40). Pensar educação hoje precisa corresponder, mais do nunca, a questionar até que ponto o ato educativo deve responder às demandas sociais e até que ponto deve urgentemente buscar transformá-las.

 

Autor: Renato Paixão.

Referências:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 05 de outubro de 1988.

BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. 126p.

BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo parasitário e outros temas contemporâneos / Zygmunt Bauman e Tim May; tradução Eliana Aguiar. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.

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Sobre o autor

Genialmente Louco

“Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada.” Zygmunt Bauman.

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