terça-feira, 1 de agosto de 2017

Política, religião e riscos

Por: Alberto Silva

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É notória a crescente força do discurso conservador no país (afirmação que virou lugar comum mas que sempre deve estar na ordem do dia sendo repensada). O petencotalismo sem dúvidas tem um papel importante nisso. Basta olharmos para a bancada cristã que se formou no Congresso Nacional nessa década – coesa em torno do retrocesso – que temos uma medida, quase como num ato reflexo, do impacto dessas organizações religiosas nas instituições políticas. A vocalização de “demandas morais”, dispositivos no mínimo curiosos, mas que são tendência em países protestantes como os EUA (o GOP* é sua materialização) faz com que um amplo eleitorado se constitua, aceitando rifar os seus direitos sociais em nome da defesa de discursos e entidades abstratos como o “mérito”, o “trabalho duro” e a “família”, bem como outros pomposos artefatos ideológicos. As consequências da ocupação de espaços políticos por setores cujo compromisso com o Estado laico é frágil representa uma ameaça para a garantia de direitos fundamentais que tem permitido (não há muito tempo) a setores marginalizados material e simbolicamente o exercício das liberdades individuais, a duras penas, e o acesso a algumas concessões.

As adversidades do obscurantismo não se restringem é claro à arena legislativa, da qual tem saído os projetos mais aterradores no que diz respeito à regressão anti cidadã. A ação política, vale lembrar, transpassa os muros dos campos decisórios e se estende indefinidamente pelas demais esferas sociais, constituindo ações concretas de violação das humanidades e imaginários. No último domingo (30/07), um grupo de manifestantes autodenominados cristãos (mas que sem dúvidas desconhecem a ideia de “amor ao próximo” que nos legou Jesus Cristo) protestavam contra a chegada de imigrantes muçulmanos na zona sul do Rio de Janeiro em frente a uma delegacia de polícia. As faixas levadas pelos sujeitos carregavam uma série de informações que impeliam ao enfrentamento e aniquilação dos seguidores do islamismo, muitas vezes advindos de países que passam por confrontos políticos ou mesmo de cunho religioso. O caso, que evidencia racismo latente mas que passou desapercebido – intencionalmente – pelos agentes de segurança pública da “cidade maravilhosa”, é só um dentre as várias manifestações assentadas no discurso de ódio que tem por fim último a desumanização do “outro” e sua respectiva deslegitimação enquanto pessoa portadora de prerrogativas nos contextos públicos.

O argumento da “tolerância”, mínimo se levarmos em conta o preceito do “respeito”, costuma ser mobilizado quando o que está em questão é o confronto entre a participação política democrática que permitiu a existência de uma bancada (entre outras) mobilizada em torno do retrocesso e o fato de que o Estado moderno precisa conviver com a existência da pluralidade das mais diversas crenças e costumes, sem que um que se sobreponha aos demais. Essa mesma noção, herança de um legado racionalista, não se faz presente nos projetos que são apresentados ano após ano em oposição evidente ao fundamento mesmo da laicidade. As entidades públicas per se ainda guardam resquícios dos tempos em que Estado e Igreja estavam formalmente imiscuídos na Constituição Brasileira (antes de 1891, e portanto nos “gloriosos” tempos do Império), como a promiscuidade que marca a presença de crucifixos nas paredes de órgãos estatais e o apoio imoral dos governos em seus diferentes níveis às instituições religiosas, seja por meio da delegação de atividades que deveriam ser prestadas pelo Estado – conforme a finada Carta Magna de 1988 – seja através da isenção de impostos, justificada com base no questionável fim não lucrativo das igrejas. Ora, sabe-se que a mercantilização da fé é um fato mais que comprovado hodiernamente, principalmente nos estabelecimentos neopetenconstais.

Não são apenas os imigrantes que tem entrado na mira do fundamentalismo político organizado. Mulheres, LGBT, negros etc viraram alvo predileto de parte – é necessário ressaltar – dos arrogados cristãos que tem emergido no debate social. Longe de apresentarem argumentos racionais e universais – requisito básico para quem pretende impor leis que afetam as possibilidades de escolha de camadas consideráveis da população – o irracionalismo à la ISIS** é o que pauta a agenda anti científica e anti democrática dos referidos reivindicantes. A viralização dos fluxos e contrafluxos que vem se situando no campo conservador (por motivos óbvios) é antitético com o fato da diversidade que marca as sociedades contemporâneas. O que se quer dizer não é que segmentos sociais majoritários – em um mundo ideal – deveriam ser excluídos dos locais de tomada de decisão, mas pura e simplesmente que mesmo a livre ação de ir de encontro a uma série de direitos historicamente conquistados precisa de justificação racional para ser validada. Sem isso, não há democracia ou civilidade, mas a barbárie em sua forma integral que só contribui para exponencializar o confronto político-ideológico vigente já há alguns anos dentro e fora das instituições. Aprofunda-se a discórdia que nos tem abatido e sufocado, diluindo a ideia mínima de “nação”, responsável pela produção de uma suposta coesão cultural interna nos regimes políticos, com todas as adversidades. A guinada da direita religiosa no país é sinal de que a conciliação dos anos 2000 demorará muito tempo para ser restaurada. Daí a necessidade de rupturas a médio prazo.

Utilizando o transporte público de Brasília há dias atrás, senti todo esse contexto regressista de maneira mais latente. A cidade é majoritariamente evangélica. Pelas janelas dos ônibus, pude observar em cada esquina uma igreja, de nomes e matizes os mais variados. Em um de meus passeios, o coletivo se fez púlpito, com um senhor que se valia inclusive de microfone e som portáteis para redimir os “infiéis”, muitos dos quais o aplaudiam. A cena é cotidiana e os sujeitos que costumam compô-la vem da classe trabalhadora, a mais prejudicada com o processo de “gentrificação planejada” que fez e faz parte da história dessa cidade. São os que demoram horas para se deslocar diariamente rumo aos seus postos precarizados, das cidades satélite em direção ao Plano Piloto***; que lutam pela sobrevivência em meio a insegurança pública do distrito federal, resultante das desigualdades abissais; que vivem nessa rotina-máquina de mercado, consumidora de energias e esperanças. São esses os mais propensos a aceitar a realidade social tal qual ela se apresenta, ainda mais quando a sua intermediação mais detida com o “real” se dá por  meio de uma espiritualidade de caráter fortemente pró-hegemônico (o que não significa que não haja resistência a ser explorada também nesses espaços de fé).

*Sigla para o Partido Republicano, a maior agremiação política dos EUA.
**Sigla para o Estado Islâmico do Iraque e do Levante
***Projeto idealizado por Oscar Niemieyer e Lúcio Costa, que atualmente abriga as classes média alta e alta da capital federal, e concentra a maior parte da renda, serviços e alternativas culturais do Distrito Federal. A qualidade de vida no Plano é comparada a de países como a Bélgica, em contraponto às cidades satélite, representações do “Brasil real”.

 

Imagem: a defeituosa recuperação do “Cristo” de Zaragoza.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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