terça-feira, 8 de agosto de 2017

O quão frívolo é o nosso mundo

Por: Alberto Silva

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Eça de Queiróz, escritor português e autor do célebre “A cidade e as Serras”, faleceu na cidade de Paris no ano de 1900, capital da França, país que o deixara decepcionado em virtude da “frivolidade da cultura francesa”. O conjunto das crenças, costumes e hábitos que tornaram historicamente a cidade-luz o berço irradiador dos mais caros valores ao Ocidente já deixara espantado o literato em uma época na qual mesmo os mais conservadores em matéria de cultura – especialmente os que fazem a ultrapassada distinção entre “alta cultura” e “baixa cultura” – admirariam aquilo que se fazia no rol das diversas artes que transitavam entre os requintados salões europeus. Explicações para esse “estado de ânimo” do português, cujo talento chegou até nós em obras impagáveis como “O Primo Basílio”, podem estar diretamente relacionados ao aburguesamento cultural pelo qual passara a nação da Marselhesa durante toda a Revolução Industrial. Com a ascensão da classe dos comerciantes (para usar o termo vulgar), desprovida de poder político no Antigo Regime, às esferas antes dominadas pela aristocracia, em franco declínio com a guinada das máquinas, modificou-se toda uma visão de mundo, o que impactou diretamente na estrutura do ethos reinante e nos discursos legítimos das sociedades capitalistas de então.

A mercantilização blasé que compõe o espírito burguês por excelência – e aqui me refiro a uma burguesia produtiva que começou a se dissolver com o salto dos rentistas em meados do século passado – foi causando, no argumento dos homens de letras saudosistas, a degradação da cultura europeia, que não muito tempo antes da época de Eça se deparava com a retomada dos ideais clássicos greco-romanos, responsáveis pelo academicismo artístico em voga até o que Louis Vauxcelles, influente crítico de arte, cunhou em 1905 de “fauvismo”. A modernidade em pleno vigor enterrava os retratos à óleo e punha as imagens reais fixas, com a centralidade da fotografia, ou em movimento, com a invenção do cinema pelos irmãos Lumiére. Acelerar, verbo e movimento do homem desde os primórdios do seu processo evolutivo, é palavra de ordem e tônica, protagonista da estética e das ações humanas lidas desde então.

A literatura virara arma de crítica social e não mais gozo estético pautado nas apreensões de experiências burguesas e brancas escritas. O luso fez parte também desse giro mutualista daqueles tempos. Era uma época de transformações, não se sabe bem se de grandes transições – e aqui há diferenças importantes -, até mesmo porque o contexto da frase de Eça é ainda o da doce paz propiciada por quase um século de vigência de acordos de paz; contexto de calmaria no qual o Império Britânico (“onde o sol nunca se põe”) impunha hegemonicamente – e violentamente, como é típico dos paradoxos do modo de produção vigente – o livre comércio em todo o mundo, mas já com postulantes violentos ao título de grand empire, a exemplo dos tardios capitalistas Alemanha e Itália, que posteriormente não poupariam esforços para aniquilar a aliança dominante desde mais ou menos o século XVIII, pondo fim à belle époque.

Portanto, pode-se falar da erosão nas acomodações sociais de duas culturas que compartilhavam um mesmo espaço, embora com o maior predomínio de uma sobre outra em virtude mesma do contexto. Seriam essas guardadas por resquícios neomedievais de um lado e por rompantes e alusões aos antigos de outro. O maquinário, habilmente manipulado pelos homens e mulheres que duro lutavam nas fábricas sob horas e horas submetidos à fuligem fulminante, tem respingos diretos na maneira como passaram a se locomover os seres e a constituir a sua cultura. A perplexidade com a frivolidade é natural em tempos em que as tecnologias avançavam – já era possível falar ao telefone por exemplo – e o homem espreguiçava-se, deleitado nas possibilidades que a própria produção excedente poderia lhe oferecer. A ilusão nunca cumprida da “emancipação do trabalho” chegou a surgir décadas depois; tempos antes era a de que sobreviveríamos sem conflitos. São utopias racionalistas, que impactaram sobremaneira ação e produção, mas que deixaram frustrados teóricos e homens comuns ao longo de toda uma geração, desencantados com a transformação, após serem espectadores de uma longa destruição. Obnubilados os destinos, o luso talvez tivesse razão. Naquela época de pompa e grandiosidade, não se via apenas a debacle da cultura, resultante do avanço desmedido da ideologia, mas a própria degeneração do homo que deixa de ser sapiens e passa a ser economicus. E se Eça, que não era marxista, mas artista realista, fizesse uma visita em nosso tempo para ver onde o capitalismo nos levou? Certamente a frivolidade que domina todas as esferas da sociedade, públicas ou privadas, o mataria de súbito, tamanha a inadaptação.

Anthony Elliot*, sociólogo australiano, tem trabalhado com o conceito de “novo individualismo” para expor as enormes aberrações, contradições e consequências da bulimia informacional e consumista a que os cidadãos, principalmente nos países do Norte Global, têm sido submetidos. O impacto da espetacularização e da redução absoluta de anseios e sentimentos a mercadorias tem prejuízos para as subjetividades dos sujeitos do nosso tempo. São gerados comportamentos no mínimo bizarros em função do aprimoramento sem freios do self e do ego, que vão desde a moda das “dietas” radicais, passando pela produção do fato cotidiano com vistas à exposição digital e chegando até o consumo trilionário da pornografia virtual, repleta de nulidades e vazios. Há quem diga que isso é só a positiva manifestação de um mundo que oferece possibilidades infinitas de intercâmbio e um conjunto de facilidades que jamais seria possível há duas ou três décadas atrás. Ou então que não passa do bom e velho “pluralismo” que só nos tem a ensinar (algo de fato inegável). Essas são chaves distintas para ler o mesmo fenômeno e podem nos levar a conclusões esperançosas acerca dos caminhos trilhados na “sociedade de consumo”. Porém, é inevitável que o culto frívolo da individualidade, contorno de toda uma cultura que vem se desenvolvendo anteriormente aos reclamos de Eça, traga a paulatina e terrível dissolução da solidariedade social e dos valores coletivos.

*Ver “The New Individualism: the emotional costs of globalization” (ELLIOT, 2005)

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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