quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Império do Ódio

Por: Erick Morais

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Eduardo Galeano, com a sua incansável magia com as palavras, disse que vivemos sob o império do medo. Ele está em todos os lugares, em todas as pessoas, nas relações, nas conversas, nas interações, no olhar. Ele ocupou todos os espaços da vida e, por isso, estamos paralisados. Paralisados pelo medo. E, estando sob esse “medo global”, quais problemas e implicações que nós enquanto indivíduos e sociedade temos enfrentado?

Embora existam várias problemáticas oriundas do medo, quero me ater ao que talvez seja o pior, pois pode ser analisado como a síntese dos demais. Falo do ódio. É extremamente difícil precisar qual a origem do ódio, uma vez que uma infinidade de possibilidades factíveis pode estabelecer a sua gênese no homem. Entretanto, parece-me que a história tem nos mostrado que se o medo não é o princípio do ódio, pelo menos é seu grande desencadeador, sobretudo, quando se trata de um medo bem específico: o medo do diferente.

O “diferente” sempre foi visto como algo estranho à própria condição humana, de tal maneira que indivíduos marcados por tal alcunha – de ser um sujeito “estranho”, “diferente”, “bárbaro” – deveriam ser desconsiderados em suas singularidades e, conseguintemente, colonizados; ou pior, não merecedores sequer da colonização e da possibilidade de “salvação”. Essa estrutura binária entre medo e ódio se repete aos montes ao longo da história, mas há um caso que, a meu ver, talvez seja o mais emblemático e elucidativo para a questão, qual seja, o nazismo e sua consequência inseparável, o holocausto.

É difícil imaginar em um primeiro momento qual a grande diferença colocada entre um alemão não judeu e um judeu, não raras vezes, também alemão. No entanto, ao observar o discurso de Hitler, conseguimos compreender em que lugar se “cria” a diferença: no campo econômico. O discurso simplista do nazismo culpabilizava os judeus pelo estado dificultoso em que a Alemanha se encontrava, “criando” a dualidade de uma Alemanha composta por alemães puros, desempregados, sem posses, sem recursos, sem alimento e vivendo na miséria; enquanto os judeus estavam empregados, com posses, mesas fartas e desfrutando de vidas maravilhosas. E, ainda que essa diferença não seja completamente mentirosa, qual o sentido de sua apropriação e, consequentemente, inovação proposta por Hitler? Evidentemente, originar a condição própria para que o ódio contra os judeus se proliferasse e, em seguida, se tornasse algo banal (banalidade do mal).

Trocando em miúdos, era necessário que se criasse uma extrema diferenciação entre o alemão puro e o judeu, que ao se manifestar nas “disparidades” econômicas (apenas para os mais pobres, de fato, e não para a alta cúpula militar e o empresariado alemão que apoiaram e possibilitaram em sua grande maioria a implantação do regime nazista) trouxe à tona outras divergências e estereotipações históricas que marcam os judeus, possibilitando a difusão e o “desenvolvimento” do ódio a partir do medo pelo diferente representando naquela situação pelos judeus.

Todavia, como coloca Galeano e percebemos na sociedade, essa combinação medo-ódio ainda se perpetua, de tal maneira que emergem figuras como Donald Trump, que conseguem ocupar postos altíssimos na sociedade, sendo legitimados pelos próprios sujeitos que a compõem, com discursos marcadamente odiosos e originários, mais uma vez, no medo daquele que tem na sua “diferença” a criação de um mal que precisa ser combatido, barrado (muros contra latinos, muros contra refugiados, muros contra os favelados, em suma, muros contra os não-humanos) ou exterminado (holocausto).

Diante disso, vem-me à cabeça uma questão: como podemos viver como humanos se somos movidos por medos, ódios e individualismos? Como podemos nos compor enquanto sociedade se tudo aquilo que pensa diferente é visto como um mal a ser combatido? Enquanto não investigarmos as raízes totalitárias desse império do medo, continuaremos sendo conduzidos pelo ódio. Bem como, construindo em nós carapaças para o mundo, vivendo cercados de muros e isolados de gente, gozando do terror, embora nas ruas escuras desses muros de “proteção” o vento leve junto com as folhas que ao chão se colocam, as marcas deixadas pela nossa fria desumanidade.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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