quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Quando a criança voltou a ser camelo: as três transformações de Nietzsche

Por: Juliana Santin

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Passei recentemente por um período bastante tenso e estressante. Isso porque vislumbrei uma possibilidade de uma grande mudança, que significaria mais dinheiro no bolso no final do mês, mas uma desestruturação de toda minha vida como ela é agora. Isso me gerou um enorme ponto de interrogação e me colocou em uma corrida desesperada para agarrar essa suposta oportunidade – e para me convencer de que havia algo além do dinheiro que estava me levando a cogitar essa mudança.

Após três semanas tendo insônias e enxaquecas emendadas uma na outra, percebi que me sentia PESADA. Há alguns anos, considero-me uma pessoa LEVE. Isso foi conquistado após um longo trabalho terapêutico e interno. Isso significa que o mundo, que normalmente é pesado para todos, não me curvava mais e não me destruía; ao contrário, eu e o mundo fazíamos uma boa dupla. Poucas coisas me abalavam as estruturas e, de uma forma geral, eu me sentia de coração leve e com um (quase irritante) bom humor diante da vida.

Por isso mesmo, observei horrorizada a mim mesma tomando atitudes que há vários anos não tomava mais, como ficar extremamente impaciente com meu filho, chegando a ser grosseira com ele, ou perder totalmente a compostura por um problema bancário, chegando a bufar e a jogar longe meu celular. O que mais me atormentou, no entanto, foi o peso: eu me sentia pesada, cansada, arrastando-me por aí, irritada e impaciente. Voltara a ser como era a “eu” de antes e, convenhamos, como é a imensa maioria das pessoas adultas que vivem no mundo.

Ao perceber isso, obviamente dei um basta na situação. Percebi que mais do que apenas um frio na barriga e um medo da mudança, eu estava sentindo um alto nível de ansiedade, que meu corpo sinalizou muito claramente, e achei que deveria ouvi-lo – nosso corpo costuma ser muito assertivo em suas demonstrações.

Essa coisa de me sentir pesada me remeteu às três transformações de Nietzsche no livro Assim falou Zaratustra. Li isso faz muito tempo e nunca mais me esqueci. Nietzsche enumerou três transformações do espírito: esse se torna camelo, depois se torna leão para, por fim, transformar-se em criança.

Na primeira transformação, o espírito se transforma em um camelo, ou seja, um animal de carga. Nesse caso, o camelo carrega uma carga enorme em suas costas, proporcionada pelo mundo. Essa carga pode ser representada pelas obrigações, pelos deveres, pelas censuras, pelas regras morais, pela sociedade, por tudo aquilo que sentimos em um dado momento da vida que precisamos carregar nas costas e o fazemos, de forma resignada, sem questionar.

Os espíritos de camelo são as pessoas que se arrastam pelo mundo, torcendo para que o dia acabe logo, para que chegue logo as férias e finais de semana; aqueles que trabalham para pagar contas, que se vestem para se adequar às regras, que compram para fazer parte da festa, que fotografam tudo e postam como se tivessem escolhido aquela vida – ou para deixar selado, registrado, carimbado, avaliado e rotulado que foram oficialmente promovidos a camelo, podendo ser membros sêniores da sociedade vigente.

Há muito peso para o espírito, para o espírito forte, de carga, no qual habita a reverência: sua força exige o pesado, o mais pesado. Tudo isso de mais pesado toma o espírito de carga sobre si: como o camelo que, carregado, se precipita ao deserto, precipita-se ele a seu deserto.” (Trecho do livro Assim falou Zaratustra).

Ocorre, então, a segunda transformação do espírito: o camelo se transforma em leão. “Porém no mais ermo dos desertos ocorre a segunda transformação: o espírito torna-se aqui leão, ele quer tomar a liberdade como presa e ser senhor em seu próprio deserto.”

Essa, para mim, é a parte mais genial: o leão quer digladiar pela vitória com um dragão. “Que grande dragão é esse que o espírito não mais pode chamar senhor e deus? ‘Tu deves’, chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz ‘eu quero’”.

Então, o leão precisa vencer esse dragão, que um dia já foi deus para ele, chamado TU DEVES, ou seja, precisa acabar com toda a imposição de leis e regras vindas de fora. Ele diz que valores milenares cintilam em todas as escamas desse dragão de brilho dourado. “Todo valor das coisas – cintila em mim. Todo valor já foi criado, e o valor criado para tudo – este sou eu. Deveras, não deve haver mais nenhum ‘eu quero’!”. Assim fala o dragão, diz Zaratustra.

Então, o dragão deixa claro que não há espaço para o ‘eu quero’ no mundo dos camelos. O caminho e os valores já estão todos traçados e escritos em suas escamas. Temos que nos curvar a ele. É como no conto de Saramago: não há mais ilhas desconhecidas, todas as rotas já foram mapeadas.

Mas, afinal, para que serve o leão? Por que não é suficiente o animal de carga, que renuncia e é reverente? O leão, segundo ele explica, não é capaz de criar novos valores, mas serve para criar a liberdade para novas criações. “Adquirir o direito para novos valores – é essa a aquisição mais terrível para um espírito de carga reverente”.

É daí, então, que vem a necessidade da terceira e última transformação: o leão se transforma em criança, essa sim capaz de criar novos valores. “Inocência é a criança, e esquecimento, um recomeço, um jogo, uma roda que gira a partir de si mesma, um primeiro movimento, um sagrado ‘dizer sim’ (…) A sua vontade quer agora o espírito, o seu mundo ganha agora aquele que fora perdido para o mundo.”

A transformação final é para o espírito que cria os seus próprios valores. E, ao contrário do camelo, o espírito da criança é leve e irreverente. Foi com muita satisfação que constatei que meu espírito tinha evoluído para a criança e era isso que me causava a leveza.

Consegui construir uma vida muito mais baseada no ‘eu quero’ do que no ‘tu deves’. A minha criança se alegrava com facilidade, porque ela sabia o que queria – e fazia a maior parte dessas coisas, ainda que essas coisas não fossem nem de longe consideradas prioridades escritas nas escamas do dragão. Passear com o cachorro todos os dias, cantar e dançar na rua, passar um sábado inteiro lendo Oscar Wilde ou poder trabalhar com um gato gordo sobre a mesa, faziam parte dos meus quereres satisfeitos. E, melhor ainda, praticamente de graça!

Mas o dragão é dourado e atraente, exercendo um domínio e um fascínio enormes. Quando vi, estava acreditando (de novo) que os valores escritos em suas escamas, muitos deles precisando de dinheiro para serem satisfeitos, eram os valores a serem perseguidos, mesmo que para isso eu precisasse abrir mão de alguns quereres. Afinal, é só um cachorro, um gato, tempo, uma cidade e um bairro arborizados, livros, família e amigos… E quando me vi estava lá, com uma carga enorme nas costas, sentindo-me pesada, desértica – a criança voltara a ser camelo.

A minha sorte é que eu sei muito bem reconhecer um camelo e a minha criança está ficando mais forte a cada dia. Voltei a dar a ela o comando da minha vida. Ela ficou meio baqueada, meio machucada, a enxaqueca continua fraquinha, mas é só uma questão de tempo para meu espírito voltar a ser uma criança e, dessa vez, cada vez mais irreverente.

E também a mim, que sou bom com a vida, borboletas e bolhas de sabão e o que mais desse gênero ocorre entre os homens parecem saber mais do que ninguém a respeito da fortuna. (…) Não é com ira, mas com risos que se mata. Avante, matemos o espírito do peso! Aprendi a andar: desde então deixo-me correr. Aprendi a voar: desde então não quero ser empurrado para sair do lugar. Agora sou leve, agora voo, agora me vejo sob mim mesmo, agora um deus dança através de mim”.

Assim falou Zaratustra.

A imagem que ilustra o artigo é de Carlos Plaza de Miguel (clique aqui para ver o original).

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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