quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Hitler está em todos nós

Por: Erick Morais

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Manifestações com marcas de intolerância, ódio, preconceito e raiva costumam nos assustar, uma vez que demonstram quão distantes ainda estamos de atingir um grau maior de humanidade enquanto civilização. Os recentes protestos nos Estados Unidos exemplificam isso, mas é preciso perceber que eles são apenas a ponta de um iceberg que vem aumentando de tamanho em uma escala de terror assustadora.

Tempos de crise são repletos de desesperança, dizia Bauman. Desse modo, em um contexto de crise, como o nosso, não me parece estranho que o horror esteja se tornando show, como ocorre no mundo distópico de Laranja Mecânica. É mais fácil cegar-nos, destituirmo-nos da razão e do afeto e tão somente apontar o dedo para o outro, culpando-o por todos os problemas presentes no mundo.

Definir que o inferno são os outros é uma tônica na história, se repetindo ora como tragédia, ora como farsa. Assumir a responsabilidade pelo mundo parece não ser uma das grandes características do homem, que prefere culpabilizar determinados grupos pelos problemas existentes. Problemas que não raras vezes se traduzem como existir de forma “inapropriada” segundo os padrões daqueles que julgam ser os senhores do mundo.

Como dito, os atos de intolerâncias praticados no país da “democracia” não são únicos, nem pontuais. Eles vêm acontecendo repetidamente, inclusive no Brasil, em que a forma de agir e pensar do outro tem sido totalmente desrespeitada. Basta lembrar dos xingamentos odiosos lançados aos nordestinos nas eleições de 2014, da arena de gladiadores que se tornou o Facebook ou da tatuagem feita na testa do jovem, que supostamente teria tentado furtar uma bicicleta. Tudo isso evidencia a cegueira que nos encontramos, em que o ódio parece ser o único sentimento a nos guiar.

No entanto, é preciso ir mais longe, para que possamos perceber a linha que liga esses acontecimentos e que permite que eles aconteçam. Analisar cada fato de forma isolada não elucida totalmente a problemática. É necessário tentar perceber o porquê de haver tanto extremismo e preconceito em um mundo, em regra, construído sob o pilar da democracia e cercado de informação.

Nesse sentido, parece-me imprescindível perceber e considerar que as condições em que a nossa sociedade está alicerçada não favorecem o desenvolvimento real de concepções democráticas de mundo, deixando a democracia em um campo muito mais teórico do que prático. Da mesma maneira, o oceano de informações que existe serve muito mais à cultura de massa, visando à alienação e à massificação das pessoas, que o progresso do espírito humano. Aliás, progresso existe tão somente no sentido material, em que todos devem obedientemente seguir o relógio moral da máquina, a fim de que haja sempre maior produção de riqueza, ainda que isso custe a nossa humanidade.

Sendo assim, sobra pouquíssimo espaço para que o pensamento crítico e o afeto possam existir, de modo que a condição humana se torna extremamente robótica, acrítica e fria. Ou seja, em ótimas condições (com o perdão do trocadilho) para que ideias retrogradas, racistas e desumanas se procriem com extrema facilidade e velocidade. Pior, para que o mal seja praticado de forma banal, como se a violência contra outros seres humanos fosse algo natural e até mesmo necessário.

Em outras palavras, a constituição do mundo moderno, cercado de tecnologia, mas frio em humanidade, recordista em produção de riqueza e na mesma medida em desigualdade, favorece o desenvolvimento do ódio, da intolerância, do medo do outro – que se apresenta sempre como uma ameaça e nunca como uma promessa –, da violência (em seus vários sentidos), da indiferença, do egoísmo, em suma, do mal. Mal que de tanto ser praticado, se naturaliza e de tantos adeptos, se torna banal, uma tragédia não de monstros extraordinários, mas de homens ridiculamente comuns.

E, assim, as marchas pela intolerância, clamando o extermínio físico e/ou existencial de grupos historicamente perseguidos e marginalizados, como negros, gays e judeus, vem à tona. E como resposta, temos um eco muito maior de silêncio e apoio do que de resposta contra a barbárie, neste caso, expressão devidamente aplicada. Isto é, temos a demonstração de que tais manifestações encontram guarida em vários cantos do mundo e em um número cada vez maior de pessoas, de tal forma que a banalidade do mal se torna clara, como asseverou há bastante tempo Hannah Arendt.

A clareza do mal, se assim podemos dizer, faz com que percebamos e entendamos, pelo menos os que ainda se permitem pensar, que eventos como o holocausto não são tão distantes e que figuras como Hitler não são indivíduos únicos. Muito pelo contrário, eles se repetem e estão próximos de nós. Diria mais, está em cada um de nós. Portanto, não existe a personificação do mal. Existe o mal e a sua prática, e entre uma coisa e outra, a sociedade, que precisa urgentemente repensar os seus valores, caso não queira que o mundo inteiro se transforme em um grande campo de concentração.

 

PS: Deixo como recomendação cinematográfica o ótimo filme “Ele está de Volta”, disponível na Netflix, que retrata muito bem as questões expostas no texto.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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