sábado, 19 de agosto de 2017

Oslo, 31 de agosto: A morte social e a depressão

Por: Luciano Pontes

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Joachim Trier, primo distante de Lars von Trier, mostra seu lado depressivo no longa Oslo, 31 de agosto. Filme norueguês, que fala sobre a morte social, o vício, a depressão, relacionando com as nossas escolhas. A fotografia saudosista, nos remete à concepção do personagem e suas questões existenciais.

(Eu sabia que o sobrenome Trier não decepcionaria). Primo distante de Lars von Trier (Melancolia, Ninfomaníaca, Anticristo) , Joachim Trier tem uma carreira recente no cinema: seu primeiro longa foi em 2006 com o filme Começar de novo. Já podemos perceber que os Triers são excelentes cineastras, a família toda tá envolvida com a sétima arte.

O primo mais famoso mesmo se arriscando nos mares da depressão em Melancolia, não chegou nem a fazer cócegas quanto a Oslo, 31 de agosto . O filme é uma adaptação do romance Le Feu Follet (Fogo fátuo – trinta anos essa noite), obra do escritor Pierre Drieu de la Rochelle. A história está centrada no personagem Anders (Anders Danielsen Lie), um norueguês de 34 anos que está saindo da clínica de reabilitação e segue para Oslo, onde tem uma entrevista de emprego marcada. O filme é um auto-retrato da cidade: no inicio do filme, imagens da cidade são passadas, como uma espécie de saudosismo, de lembranças ruins e boas e de como a vida é em Oslo. Anderes também decide reviver essas lembranças.

Podemos notar que mesmo sendo um rapaz inteligente, bom escritor e de família nobre (contado em Off), Anders sente um vazio existencial. Seja pela vida que levou, ou seja, pelo fato de que aos 34 anos ainda não tem nada de significativo realizado ou pelo fato das pessoas que foram prejudicadas por esse comportamento, vide seus pais e amigos. Então, em sua conversa com seu amigo Thomas (Hans Olav Brenner) vemos indícios de intenções suicidas.

O próprio Thomas serve como contraponto na vida de Anders. Pai de família, aparentemente um profissional bem sucedido, tem sua vida posta em xeque pelo amigo, no que concerne à felicidade de ter uma vida normal, bem aceita socialmente. Talvez Thomas seja o que Anderes queria ser, porém ele se depara com a relutância do amigo ao contar sobre sua monotonia vital, as idiossincrasias de ser uma adulto responsável. Isso sem dúvida parece acentuar sua depressão.

Deseja ver sua irmã, mas é frustado pelo aparecimento da sua companheira que repassa o recado sobre a resistência de vê-lo. Antes desse fato, Anders vai à entrevista de emprego, que inicialmente parece fluir para a futura contratação, interrompida pelo questionamento do passado de Anders que saí da entrevista bastante incomodado com o fato. Parece que isso ainda o assombra e as pessoas. Como já havia enfatizado, ainda têm em suas memórias o quão ruim esses tempos foram. Nesse mesmo vetor, vemos a insistência do protagonista ao ligar para uma ex-namorada, chamada Iselin, que não responde nenhum de seus recados.

A trama segue com Anders indo à uma festa e sendo tentado pelos seus vícios. 31 de agosto não foi por acaso: o fim do verão e a cidade se esvaziará das pessoas, das piscinas públicas, como uma das personagens enfatiza. Anders tem assim uma chance de recomeçar do zero, mesmo ele próprio achando isso vergonhoso. Apesar disso, Anders parece querer desistir de tudo, de todos, que não o compreende. Na festa isso é evidenciado pelos diálogos vazios, por situações de seu passado tempestuoso que são inadequadas para o momento.

A morte social é visível na cena onde Anders está em um café e começa ouvir as pessoas conversando, uma espécie de rack focus. Ouve duas mulheres que elencam seus desejos, ouve meninas caçoando do suicídio e Anders aparecendo como uma figura invisível, deslocado de tudo aquilo. Esses diálogos visualmente nos direcionam ao protagonista e sua jornada sobre a cidade, a qual a personagem principal tem repulsa e boas lembranças ao mesmo tempo. Esse deslocamento, essa luta nos faz entender como a depressão pela morte social é encarada pelo ponto do vista do depressivo. O desfecho do filme nem vale a película toda, porém nem precisaria. O recado foi dado.

O filme é um dos melhores sobre o gênero. Espero que todos assistam e vejam assim como eu vi, esse ponto de vista sobre o tema.

Namastê!

Título original: “Oslo, 31. august”.

Título no Brasil: “Oslo, 31 de Agosto”.

Direção: Joachim Trier.

Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt.

Elenco: Anders Danielsen Lie, Hans Olav Brenner, Ingrid Olava.

 

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Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

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