terça-feira, 22 de agosto de 2017

A maiêutica inaudita

Por: Alberto Silva

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Com gosto se faz um poema

I

A escrita lírica desagrada
Pois corrói pele e alma
Semeados estão os sentimentos
Mentalmente poética perturbada
Não te deixa em paz corro nas veias
Retumbante som espírito desalmada

II

Em transe as vozes expelem
Trancafiadas em porões corais ferem
Sem sentido com sentido a voz aguçada feminino
É um doce diarreico trompete sertanejo pequenino
Combinações destrutivas retornam à plêiade
Mas era ela ou ele identidade verde

III

Transportou-se a galope a velha história
De que não passa de farsa o voo daquela garça
Sensação por todo o corpo de estar ludibriado
Ludibriado com a poiése calada, invenção da linguagem
Indistintos são os ditos e os não ditos, ou ditos de outra forma
Irritam me aqueles passados por saudosistas da aurora

IV
Acordei. Tomei café. Li. Comi. Dormi. Acordei. Comi. Li. Comi. Dormi. Sabe-se o que se passa com uma vida. Vida humana “o normal eles me dizem”. Sabe-se o que se passa com uma vida. No outro dia repleto de expectativa. Acordei. Tomei café. Li. Dormi. Acordei. Comi. Li. Comi. Dormi. Sabe-se o que se passa com uma vida. O exercício da maiêutica inaudita. Sabe-se o que se passa com uma vida. Ó senhor, grita a aludida repentina com intervalos ritmados de chacina. Acordei. Tomei café. Li. Comi. Dormi. Acordei. Comi. Li. Comi. Dormi. Comezinhas são as piores espécies de veneno. Aquelas que matam lentamente. Os sábios das montanhas perceberam, nós cegamos as pálpebras.

V

Confusão irremediável e geral. A poeta é aquela coisa mais irritante e nonsense – isso é ou não um americanismo intolerável me tirem a dúvida –, o derivado direto da criatividade subalterna às invencionices recheadas como brigadeiro de chocolate da razão razão razão que é de glória ora ora. Ela não cabe nesse mundo, faz literatura do desgosto do literato e do homem comum. Bobagem, bullshit – e lá vem outro americanismo seco para ferir-me de morte – dos sentimentalóides encastelados. Tragam-me a boa água por favor. A que mata a sede, a fome, as carências sem expressão que um dia hão de ser gritadas. Deformado o retrato d`alma morta que viajou por séculos no mato gado.

VI

Ela tolera de um pouco tudo. Faz jograis, xadrez, damas. Brinca na calçada e na lama. O nome da brincadeira é cotidiana, ariranha peçanha. Sobrenomes que vem de uma árvore genealógica viraram pó de fumaça no mundo da desordem inspirada. Quem falou que pra escrita tem muso ou musa inspiradores é um cavalo de tróia arquétipo das estátuas paradas nos museus. Feitas de cocais, tez, lâmpadas. Quinta da jogada e da cama. Se os livros encampados não deram chance, daí você imagine os cortiços de gente simples. Essas sim põem a mão na lata d`água irritadas com o prolixo lixo que se grava nas folhas ou na era moderna, nos vidros finos, sensíveis ao toque, e jogam por cima de tamanho flerte surreal.

(Poema de autoria do colunista)

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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