quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A moralidade do aborto em “Vera Drake”

Por: Alberto Silva

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O cinema é um instrumento usual de aquisição de informações (nos mais variados tons possíveis), entretenimento e sobretudo, como tenho dito, arma de reflexão, em tempos em que boa parte dela, principalmente a crítica, parece estar condenada à demonização ou ao ostracismo. O filme “Vera Drake” do cineasta britânico Mike Leigh é a prova viva de duas coisas centrais: o quão a arte pode ser capaz de imitar a realidade, materializando mesmo os dilemas morais mais capciosos dos sujeitos “reais” em seus personagens recriados; e como a vida, apesar da diferença temporal dos contextos fílmicos (de produção e ação fictícia) insiste em imitar a arte, principalmente quando traz à tona temas tão atuais e que continuam sendo tão polêmicos, majoritariamente por envolverem o cuidado e a manutenção da vida humana, detentora de um valor em si, que podem nos levam a fazer determinadas escolhas éticas espinhosas.

O filme, lançado em 2004, e exibido no Festival de Cinema de Veneza, um dos mais prestigiados do circuito europeu, conta a história de Vera Drake, casada e mãe de dois jovens que trabalha como diarista em uma mansão do high society londrino na década de 1950, rodeada de escândalos, e em cortiços habitados pela classe operária, ajudando a família por meio dos proventos obtidos em dois mundos sociais completamente distintos. Frequentemente, e há muitos anos, em paralelo às suas ocupações habituais de arrumadora de casas, Vera ajuda mulheres em apuros a realizarem abortos clandestinos, que na Inglaterra de então era uma prática draconianamente punida – principalmente quando se tratava de condenar os que a auxiliavam. Durante o longa, são retratadas as cenas em que a protagonista, interpretada por Imelda Staunton, é convocada por Nelly Clark, interpretada por Anna Keaveney, a fazer novos serviços com a sua seringa e uma espécie remédio caseiro que introjetado na genitália feminina faz com que a expulsão do bebê ocorra em menos de dois dias.

Vera, na verdade, presta os serviços gratuitamente movida por sentimentos altruístas e humanitários, enquanto Nelly ganha dinheiro de mulheres grávidas ou mães de mulheres grávidas – que por razões de conveniência social querem que suas filhas abortem – sem em nenhum momento se envolver na prática de tratamento das jovens individualmente, algo que fica relegado à diarista com todos os riscos que possa haver. Em paralelo, a história mostra a ocorrência de abortos em clínicas sofisticadas com aval de médicos e psiquiatras (enquanto a clientela de Vera compunha um público que pouco podia pagar) por meio da personagem Susan, interpretada por Sally Hawkins, filha de uma das patroas de Vera, que é estuprada na primeira parte do enredo. À parte dos envolvimentos com a prática do aborto, o filme se debruça sobre as relações amorosas e pessoais dos filhos de Vera e do irmão de Frank, seu marido. Enquanto a filha de Vera é cobiçada por Reg, interpretado por Eddie Marsan, seu irmão se associa com o mesmo em busca de ascensão nos negócios. Frank, por sua vez, interpretado por Adrian Scarborough assiste os anseios de sua esnobe esposa engravidar a qualquer custo; objetivo que alcança, e que aumentará ainda mais sua repulsa por Vera quando os fatos vêm à tona.

Após atender uma cliente de saúde frágil, cuja mãe havia pagado cerca de duas libras e meia para Nelly, Vera acaba saindo de mais um atendimento, desapercebida das graves consequências que desse fato adviriam. Ao ser internada, a moça apresenta sinais de abortamento forçado, o que leva o médico a concluir que se tratava de um caso de aborto clandestino, acionando assim a polícia com as informações da mãe da garota, já pressionada. Vera é descoberta e presa. A grande questão que se levanta a partir daí é bastante delicada, ainda mais em uma época em que a própria homossexualidade era punida com castração química na desenvolvida na terra da Rainha: Vera se desespera, entra em prantos intermináveis que deixam o espectador combalido frente à sua melancolia pessoal e seu temor referente à reação que sua família possa ter diante da descoberta do seu papel enquanto facilitadora de abortos, porém em nenhum momento – mesmo quando confessando o seu crime – abandona a convicção de que o que fazia era um dever de justiça para com mulheres desamparadas.

À parte a indústria dos abortos que surgiu em paralelo à legalidade, em razão da ainda imoral proibição do aborto legal – fator primário para a consecução da autonomia das mulheres sobre os seus próprios corpos – no Brasil, o dilema de Vera é o de muitas que ajudam ou que mesmo sozinhas se veem diante de uma decisão tão difícil como a interrupção da gravidez, em meio a perseguição e a violência estrutural perpetrada diariamente contra as suas autonomias, e que sem nenhuma assistência do Estado são obrigadas a recorrer a remédios e práticas perigosas, as quais tenho conhecimento de algumas mas que não cabe aqui descrever. O sentimento moral de que o direito de auto propriedade deve prevalecer nesses casos é o que move a personagem Vera, bem como é o valor fundante das argumentações que reivindicam algo mais do que necessário para a consolidação das democracias: a legalização do aborto, com as devidas estruturações médico-hospitalares e acompanhamento psicológico necessários para dar mais conforto a um momento tão crucial na vida daquelas que se defrontam com a gravidez.

REFERÊNCIA CINEMATOGRÁFICA

Vera-Drake-Pic7

Título: Vera Drake
Direção: Mike Leigh
Nacionalidade: Reino Unido
Duração: 125 minutos
Gênero: Drama
Ano: 2004

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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