terça-feira, 29 de agosto de 2017

A distopia conservadora

Por: Alberto Silva

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Na década de 1970, o escritor e designer Richard Littler agraciou os ingleses com uma de suas criações fictícias: a cidade de Scarfolk. Em anos de crise como aqueles, que não diferem muito dos nossos – afinal estamos falando de um sistema que se encontra em permanente colapso – descobrir a criação de Littler era se deparar com um futuro possível de estagnação espiritual e moral, estabelecido estranhamente em nome da moral e do espírito. A alma mater da pequena cidadezinha que jamais progrediu era certamente o totalitarismo conservador. A expressão causa irritação em qualquer um dos que advogam a defesa do status quo como prática política. Certa vez, assistindo ao documentário Best of enemies que narra a briga antológica, que marcou a história da imprensa norte-americana a partir da cobertura comentada das eleições presidenciais de 1968, entre o reacionário William F. Buckley Jr. e o progressista Gore Vidal, ambos intelectuais posicionados em lados distintos do espectro mas pertencentes ao mesmo espaço relacional da alta sociedade naquele pais, o irmão de Buckley – já finado quando das filmagens – afirmara com contundência que não havia irritação maior para um republicano do que ser associado à regimes fascistas. Para o seu falecido irmão, tampouco seria válida uma comparação dessas.

A bem da verdade, é esse incômodo que ao longo dos anos tem feito com que, volta e meia, o debate, imbecilizado em sua essência, de que o nazismo teria sido uma obra de esquerdistas volte à tona. Não vou entrar nessa seara. Costumo escrever minha coluna aos domingos, dia santo, no qual meu cérebro pouco funciona para articular argumentos e muito mais para assistir filmes ou ler poemas. O que importa é que a Alemanha hitlerista, a Itália de Mussolini ou a pequena Scarfolk nada tinham de redistributivas. A última, por exemplo, mais parece mais ter saído de uma dessas caixas de comentários que espantam qualquer ser humano minimamente lúcido que passeia pelas redes. Ademais, todas essas sociedades funcionaram perfeitamente como anti utopias, negações vivas de um mundo melhor, ou para usar o termo que trago à baila nesse título: como verdadeiras distopias nas quais a vigilância era alta e a contestação muito baixa; nas quais a liberdade era controlada e a opressão desmedida. Scarfolk é a representação exacerbada do que há de mais ridículo nesses experimentos retrógrados de saudosismo ao que passou e tenta a toda força se impor novamente (logo, nem todos os desenhos com seus conteúdos retratados são pertinentes ao “real” dada a irrealidade mesma da sátira).

Littler, ao pintar cartazes publicitários para representar os liames distópicos de Scarfolk internalizou a sua genialidade no imaginário cultural alternativo britânico. Até onde pesquisei, nada há sobre essa pacata cidadezinha escrito em português. Foi lendo um ou outro texto em inglês que pude matar minha curiosidade. Portanto, pode ser que como colunista esteja trazendo Scarfolk pela primeira vez para quem não gosta ou não sabe ler no idioma oficial da globalização (ó esperanto, porque não destes certo?!). Todo tipo de coisa absurda pode ser achado nas imagens abaixo. São trágicos os cartazes, mas cômicos até certo ponto, na medida em que percebemos que tudo não passa de uma brincadeira. Em tempos em que pré-candidatos à presidência anunciam que irão militarizar todas as escolas básicas se eleitos e pessoas dispostas a apoiá-los surgem de todos os lados, é importante mostrar no espaço limitado que temos como seria essa maravilhosa sociedade do culto à ordem e ao atraso: arrisco a afirmar que não seria igual a Scarfolk, mas muito parecida. Cheia daqueles padrões antiquados para os quais não há espaço de conformação a uma grande maioria de pessoas que, na mais pura e triste verdade, são vistas como não-pessoas e continuarão o sendo se continuarmos trilhando certos caminhos.

nazi_www-scarfolk-blogspot-comNão pratique bullying com nazistas. Você pode ofender os seus sensos de superioridade.

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Você será considerado um ser humano e terá os seus direitos humanos respeitados. Se ganhar na loteria, é claro.

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Sejam bem-vindos refugiados. Entrem, usem as janelas de saídas e se dirijam aos seus países de origem novamente.

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Guilt, o policial com capacete, é bom para você. Não há porque ter dúvidas.

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Racionamento de democracia. Que tal?

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Aprendendo a fazer saladas totalitárias (uma nova receita culinária em homenagem aos maiores ditadores do século XX)

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Tem outra receita muito boa e comum entre a população de Scarfolk: comer crianças para controlar a crise populacional e de produção de alimentos. E viva a teoria malthusiana!

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Não desobedeça papai ou mamãe. Descumprir o versículo de Êxodo é razão para ser assassinado.

E você, o que achou de Scarfolk? Essas são apenas algumas imagens paradisíacas de como funciona a cidade dos sonhos de alguns. Tem muito mais se você consultar as referências 🙂

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Welcome to Scarfolk, the most twisted english village of the 1970s. Disponível em: http://dangerousminds.net/comments/welcome_to_scarfolk_the_most_twisted_english_village_of_the_1970s

Visiting Scarfolk, the Most Spectacular Dystopia of the 1970s

*

Para encerrar, um filme promocional de Scarfolk que mostra uma de suas principais características já vista em uma das imagens acima: o ódio às crianças e a potencial autonomia que elas representam, inaceitável nos arranjos familiares ainda repletos de amarras.

 

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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