terça-feira, 29 de agosto de 2017

As sombras do passado

Por: Alberto Silva

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O passado é uma roupa que não nos serve mais, cantara Elis Regina à altura dos afamados festivais de música popular brasileira que antecederam, temporalmente, o endurecimento do regime militar brasileiro. Sua poesia – aqui vou com Heloísa Buarque de Hollanda, ícone da crítica literária progressista, que afirma ser indefensável a divisão entre as poesias escrita, falada e cantada – denota a estética da renovação que move os nossos mais ínfimos gestos na produção de “ares renovados” que circundam os espaços sociais cada vez mais exigentes de facetas e informações, multiplicáveis a todo instante, em um fenômeno que não se destroça na mesma rapidez com que gostariam os passadistas e sua glorificação mais ou menos subliminar – nos dias de hoje explicita – do figurino da sobriedade tenaz e do congelamento de áridas e pérfidas faces que incrustaram.

Determinados à inovação nos encontramos absortos, dia após dia; até mesmo porque o cotidiano quebradiço é levemente intrusivo no nosso subjetivo e paralisante, na medida em que doutrinador e transformador da criança ao idoso em mola mestra da chateação e do tédio mútuos. Dia desses vi escrito que era um absurdo alguém ter dito a um infante para abandonar os seus sonhos e se tornar um adulto. Na verdade, o dito nem precisa sê-lo. As próprias conformações e estribeiras que enfrentamos nesse galope a cavalo veloz chamado vida ocultam permanentemente nossos anseios – não à moda freudiana – retirando de onde havia a alegre menina o seu olhar de céu e colocando a mulher ou homem estilizados na sua frustração de escritório de frio abafado, plenos na escravidão que os cerca via coerção moral organizadora de algo essencialmente desordeiro.

É nesse ambiente onde os discursos já apreenderam de todo quem somos, escorridos que estávamos na criança bela que corre pelas ruas e pensa ver o infinito horizonte, que para absorver um pouco do “desaparecido” que está em “procura-se” caçamos a metamorfose ao menos visual, objetivando afagar a miséria latente e lógica na qual intencionalmente transformaram as nossas existências. Essa diatribe analítica pessimista é provocação para olhar sintomaticamente no que constitui o objeto da “renovação” para nós senão a exponencialização mesma dos tristonhos enfados que já carregamos, às vezes sob o símbolo do status ou da marca, às vezes sob a desarmada linguagem primordial de interconexão entre duas, três ou mais pessoas – empobrecida que está –, em uma admissão ambulante do fracasso coletivo da civilização onde quem dita as regras é o dinheiro.

Nesses tempos, a ou o sujeito que se abre mão da própria vida sabe-se lá por quê, causando horror naqueles que como eu ainda guardam totalidades ou resquícios da velha moral cristã, torna-se até perdoável e compreensível. A passagem é incrível para alguns, para outros nem tanto. Uns se completam com todos os sortilégios, outros vão sustentando a mediocridade até onde a velha escudeira certeira chama e uma parcela por vezes não sustenta o peso do vazio, que por surpreendente que seja pode estar muito bem preenchido, e se esvai. É no ato de “renovar”, intentado, que vamos mantendo simbolicamente as esperanças na trajetória que pulsa desde a saída do ventre e subsequente lágrimas de espanto de um bebê escandalizado. Aquilo que nos marca na memória e com o passar do tempo, porém, jamais sai de nós. O inconsciente guarda tudo isso como uma senhora de setenta e poucos anos sentada na varanda guarda suas fotografias de antigamente no baú. Renova-te sob a tristeza, mas não amargas a solidão. Tens a companhia do que já passou, tal qual a sombra e o transeunte num plano mais ou menos escuro, tal qual o sentimento ferido e a dor passageira.

RECOMENDAÇÃO CINEMATOGRÁFICA  

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Título: Die Sehnsucht der Veronika Voss (“O Desespero de Veronika Voss”)

Direção: Rainer Werner Fassbinder

Duração: 104 minutos

Nacionalidade: Alemanha

Gênero: Drama

Ano: 1982

“Munique, 1955. Um locutor esportivo conhece a decadente atriz Veronika Voss, uma antiga estrela da UFA, a empresa cinematográfica da Alemanha Nazista. Ele começa investigar o seu passado e as razões que a levaram a se viciar em morfina. Inspirando-se nos melodramas de Douglas Sirk e em O Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, Fassbinder realizou um filme de rara beleza, que conclui sua trilogia sobre a Alemanha dos anos 50, formada ainda por Lola e O Casamento de Maria Braun.”

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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