sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A insustentável EXISTÊNCIA do ser

Por: Geylson Rayonne Cavalcante

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Os critérios para legitimar a existência estão para além da literatura de autoajuda encontrada nas livrarias de shoppings e aeroportos. De fato, viver é uma tragédia, aceitar o mundo como ele nos é apresentado assemelha-se a uma pretensão febril que revela o caráter nodal de nossas desgraças. Antemão, deixo o alerta: este texto não é para pessoas felizes ou para aqueles que acreditam nos sentidos ascéticos dados pelas muletas metafísicas. As linhas que se escrevem são o esboço de um fulano patológico que desdenha do morticínio cultural proliferado por séculos e séculos. Caso queira respostas ou verdades, não leia, consequentemente, continue na sua existência austera, longe da instigação, longe da prole provocada pelo descaso eterno ao errante que a esta subscreve.

No mundo, haverá sempre duas categorias: o real e o ideal. De plano, cabe a filosofia, desde os tempos antigos explicar de onde viemos, para onde vamos e quem realmente somos. Questionamentos de ordem cartesiana. Inquietudes psicofísicas. Funestas. Provavelmente, o nada seja o absoluto de nossa existência. Desastrosa afirmação. No cemitério de nossas incertezas jazem aquilo que rejeitamos. E qual é o objeto de nossa rejeição? A própria vida. Razão pela qual, o assombroso espectro da morte nos leva a considerá-la como aceitação de um destino inevitável provocado por uma onda de eventos que sempre desencadearão num ponto crucial: a volta ao vazio do Universo.

Agora, imagine uma realidade na qual tudo o que você deseja está em suas mãos: carro, emprego, casa, a pessoa amada. Tudo. Isto, com certeza, te provocaria felicidade perpétua. Ilusão ou não, qual seria o sentido de estar vivo? Se, em Deleuze¹ somos máquinas desejantes, o que ocorre, então, quando já não desejamos mais? Exatamente: o tédio se faz presente. E aqui entra o ator principal de nossa dicção: Emil Cioran². Pessimista por excelência, sua filosofia não é para mentes fracas e obnubiladas por uma tendência a enganação contínua dos fatos e motivos que constituem o homem. Nosso regente filosófico não é um profeta, é um construtor de lápides, não para seus leitores, mas para aqueles que não o entendem e o negam em nome de pensamentos dualistas (leia-se platônicos).

Custa muito caro rever conceitos. Aprender o novo nos torna suscetíveis às mudanças e isto assombra os absolutistas, os dogmáticos. Porém, se você chegou até aqui, esclareço: a obra de CIORAN é densa e irei abordar somente o capítulo VI de seu livro cujo título é Variações sobre a morte³. Ler esse texto me causou estranhamento, e como bom leitor, me desfiz de tudo o que já houvera aprendido para poder entrar, sem preconceitos, na iniciação filosófica do autor. Em nome da clareza, não se trata, somente, de abstrações, mas de salientar e provocar nossas concepções sobre a fenomenologia que envolve o fim da existência.

O tédio é uma condição para quem tem uma vida com restrições, com dilemas e regras que engessam a figura passiva do ser humano. Nesta ordem, poderá ele então evidenciar o substrato de nossas tristezas? Trata-se de uma resposta hibrida, visto que a forma como você enfrenta e caracteriza a existência é que te torna hipossuficiente ou não diante da inexatidão promovida pelos sentidos. E se não conhecemos o mundo, tampouco somos capazes de identificá-lo e aceitá-lo, concepção esta que torna nossos vínculos com o Universo desprovidos de sintonia com o real. Com sabedoria, alguém disse: o homem só tem medo daquilo que ele não conhece. Afirmação deveras simbólica, por sinal. De forma lúdica, CIORAN esclarece:

“De tanto acumular mistérios nulos e monopolizar o sem-sentido, a vida inspira mais pavor do que a morte: é ela a grande desconhecida. Aonde pode levar tanto vazio o incompreensível? Nós nos apegamos aos dias porque o desejo de morrer é demasiado lógico, portanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor – distinto, de uma evidência indiscutível -, se aniquilaria; os instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. ”

Se a ideia da morte não fosse presente, nós a aceitaríamos. Conhecer o fim é reconhecer o quadro patológico que a temporalidade apresenta cotidianamente a nós. E podemos até pensar que isso é triste, mas não. Triste é negar a si mesmo e continuar a colocar nos ídolos as oportunidades de maximização de nossas pulsões. O fracasso não consiste em rejeitar a vida e aceitar a morte, consiste em substituir um ideal pelo outro numa busca frenética pela eternidade no tempo. Então qual a razão de persistir na vida?

“É porque ela não repousa sobre nada, porque carece até mesmo da sombra de um argumento que perseveramos na vida. A morte é demasiado exata; todas as razões encontram-se de seu lado. Misteriosa para nossos instintos, delineia-se, ante nossa reflexão, límpida, sem prestígios e sem os falsos atrativos do desconhecido. ”

Com clareza, CIORAN propõe que é a inexatidão sobre a vida que nos faz buscar, constantemente, sentidos para ela. Essa busca é perigosa pois os vícios presentes nessa jornada fomentam o risco proporcionado pela literatura de autoajuda, ou seja, a felicidade perpétua. A razão não está nos berços delirantes do existir humano, como bem expõe o filosofo romeno ao afirmar que “a vida se cria no delírio e se desfaz no tédio”. É como ouvir um blues: o estado de tristeza torna-se um estado de nobreza elevado ao máximo, porém, te puxando para baixo para te lembrar que nossa realidade só pode ser vivenciada de perto através da arte e do entendimento ativo sobre o mundo no qual estamos inseridos.

“Contra a obsessão da morte, os subterfúgios da esperança revelam-se tão ineficazes como os argumentos da razão: sua insignificância só faz exacerbar o apetite, só há um único “método”: vive-lo até o fim, sofrendo todas as suas delícias e tormentos, nada fazer para escamoteá-lo. Uma obsessão vivida até a saciedade anula-se em seus próprios excessos. De tanto insistir sobre o infinito da morte, o pensamento chega a gastá-lo, a nos enojar dele, negatividade demasiado plena que não poupa nada e que, mais do que comprometer e diminuir os prestígios da morte, desvela-se a inanidade da vida.”

A existência não pode ser danificada por preceitos morais e restringida por valores criados pelo homem que nada entende ou conhece sobre as experiências da passagem-tempo. Por ser ortodoxo, o imaginário que acredita em transcendências desconstrói a matéria. E assim surge o vazio: produto de nossas bizarrices vitais.

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¹Gilles Deleuze. Filosofo francês do século XX.
²Emil Cioran. Escritor e filósofo romeno radicado na França.
³Variações sobre a morte é o capítulo VI do livro Breviários de Decomposição, publicado em 1949.

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Sobre o autor

Geylson Rayonne Cavalcante

Um substrato do universo.

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