quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A violência simbólica na Escola

Por: Luciano Pontes

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A escola é para todos. Essa frase é realmente paradoxal: será que todos estão realmente indo para escola? O que de fato a escola tende a oferecer para todos, tendo em vista o auge da sociedade da informação? Tentarei responder essas questões ao longo do texto.

Sobre a violência simbólica na escola, o nome que automaticamente remete a quem se interessa pelo assunto é o do sociólogo francês Pierre Bordieu. Ele foi o principal teórico da reprodutividade da escola. Em outros termos: a opressão e a estratificação social se reproduz na escola, que era pra ser entendida como o espaço de libertação do indivíduo, que deveria aprender os conteúdos historicamente produzidos pela humanidade.  Para ele e seu companheiro de pesquisa, o também sociólogo Jean-Claude Passeron, a cultura predominante é da elite e não algo arbitrário.

Como já enfatizei, na escola a cultura que serve para libertar não é passada para quem precisa ser liberto. Soma-se a isso um agravante: Estamos em meio a sociedade do dilúvio de informações, pegando carona nas palavras de outro francês, Pierre Lèvy. A escola não é mais o centro do conhecimento. A Internet tem uma variedade de conteúdo, onde com um clique você pode ir de Marte, no outro conhece alguém de Vênus.

Nossos alunos não conseguem criar um filtro. Não conseguem achar o joio em meio ao trigo de informações. Então a escola ainda é o lugar onde há uma síntese do conhecimento, da informação. O professor tem o papel de curador em meio a esse turbilhão de “facas voadoras”. O problema está exatamente aí: ele não entende esse papel. Ele quer competir com o youtuber descolado, usando apenas giz e o quadro. Isso complica as coisas, porque a crise de identidade profissional do professor já é uma violência.

O aluno também não entende seu papel. Na verdade, o aluno nunca entrou de fato na escola: ele não entendeu a lógica da instituição, apenas foi matriculado. Mais um ponto pra violência. Agora imagine esse cenário, onde os personagens não entendem seus papéis e nem os dos outros. Eis a sala de aula. O Ensino ainda tem ainda mais especificidades que corroboram com a violência: O professor se sente o opressor natural e portanto quer exercer essa opressão e o aluno é o oprimido natural.

Quando há inversão, já que não tem o poder de reprovação, o aluno (que só conhece a linguagem da força e da violência física) parte para agressão. Não quero esgotar todas as variáveis que envolve esse fenômeno, infelizmente já corriqueiro e simulacro em nosso país. Até porque o aluno também é um ser humano, com sua ontologia e ninguém avisou a ele como seria a escola. Na verdade ele nunca saberá.

Por quê? Porque ele deve ser apenas mais um no mercado. Apenas mão de obra, ou, na pior das hipóteses, cimento para fortificar a violẽncia criminal mais praticada: a pobreza. Ser pobre é ser criminoso. Mas agora, se um rico vira criminoso e um pobre um médico, onde foi a reprodutividade? Digo sem medo: da interpretação do sujeito de seu papel. O “fracasso” escolar, por outro francês (eles tão demais), Bernard Charlot, não tem casualidade com a posição social e sim uma correlação.

O que seria isso? Que apenas onde o aluno mora não define o que ele entende por escola e como ele vai se sair nela. O fracasso depende também do indivíduo e não somente do meio. A reprodutividade é macro, mas a concepção subjetiva de escola é essencial. Veja que cada vez o buraco vai ficando fundo e a gente cavando, cavando. Talvez esse buraco seja incomensurável. A escola não é para todos: é para alguns poucos. Poucos entendem seu papel e o da escola.

A solução partiria de onde? Bem, a começar pelo o que se entende como ensinar e aprender. Que o paradigma dos educadores seja a aprendizagem, pois o ensino deriva desta. Aprender de fato é se adaptar. É conseguir ter as ferramentas para saber administrar o porvir. A praxeologia deve ser um produto e não um fator. A aprendizagem sim, é o produto final, o que vai dizer quem ter sucesso ou quem fracassou.

Esse texto não encerra aqui. A intenção é problematizar sempre, numa dialética em moto contínuo. Freud já dizia que a profissão docente era impossível. Tento não acreditar nessa assertiva, mas respeitá-la sempre.

(A foto acima é da professora de Jaraguá do Sul, Santa Catarina, que estava recebendo água da privada por alguns alunos, juntamente com remédios para que ela dormisse e não desse aula)

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Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

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