domingo, 17 de setembro de 2017

Cem anos de Solidão: o retrato da condição latino-americana

Por: Erick Morais

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“Porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”, aparece nas últimas linhas de “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez, frase que fecha o livro e escancara ao mundo a condição latino-americana, condenada à solidão.

A cidade fictícia de Macondo é interpretada, geração após geração, como uma metáfora para a América Latina, de modo que se o romance não inventou o sangue latino, ao menos é o grande responsável por ele ser visto por todos. Os problemas que tanto afligem Macondo são os mesmos que historicamente se observam no continente latino-americano, marcado por dominações, lutas, disputas pelo poder, ditaduras, violências, exploração, esquecimentos, distância do mundo “desenvolvido”… solidão.

Formada por uma riqueza sem correspondente, a América Latina, os latino-americanos de primeira morada, desde logo se acostumaram com a ideia de que as terras que seus ancestrais habitaram não eram suas, bem como as suas belezas, as suas fortunas. Nada lhes pertencia, porque havia donos, senhores de terras tropicais e de tudo que nelas davam. Os seres mágicos, vindos de lugares distantes, dominadores das artes, das ciências e da linguagem fizeram questão de não deixar pedra sobre pedra em territórios que por força e vontade divina lhes pertenciam.

Como seres superiores, evidentemente, era preciso que houvesse disseminação total das suas culturas, a fim de suplantar as manifestações inumanas de seres ininteligíveis. Era preciso dominar os selvagens, civilizar os gentios. E, desse modo, a história de dominação foi se construindo como um traço tão marcante das nossas gentes, que é como se houvesse sempre a necessidade de obedecer às ordens de algum reizinho.

Essa “síndrome” de cachorro morto ficou entranhada e, então, outros dominadores vieram e veem, hasteiam as suas bandeiras e instalam “repúblicas de bananas”, com funcionários tão eficientes que não devem nada a nenhuma multinacional. É como se a América Latina não possuísse identidade e, portanto, tivesse que ficar se fantasiando, transformando-se recorrentemente em caricatura do “primeiro mundo”.

Para tanto o capital financeiro se sobrepõe ao capital humano, a promessa de liberdade se transforma em servidão ininterrupta e o colonialismo encontra novas formas de se fazer e se reproduzir, como em ditaduras (visíveis e invisíveis), que carregam no seu seio o sofrimento de guerras caladas.

Colonialismos que – como escreveu Galeano, outro inventor da latino-americanidade – te proíbe de dizer, te proíbe de sentir, te proíbe de lembrar. E nisso se encontra outra característica mui nossa: o esquecimento.

Esquecimento que nos impede de questionar, de investigar, de dizer, de impedir que o mal se repita, se restitua. Esquecimento que nos constitui em desmemoria, em seres sem face, que não conseguem enxergar suas raízes, tampouco se identificar como povo. Esquecimento que produz Alzheimer coletivo, permitindo que tudo se repita numa roda perene de solidão. Esquecimento que convence todos de que a servidão é um destino, como outrora fora, e que os territórios continuam dominados por seres divinos, contra os quais nada se pode fazer.

Dessa forma, continuamos como povo colonizado, porque há sempre novas aristocracias dando ordens, apagando a história e construindo outra, na qual são sempre sujeitos de benevolência inequívoca. Assim como, continuamos solitários, porque buscamos insistentemente no exterior respostas que se encontram na nossa interioridade.

É preciso buscar os nossos encantamentos, as nossas estórias, a nossa história, a poesia de uma terra tão rica em que até o realismo é mágico. É preciso querer lembrar, porque sem memória, a história de um povo se reduz a argila, modelada segunda a vontade daqueles que escravizam na medida em que transformam o canto dos povos em silêncio irrestrito de suas almas.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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