terça-feira, 19 de setembro de 2017

Por que a esquerda está em crise?

Por: Erick Morais

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Tornou-se rotina a divulgação de notícias que evidenciam a crise da esquerda no mundo e, consequentemente, o fortalecimento de posicionamentos contrários aos de cunho esquerdista. Seja na grande mídia, seja em mídias “alternativas” ou mais modernas, como as redes sociais e o YouTube, a difusão do pensamento da direita (ainda que não seja um bloco homogêneo, assim como a esquerda também não é) vem dominando o debate público, a ponto da disputa se tornar extremamente ridícula para a esquerda.

Antes de prosseguir, é preciso dizer que todo indivíduo possui o direito de expressar as suas opiniões políticas, afinal – em regra – vivemos em um Estado Democrático de Direito. Dessa forma, tanto a direita quanto a esquerda, em suas diferentes vertentes, podem e devem coexistir, com respeito mútuo, a fim de que o direito de todos possa ser exercido. O que digo é óbvio, mas necessário em uma época em que o ódio e a histeria contaminaram a sociedade.

Dito isso, fica claro que a democracia, a meu ver, se constrói por meio do diálogo entre opostos, que devem procurar denominadores comuns para atender/satisfazer ao maior número possível da sociedade. Nesse sentido, percebe-se que existe uma estrutura social pautando os debates e sendo o seu grande sustentáculo. Sem essa percepção é impossível compreender a soberania popular, proposta por Rousseau e outros pensadores iluministas do século XVIII.

É exatamente nessa percepção – ou melhor – na falta dela, que repousa a crise do pensamento de esquerda, quer no mundo, quer no Brasil (onde se dá o enfoque do texto por razões óbvias). Os indivíduos que se alinham ao pensamento de direita e que possuem voz perante os holofotes sociais, compreenderam como ninguém que precisam manter o diálogo de forma muito próxima com o povo. Sim, com o povo. Não apenas com as classes sociais mais abastadas, mas, principalmente, com as de baixo. Para tanto, é preciso falar com simplicidade, a fim de que tudo que seja dito possa ser compreendido sem maiores problemas.

Dessa maneira, a direita ou a “nova” direita, que no Brasil, vai desde o MBL até a bancada evangélica, ruralista e da bala (talvez seja um tanto redundante repetir as três), se utiliza de falas simples e que tocam diretamente as pessoas mais simples e os jovens, que intelectualmente em formação, carecem de bases mais sólidas para absorver criticamente o que recebem. Não à toa, há tantos adolescentes, jovens, que manifestadamente se dizem de direita, apoiadores de figuras como Bolsonaro, etc.

Em sentido oposto, a esquerda respira por aparelhos, porque de um lado insiste em permanecer presa a símbolos que já não correspondem ou possuem a capacidade de corresponder a ideais verdadeiramente de esquerda, como o ex-presidente Lula e, por tabela, o partido dos trabalhadores (o próprio nome do partido hoje é um contrassenso). E, por outro, não consegue se desvincular de discursos academicistas, voltados quase que exclusivamente para universitários, como se o grosso da população, diante da sabotagem que sofre em seus direitos sociais, pudesse compreender palavras presas com enorme rigor técnico.

A partir disso, sucedem vários problemas, que acabam afastando a população de pensamentos historicamente associados à esquerda, como a luta pela materialização dos direitos sociais, dos direitos das minorias (exploradas e segregadas no nosso decurso histórico), por melhores condições de vida para os trabalhadores (em sentido amplo e não apenas no campo econômico-consumista como fez o governo PT, reduzindo o cidadão a um consumidor como bem quer o mercado), em suma, para um despertar do indivíduo para a sua condição na sociedade.

Aproveitando-se do enfraquecimento (por falhas próprias) da esquerda, a direita tem deitado e rolado, feito o que quer, sem maiores problemas. Na esfera jurídica, isso é evidente, desde as mudanças estruturais do governo Temer, até decisões judiciais que permitem que a homossexualidade seja tratada como uma doença. Aliás, a normatização da moral e dos bons costumes tem sido uma das grandes bandeiras utilizadas pela “nova” direita, o que ajuda a desviar força e atenção para problemas reais, como a não discussão e, por consequência, realização de uma reforma política digna, além de tantas outras que são necessárias.

Enquanto a esquerda ou a “nova” esquerda não conseguir entender que é preciso falar a língua do povo, romper os muros das universidades e dialogar de verdade com a sociedade, continuará perdendo espaço e enfraquecendo o debate público com a existência sólida de apenas um ponto de vista. Isso passa também por uma reformulação crítica sobre a própria visão do que é ser de esquerda (ainda que, repito, não exista uma unidade, nem precise existir), o que não deixa de ser válido também para a direita, o que seria muito enriquecedor para a política e a sociedade como um todo, afinal, como disse Hannah Arendt, uma grande analista de sistemas totalitários, “Quem habita o mundo não é o homem, mas os homens. A pluralidade é a lei da terra”.

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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