domingo, 24 de setembro de 2017

O passado é só uma história que contamos para nós mesmos?

Por: Erick Morais

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No filme “Ela”, do cineasta Spike Jonze, em dado momento, o protagonista Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix) diz que o passado é só uma história que contamos para nós mesmos. De fato, quando o assunto é a memória, as contradições se estabelecem como um amálgama inseparável.

Pensando nessa questão – interpretar o passado – me veem à cabeça automaticamente o “Dom Casmurro” do Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis. No início do romance, o próprio narrador da história (Bento Santigo ou Dom Casmurro) diz que escreve o livro para tentar juntas as duas pontas da sua vida e, assim, revisitar o passado e relembrar a sua existência.

O que o Dom Casmurro busca é preencher as lacunas de si mesmo, porque todos humanos são assim: caminhos e descaminhos, preenchimentos e vazios, lembranças e lacunas. O grande problema é que talvez a verdade dos fatos não seja como ele apresenta, afinal, ele conta a história da sua vida a partir dos seus olhos, da forma como enxerga o mundo, o que garante uma descrição particular, mas não necessariamente universal e verídica.

Entretanto, o problema não está totalmente em Dom Casmurro. Ainda que ele quisesse retratar a realidade de forma completamente fidedigna, não seria possível, porque, como diria o filósofo, é impossível entrar no mesmo rio duas vezes. Mesmo que pudesse voltar no tempo, as impressões que teria estariam fundamentadas nas impressões que já carrega, as quais estão em constante movimento fluvial, para lembrar de novo a sabedoria filosófica.

Dessa maneira, o passado se coloca diante de nós como uma espécie de espelho, que reflete em larga medida o que somos, o que acreditamos e o que insistimos em querer acreditar. E por mais que nos esforcemos para limpá-lo, ele sempre guardará marcas nossas, porque o mundo aos nossos olhos se apresenta como um reflexo do nosso existir.

Isso por vezes causa problemas, “cegueiras” e incongruências nas histórias que contamos. Mas não há como fugir de uma dose fabular quando se narra a própria vida. Embora não se possa contar a sua própria história com rigor plenamente objetivo, já que sentimos na medida em que pensamos e pensamos na medida em que sentimos – ou somos simplesmente “sentipensantes”, como magicamente escreveu Galeano – há a possibilidade de reavaliar os nossos métodos investigativos e se aproximar mais da verdade.

Para tanto, é necessário assimilar as mudanças que o tempo nos provoca e utilizar a maturidade como elemento de sabedoria e não casmurrice. Já dizia Skakespeare: dado que a velhice é um fato, a sabedoria é uma virtude. E essa virtude é fundamental para reavaliar a forma como interpretamos o nosso passado e tudo que existe nele. Mergulhar de forma mais profunda, com mais crítica e menos romantismo. Com mais coragem para enxergar os lados obscuros do coração.

Como diria Nietzsche: “A mentira mais comum é a que o homem usa para enganar a si mesmo”. Sendo assim, ainda que o objetivo seja nobre – atar as duas pontas da vida, como queria Dom Casmurro – o passado não pode ser contado apenas em primeira pessoa. É preciso se incutir na difícil missão de se deixar escutar as outras vozes, pois só assim entendemos o passado com maior profundidade e percebemos que a vida não é um grande ciclo único, que se pode atar de uma ponta a outra. Mas sim, a síntese dos pequenos ciclos contraditórios, que de tempos em tempos se iniciam e se desfazem na linha maior da infinidade do tempo.

 

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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