sábado, 30 de setembro de 2017

O realismo que nos aprisiona

Por: Alberto Silva

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É comum e frequente que ouçamos uma frase mais ou menos próxima a essa vinda da boca de amigos, parentes ou desconhecidos: “Não aguento mais ler/ver os jornais diariamente, com tanta coisa ruim, tanta coisa indigesta”. A reclamação não é nova, mas soa mais grave na quadra histórica em que vivemos. Se me arriscasse nos entremeios da psicanálise coletiva, diria que há uma certa depressão que abate os sujeitos histórico-sociais nas sociedades capitalistas em crise e tem atingido um estado grave que se reflete em práticas comportamentais desinibidas – que mais parecem o fervor de uma histeria fabricada para ser legitima em escala – e em rearranjos políticos e econômicos que parecem selar o inevitável destino das classes dominantes e das classes dominadas. Um mal-estar inominável, que por mais que tentemos afastar do curso normal de nossas vidas, impele-nos drasticamente.

“São tempos difíceis para os sonhadores”. E como, minha cara Amelie Poulain, minha pequena francesa… O espaço para a ação coletiva transformadora não se reduziu de forma sutil – e com alguns entremeios – mas drasticamente. Tentar fechar os olhos para a onda de informações que espantam, ou por vezes atingem o limiar do choque de tal modo que se auto afirmam enquanto rotina das banalidades, pode nos livrar da grassa energia negativa (para os que creem na força das energias) que pesa em nossos ombros. Entretanto, em nada contribui para diluir o pessimismo reinante em nossa época, aquela má expectativa do futuro que se transforma em resignação. Que faz com que sentemos no sofá, liguemos a TV – para acessar os conteúdos importados de streaming pagos e feitos sob medida – após um dia cheio de pilhagens de trabalhos, comemos o que há e nos acomodemos àquilo que é oferecido.

A humanidade, milagre inconfundível, é também um projeto mal-acabado. Algo que ficou por se fazer, por se reformar. Ou talvez até por se restaurar – por buscar um certo sentido do homem antigo ou do medievo, que relegamos à escuridão da história, capaz de contribuir para a substância oca e determinantemente impelida à “loucura” social do homo sapiens sapiens que concorre com o progresso tecnológico que malgrado os benefícios proporcionados a uma parte das pessoas é uma ferramenta útil para ditar aquilo que fazemos ou desfazemos, em um contínuo ato de controle que transmite discursivamente a velha imagem da “falsa liberdade” em rede. Somos aquilo que consumimos, somos aquilo que comemos: é o que os livros didáticos põem a cena desde que pequenos estamos. Querem nos convencer desde cedo da incapacidade de sermos autônomos, dotados de essências. Pois seríamos marcas.

Adesivados como meros captadores de recursos, ávidos pelo interesse, maus e intensamente corruptíveis; assim como cravados socialmente enquanto batalhadores pela subsistência, nós, a maioria, somos induzidos a crer que a realidade que nos é perceptível é não só aquela na qual devemos acreditar, mas sim aquela na qual devemos ter uma fé imensurável e lutar dia após dia em prol da reificação daquilo que é imediatamente acessível. Ao tragar do gosto amargo das notícias fornecidas pelos grandes conglomerados, voltamos à nauseante situação do falante que se diz entristecido com o conteúdo que subjaz à sobrevivência mesma da imprensa. Recrudesce o conservadorismo em todo o Ocidente, a níveis que espantam qualquer um que observe o trajeto que temos tido desde o pós-Segunda Guerra até aqui. Ao mesmo, empobrecem os muitos, enriquecem os poucos – e tem os outros que nem são tidos como outros. Essas e esses são invisíveis e é tentador para nossa estrutura cognitiva domesticada na socialização hierárquica negá-los em continuum, ainda que não queiramos.

De mãos atadas se encontram a mulher e o homem comuns – e aqui faço uma apologia a detestável expressão do “cidadão médio”, comumente utilizada na academia, como se “médios” não fossem também os analistas que se valem dessas categorias – com correntes invisíveis, mas que não se distanciam das bolas de ferro que eram penduradas aos escravos, no regime que é uma entre nossas infinitas vergonhas. A economia e a política não estão do nosso lado, e a sociedade civil tampouco parece ter capacidade de agir reflexivamente. Há barganha, há negociação, há palavras soltas em jantares requintados. A elegância da haute couture se encontrou com o charme do poder invisível da politique élevée nos salões suntuosos que grassam aos nossos olhos nos magazines. Tencionam-se as multidões e dividem-se as opiniões. Lá nos palácios que estão os homens do colarinho branco, à procura de soluções.

Não são soluções para os nossos problemas – de fato –, e isso não apenas parece estar claro, como precisa ficar claro. Desavergonhadamente, o inadiável compromisso dos falantes de gravata para com aqueles que não podem falar tomou a forma de um terrível simulacro que assombra as passadas, presentes e futuras gerações. Somos capazes de ao menos olhar isso, pois dizem que olhar é diferente de ver ou enxergar; naturalizamos a auto perplexidade e voltamos para o “bater dos sinos” que dita nosso agir cotidiano. Desejam solapar os seus, os meus, os nossos sonhos e esperanças. Anseiam pela eliminação total da discórdia que incomoda porque sabem que a apreensão lúgubre de “tudo o que aí está” é facilmente adquirível com o auxílio de tantos “institutos” e “mecanismos” ideológicos de dominação disseminados. Na contracorrente, reside a maré que engole os traidores da história. Se ela irá nos salvar ou não, permanece oculta nos baús negros essa resposta. Mas a desilusão deve ser a potência, e não a paralisia. O caminho para o “nós por nós” e não para o “eles por nós”.

Escrito em um domingo qualquer, em um mundo insano.

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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