domingo, 8 de outubro de 2017

Cântico ao homem e a mulher comuns

Por: Alberto Silva

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O fascista não é algo estranho,
Como muitos que vivem dizem,
Ele aplaude de pé o filho na escola,
Numa apresentação teatral às vésperas do domingo dos pais,
Ele aperta nossas mãos todos os dias nos corredores e no elevador,
E sorri, contemplando, o sol que amanhece e a lua que anoitece.

O fascista não é algo estranho,
Ele não usa suásticas, nem as fardas integralistas,
Nem bandeira do Brasil necessariamente ele balança,
Ele é como qualquer outro, suscetível às mesmas pressões,
É bom pai, bom marido, bom filho, dedicado, estudioso, integro,
Ele é legal, dizem por aí. Toma cerveja, ouve um samba.

O fascista não é algo estranho,
Ele rodeia os lastros dos nossos passos,
Compartilha as cadeiras das nossas salas de aulas,
Inculto ou leitor do guia completo de Cultura Geral da civilização,
Ele se metamorfoseia em peles que ardem abaixo do céu,
E queima como fogo a água d`alma do inverno cintilante.

O fascista não é algo estranho,
É a senhorinha que segura cartaz na passeata da Paulista,
E senta-se à calçada para ser fotografada louvando torturadores,
Em casa, ela prepara uma torta aos netos, torta é a sociedade,
A minha família é direita, a infância que eu projeto também,
O nu não será castigado, ele já é, porque eu grito, grito, grito.

O fascista não é algo estranho
É o senhorzinho que joga damas na praça,
Ai nostalgia, de um tempo em que não havia essa veadagem,
Essa prostituição da qual sempre me vali, essas mulheres despudoradas,
Que merecem ser estupradas, e controladas, e açoitadas, e aviltadas
Sem direito, sem vida, sem calma, sem nada. Ê meu país

O fascista é um bicho tacanho
Ele é o sujeito comum, o trabalhador do escritório
O profissional liberal, o intelectual a serviço da ordem, o proletário braçal
Ela é a cidadã média, a angelical assistente social – pasmem – ou a relegada dona de casa
A jurista das trevas, a médica tresloucada, a sra. Que vai à igreja e à escola dominical
Bicho-trans-cis, transformador, sexuado, cujo ardor, é o ódio que destila nos lábios de cor

Ave maria cheia de graças, senhor é convosco, benditas sejam as vozes dos oprimidos
Os arautos da moral que esgarçam os bandidos negros nos linchamentos
Os paladinos dos péssimos costumes que acham que amor precisa de tratamento
Ai meu Jesus, que morreu numa cruz, jamais perdoai o mal que essa gente faz
Ai meu Jesus, que morreu numa cruz, manda para o inferno toda essa laia matraca
Ai meu Jesus, que morreu numa cruz, abençoai a nós, a mercê do rebanho que diz te seguir. ]

(Poema de autoria do colunista)

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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