segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Somos todos fragmentados?

Por: Laís Sales

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Somos quem pensamos que somos? Que personalidades habitam em nós?

Constituímos a ideia de “eu” quando começamos a falar em primeira pessoa, daí surge a continuidade da consciência, esta, vai se formando por um agrupamento gradual de fragmentos e este processo se prolonga durante toda a vida, tornando-se mais lento com o término da puberdade, fase na qual se expande o nível de consciência de si (Jung,1988, p.56). E o eu, complexo que entendemos como sendo nossa identidade, se fortalece e busca realizar-se.

A esse desenvolvimento, Jung denominou Individuação, “tornar-se si-mesmo” (JUNG, 2002, p.113). O ego caminha em direção ao Self, o arquétipo da organização e da totalidade psíquica.

Embora esta condição nunca se realize plenamente, o Si-mesmo funciona durante toda a vida como fator ordenador por trás do desenvolvimento, e como uma força prospectiva de estruturação por trás de sintomas e símbolos (YOUNG-EISENDRATH & DAWSON,2002, p.78).

Porém, todos os fragmentos ao redor do complexo de ego (o eu), fazem parte de quem somos. Ou seja, não somos apenas um. O que isto quer dizer?

(…) o ego não é toda psique, apenas o membro de uma comunidade. A terapia elabora o paradoxo de admitir que todas as figuras e sentimentos da psique são totalmente “meus”, enquanto reconhece, ao mesmo tempo, que essas figuras e sentimentos estão livres do meu controle e identidade (HILLMAN,2010, p. 95).

Para Hillman (2010), o personificar é uma resposta da alma à egocentricidade. Por meio dessa multiplicidade nos tornamos conscientes de distintas partes que nos habitam, através da separação das mesmas, acrescenta ainda que somente aquilo que está separado pode se unir. As personalidades outras acabam encontrando o modo como criticar o ego e isto, geralmente ocorre pela via da psicopatologia, pela aparição de algum sintoma da alma no corpo.

Dentre as múltiplas personalidades podem estar os próprios papéis que ocupamos no dia a dia, porém dizer que são papéis pode ser uma forma do ego enfatizar mais uma vez que é ele quem domina sobre todos (HILMAN,2010).

Do ponto de vista patológico “esta policentricidade seria condenada como fragmentação esquizoide, demonstrando a ambivalência de um centro que não pode se sustentar” (HILLMAN,2010,p.102) tal como no filme Fragmentado. E identificar os padrões arquetípicos presentes é de suma importância:

Cada um deles se apresenta como um espírito guia (spiritus rector) com posições éticas, reações instintivas, modos de falar e pensar, e demandas ao sentimento. Essas pessoas, ao governarem meus complexos, governam minha vida. Minha vida é uma diversidade de relações com elas (HILLMAN,2010, p.103).

BREVE ANALISE DO FILME

Pois a casa que a psique de fato habita é uma composição de corredores de conexão, multinivelados, com janelas por toda a parte e com amplas extensões abertas “em obras”, e súbitos becos sem saída e buracos nas paredes; e esta casa já está recheada de habitantes, outras vozes em outros quartos, refletindo a natureza viva, ecoando novamente o Grande Deus Pã vivo, um panteísmo reaceso pela crença da psique em suas imagens personificadas (HILLMAN,2010, p.113-114).

Kevin, é um homem que abriga em si 23 personalidades. É acompanhado pela Dra. Fletcher que defende frente a comunidade científica que aquele indivíduo de fato não é um, mas 23. Quem normalmente dialoga com a doutora é Barry, uma das personalidades, estilista, ligado as tendências e conhecedor da existência de outras personalidades, mas Barry em dado momento perde a luz para Hedwing, a luz é uma metáfora para permitir que certa personalidade venha à tona. Hedwing explica que ele é a única personalidade que vem para fora quando quiser e que entregou a luz a Patrícia e a Denis, estes dois são personalidades que antes foram banidas pelas outras 21, devido a fixação em trazer a existência a 24ª personalidade, a Besta.

A questão é que Denis e Patrícia sequestraram 3 jovens para oferecer a Besta, estas passam todo o filme em cativeiro e quando chega a hora são dadas em oferendas a 24ª personalidade que promete proteger a todas as 23,fala em nome de todas, referindo-se a si mesmo como “nós”. Ele devora as entranhas de duas das jovens, mas permite que Casey continue a viver, ele enxerga as marcas do sofrimento que ela passa, devido a uma vivência de abuso sexual. Algumas falas da besta enquanto caçava a Casey trazem à tona o passado de Kevin e o porquê de atacar a egos intocados. “É só pela dor que se pode alcançar a grandeza”, “Os impuros são os intocados”, “Aqueles que não sofreram não tem valor nenhum e não tem lugar neste mundo, eles estão adormecidos”, “Kevin é um homem, eu sou muito mais”. Então diz a Casey, ”Você é tão diferente das outras meninas (fala olhando as cicatrizes de automutilação), o seu coração é puro. Alegre-se os afligidos são os mais evoluídos”. A Besta veio em defesa de Kevin e suas personalidades como resposta ao sofrimento vivenciado na infância durante as duras correções de sua mãe e o abandono de seu pai.

A psiquiatra não acreditava na existência de uma outra personalidade/divindade em Kevin. Apesar de procurar manter-se atenta ao processo não pode evitar deixar-se envolver por seu desejo científico e acabou deixando o Kevin e suas personalidades reais de lado.

Patologicamente e em concordância com a teoria acima discutida, o filme faz-nos refletir que há algo que escapa ao ego e embora este sinta-se a totalidade, não é. O sofrimento é a marca daqueles que permitem-se transformar-se nas vivências da vida. O ego é um de nossos complexos, é importantíssimo, mas é parte de quem somos.

REFERÊNCIAS

HILLMAN, James. Re-vendo a Psicologia. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes,2010.

JUNG, Carl Gustav. Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes,1988.

______, Os Arquétipos e O Inconsciente Coletivo. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes,2002.

YOUNG-EISENDRATH, Polly e DAWSON, Teresen. Manual de Cambrigde de Estudos Junguianos. Porto Alegre: Artmed,2002.

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Laís Sales

"Apenas uma gota no oceano da vida"

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