sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Paradoxos da Tolerância

Por: Genialmente Louco

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A intolerância é, geralmente, tida como um ato negativo. À exceção de casos criminais, muitas pessoas abominam a intolerância. Essa rejeição justifica o clamor pelo seu aparente oposto: a tolerância. Pedimos tolerância aos imigrantes, negros, homoafetivos e diversas outras minorias tidas como diferentes em relação à maioria. Porém, a tolerância também pode ser um ato contra alguém.

Imagine que você chega no emprego novo, ou na faculdade nova. Conhece várias pessoas e busca se enturmar no ambiente. Um dia, saindo para almoçar com o pessoal, pergunta se teria problema sentar-se ao lado do colega X. Ele responde: eu te tolero, pode sentar. Eu, por exemplo, procuraria outra cadeira. Se a tolerância é algo positivo, de onde vem o estranhamento causado pela resposta?

A tolerância pressupõe um julgamento normativo negativo, ou seja, para tolerar, é necessário entender que determinado ato ou hábito é incorreto (componente de objeção). Além disso, é necessário um motivo para aceitar a existência daquele ato (componente de aceitação). Isso, por si só, não basta para causar um estranhamento. Vamos usar um exemplo de diversas facetas para esclarecer: a religião.

Imaginemos duas religiões não-existentes: o Aísmo e o Beísmo. Como a religião é um norte que cada seguidor acha correto, o outro norte é automaticamente incorreto. Até aqui, não há problema, apenas uma discordância. Mas as coisas mudam quando seguidores de diferentes crenças se encontram. Por exemplo um beísta desembarca num país de maioria aísta. Existem cinco possibilidades envolvendo a tolerância nesse caso.

A primeira possibilidade é o aísta não encontrar motivos para aceitar uma religião diferente, então ele não tolera o beísta. É o caso da intolerância.

A segunda possibilidade é o aísta tolerar o beísta em seu país, conquanto este não conteste a ordem política defendida pelo Aísmo. É a tolerância como permissão.

A terceira possibilidade é a tolerância de coexistência, quando os sujeitos se toleram mutualmente e buscam apenas evitar maiores conflitos.

Em contraste, a tolerância como respeito é o reconhecimento mútuo da igualdade política e moral entre os dois, mesmo tendo diferenças religiosas.

Caso esses sujeitos entendam que suas práticas, mesmo que distintas, sejam valiosas para a comunidade, há a tolerância como estima.

Dessa forma, os três primeiros casos produzem um desconforto entre os envolvidos. O quarto tende a ser neutro, enquanto o quinto avança para uma relação positiva de reconhecimento da validade e importância de uma prática diferente.

Essa é, com certeza, a relação mais difícil de ser alcançada, já que as razões para aceitar tendem a serem mais frágeis que as razões para rejeitar. O que fazer, por exemplo, quando a rejeição se dá pela cor de pele? Pela origem nacional? Pela orientação sexual? Nesses casos, não precisamos de uma razão para aceitar esse fato “incorreto”, mas sim desconstruir a ideia de que esses fatores são passíveis de julgamento moral.

É necessária muita atenção ao clamarmos por tolerância. Parafraseando Goethe, a tolerância deve ser um ato temporário, que deve conduzir ao reconhecimento. Tolerar é um insulto.

 

Referências:

FORST, Rainer. (2013), “Toleration in Conflict: past and present”. New York, Cambridge

FORST, Rainer. (2009), “Os limites da tolerância”. Novos estudos – CEBRAP, São Paulo, nº 84.

 

Autor: Felipe Alves.

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“Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada.” Zygmunt Bauman.

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