domingo, 15 de outubro de 2017

As crianças e a histeria moral

Por: Alberto Silva

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Quem acompanha as redes sociais, de onde tem surgido a maior parte das polêmicas inúteis (algumas vezes úteis como no caso do recente comercial de Dove) que depois rescindem na pauta da imprensa escrita e televisionada – mostrando o importante papel que a web, ainda restrita a pouco mais de 50% da população brasileira, alcançou nos últimos anos – tem notado o quanto a infância se transformou em objeto de disputa moral. A guerra cultural entre reacionários e progressistas, que por aqui se reproduz como uma versão rasteira do que há muito já ocorre em países como os EUA, se exponencializou esse ano através de uma plêiade de fatos, os quais envolvem predominantemente a sagrada figura da criança, aquela a quem tanto um lado da briga quanto o outro dizem defender, de diferentes formas. Essa batalha envolve sobretudo discursos acerca do processo de socialização mais adequado dos pequenos. O fato social de que existam socializações alternativas é intolerável para o chamado “povo conservador”, geralmente fincado em uma tradição cristã que se diz muito diferente do monoteísmo islâmico, mas que na verdade reproduz, de maneira mais humanizada, as mesmas técnicas de dominação moral no âmbito de algumas de suas parcelas.

Esse “povo conservador” – para usar o termo de um comentarista anônimo que se coloca nesse grupo quase que de forma reduzida a gado – compreende, como se sabe, uma parcela expressiva da população brasileira. Sem meias voltas, se trata da maioria. A maioria que não frequenta exposições de arte, cinema, teatro, shows, lê livros etc. e que quando descobre que essas ferramentas culturais envolvem um “mundo” que escapa em muito da sua opressão cotidiana, se sente horrorizada. O não acesso a esses bens, logicamente, é um produto de fatores estruturais e está longe de ser uma resultante da boa ou má vontade em tomar contato com esses*. Há anos atrás, quando a vigilância digital ainda não era acessível às camadas médias nacionais – em contraste com os dias de hoje em que qualquer vídeo que objetive a promoção do pânico moral chega com facilidade aos bate-papos dos celulares – a performance de um homem nu, baseada na obra de uma escritora aclamada, dificilmente sairia como informação dos círculos de seus frequentadores esclarecidos. Nem que várias crianças o tivessem tocado, mesmo as suas genitálias. Em dois mil e dezessete, uma câmera na mão e o clima cultural de ódio que se dissemina a galope, permitem com que o simples espaço de um museu, que uma parcela das massas muitas vezes nunca adentraram, se torne um templo da profanação.

O vídeo da performance assustadora ou da instalação do artista em uma bolha é aquele instante no qual os cidadãos médios (para usar o jargão acadêmico) se dão conta de que a mediocridade das suas vidas unidimensionais – marcadas pelas jornadas de trabalho extenuantes (quando há emprego), os conflitos familiares e a ida à igreja nos fins de semana – é só uma parcela do que uma existência plena pode oferecer. Por isso mesmo, antes da criança tocar o pé do artista, o que indigna e causa torpor mesmo é a arte em si – como no caso da exposição Queermuseu onde uma convulsão social, apoiada por políticos e juízes ultraconservadores – os mesmos que não dão um pio para casos reais de pedofilia, tráfico de bebês ou trabalho infantil nos latifúndios – causou a sua suspensão não apenas em Porto Alegre, mas também no Rio de Janeiro ou Crentistão de Janeiro, expressão mais adequada à administração xiita de Crivella. As imagens vistas de longe, ou de perto, também representam a quebra das suas seguranças mais íntimas, sendo uma delas a de que suas crianças, enjauladas em um processo tradicional de educação dos homens para o mando e das mulheres para a submissão em algum momento terão que se deparar com uma sociedade plural, que em tese reconhece a tolerância como valor legal, e com outros modelos de comportamento, afetos e estilos de vida.

33kgj79Mostra de Arte Degenerada na cidade de Munique, na Alemanha, no final da década de 1930. A exposição recebeu as visitas ilustres de Joseph Goebbels e Adolf Hitler.

É justamente contra o pluralismo que se insurge a homogeneização pentecostal em aliança com os segmentos mais atrasados da Igreja Católica. A icônica foto de um rapaz com a blusa de Nossa Senhora gritando o nome de Brilhante Ulstra no Palácio das Artes/Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte durante uma exposição demonstra não apenas que as igrejas estão a acolher pessoas com problemas sérios de saúde mental – ou de cretinice congênita na maioria dos casos – e a utiliza-las não para reforma-las espiritualmente (o que não é lá grande coisa) mas para seus fins políticos de destruição da cultura degenerada, como o chamavam os nazistas. A justificativa moral de proteção das crianças não podia ser mais apelativa, haja visto que embora nem todos invadam museus, os que invadem precisam do apoio dos “bons cristãos” (um mesclagem de hipócritas de toda sorte) para continuarem executando suas ações que atentam contra a laicidade – uma fábula – que vigora no Estado democrático de direito – outra fábula. São os miúdos que precisam ser defendidos da “ideologia de gênero”, das exposições de arte, do cinema, do teatro, de tudo que esse audiovisual subversivo pode lhes causar – e aí entra a semente da criticidade; mas que ao mesmo tempo são submetidos a horas e horas de imbecilização com a publicidade infantil – basta ver a classe média e seus canais a cabo infantis – e a apoteose subsequente do consumismo estereotipado (clichês e mais clichês em forma de brinquedos que estimulam a divisão sexual do trabalho). Privadas de algo que não seja a reificação do preto&branco hegemônico, as crianças continuarão a se tornar os mesmos cidadãos que hoje reproduzem o estrago que se tornou o espaço público brasileiro, para o qual só se sabe encontrar um culpado: a classe política.

Alguém pode ler o texto e provavelmente dizer que um jovem colunista nada tem a dizer sobre a criação dos filhos de outrem. E não tenho mesmo. O que aponto aqui são as consequências sociais lógicas da privatização dos procedimentos morais da esfera privada. Apartar completamente o que a arena pública tem a dizer – nos seus ramos mais progressistas – sobre democratização da família, uma das instituições mais totalitárias e monolíticas que existem, implica em uma involução ainda maior do que a que vivemos hoje no país. As crianças, ao contrário d`innocence que se lhes costuma incutir, são produto de uma criação burguesa muito bem datada. Em sociedade, a linguagem da construção social sempre é possível de ser falada. Padrões de todos os tipos não escapam a essa montagem histórica, embora haja certas coisas – muito poucas – que permaneçam inalteradas, algo de orgânico eu diria. Quando uma marca de sabão lança um comercial pregando o fim dos estereótipos no Dia das Crianças, um grande canal de TV faz uma reportagem no programa dominical de maior audiência do país alertando sobre a existência de crianças que não se identificam com o gênero que lhes é atribuído – algo que é abordado em uma jovem personagem de telenovela do mesmo canal – e legisladores com histórico na área da educação propõem projetos para levar discussões sobre diversidade às salas de aula, gera-se um ressentimento imediato – captado por milícias de fascistas que se dizem movimentos liberais – e uma rejeição atroz que não aceita que em algum momento as minorias terão de ser visibilizadas e estarão estampadas nos livros e nas portas dos banheiros. Os que lutam contra o progresso, mostra a história que eu tanto gosto de citar nos meus textos, uma hora terão de se ajoelhar diante dele. Os vivos de ontem serão os mortos de amanhã. As crianças de hoje, e isso é lamentável, serão os adultos de amanhã. Elas estão sendo ensinadas que o diverso é o errado, que o certo é a anti democraticidade e a repressão dos corpos. Pois, como diria Foucault, o controle político passa pelo controle corporal. A dominação nas famílias também.

*Discorrer mais longamente sobre fatores estruturais não é o intuito desse texto. A argumentação em torno deles tende em certa medida a petrificar os sujeitos que apoiam a onda neofascista como vítimas de um sistema que lhes priva de oportunidades de enriquecimento cultural (o que é parcialmente verdade), enquanto o presente texto se propõe a ir em uma direção na qual o povo, longe de ser um catalisador da emancipação, pode ser um terrível algoz.

Para encerrar, a campanha de 42 artistas brasileiros contra a censura lançada essa semana. Artistas que estão sendo acusados de apoiar a “pouca vergonha” das exposições e peças que foram criminalizadas em meio ao clima de convulsão social. A liberdade de expressão, definitivamente, não é algo negociável com a maioria e seus credos.

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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