domingo, 15 de outubro de 2017

Ensaio contra a ordem da injustiça social

Por: Erick Morais

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Apresar de haver uma grande produção de riqueza no mundo contemporâneo, não há uma distribuição equitativa do que é produzido, de modo que as desigualdades sociais aumentam a cada nova estatística, evidenciando o acúmulo de riqueza e poder nas mãos de uma pequena minoria, enquanto a grande maioria luta para sobreviver e colocar o pão na mesa.

Desse modo, torna-se claro que há uma grande diferença entre o discurso democrático e igualitário que fundou o mundo moderno e a realidade de contrastes entre uma classe minoritária, mas dominante; e outra, majoritária e marginalizada. Essa estratificação social é apresentada de um modo muito interessante no filme “Expresso do Amanhã”.

De forma bem simples, em um futuro pós-apocalíptico, o que sobra da humanidade está em um trem, que se divide, grosso modo, entre a população da calda e a população da frente. O filme poderia atingir apenas a complexidade de discutir as desigualdades sociais apresentadas pela divisão do trem. Contudo, a problemática apresentada vai além, e aproxima-se da nossa realidade.

A ordem é apresentada como o valor supremo do trem. Esse valor foi enaltecido no século dezenove por Auguste Comte, que desenvolveu o positivismo sociológico. Para ele, a ordem seria uma variável insubstituível na sociedade, pois dela decorreria o progresso. Ou seja, para que o progresso típico da época fosse atingido, seria necessário ter uma sociedade ordenada, portanto, sem revoluções.

Ainda, segundo o pensamento positivista, existe na sociedade pontos de maior e menor desenvolvimento, fato que influenciou pensamentos e teorias “científicas”, como o darwinismo social. Em outras palavras, para o positivismo cada indivíduo ocupa o seu lugar ideal na sociedade e, assim, a dinâmica social, isto é, o seu desenvolvimento depende do equilíbrio social.

No decorrer do filme, ouvimos várias vezes discursos inflamados sobre o equilíbrio social e a sua importância para a manutenção do trem. A classe dominante, desse modo, utiliza-se do discurso positivista para manter a ordem e, por conseguinte, evitar revoluções. Cria-se um discurso eloquente a fim de manter o status quo e evitar qualquer modificação naquela estrutura em que todos ocupam um lugar pré-determinado, que atende de forma plena às necessidades do trem.

O filme aproxima-se da realidade nesse ponto, qual seja, a manutenção do discurso positivista por trás de uma fantasia libertária. Apesar de velado, o positivismo mantém-se forte na sociedade, impedindo que as pessoas questionem o seu posicionamento social e, assim, possam ter inquietudes que possam abalar a ordem, o status quo.

A própria educação segue o modelo positivista, visando tão somente a performance técnica, o que cria pessoas incapazes de produzir conhecimento crítico e como consequência temos uma sociedade altamente acomodada.

Assim como no filme, nós aceitamos de forma pacífica o discurso dominante, sem questionar a sua integridade. Para a classe dominante, apenas a sua manutenção na superfície a preocupa, aceitando como um axioma a inferioridade daqueles que pertencem a camadas mais baixas da sociedade.

As discrepâncias sociais mantidas por um discurso que já deveria ter sido superado, sobretudo, em uma sociedade que se diz democrática é o que mais assusta ao traçar um paralelo entre o filme e o mundo contemporâneo. Como no Admirável Mundo Novo de Huxley, as pessoas são rotuladas e destinadas a viverem de uma forma pré-determinada, como se não possuíssem as “qualidades” necessárias para gozar de uma vida digna.

A história se repete e os discursos velhos ganham novas roupagens. Os velhos dominantes se convertem em novos dominantes e os velhos dominados em novos dominados. Para aqueles, estes são apenas mortos de fome preguiçosos. O pior é a forma como nos ludibriamos com coisas imundas, como as barras proteicas do filme. Hoje essas barras proteicas levam uma maçã mordida na “embalagem”.

A revolução começa em cada um, seja em que lugar do trem esteja. Uma sociedade ótima não é aquela que segue o modelo do iceberg, em que, enquanto oito nonos ficam abaixo da linha de flutuação, um nono fica acima da linha. Mas, se ainda disserem isso sob o preceito da ordem, rompam com as amarras e sejam subversivos, pois:

“Quando a ordem é injusta, a desordem já é um princípio de justiça.”

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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