domingo, 15 de outubro de 2017

O enigma de Kaspar Hauser: Ensaio sobre a coerção social

Por: Luciano Pontes

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Até onde o que você sabe é realmente o que você sabe ou alguém lhe ensinou? Lembro de célebre música do grupo (infelizmente extinto) Moveis Coloniais de Acaju: “Sempre a explicação me diz o que sei, sempre que eu sei alguém me ensinou”.

Ora, o que tem a ver o ensinar, o aprender e a coerção social? Vou começar do fim, passando antes pelo filme que servirá de pressuposto analógico. O Enigma de Kaspar Hauser é um filme de 1974, dirigido pelo senhor Werner Herzog. Resumo da ópera em português: Kaspar Hauser é um cidadão alemão do século XIX que viveu a maioria de sua vida trancafiado em um quarto escuro. Quando completa dezoito anos, é deixado em uma praça na cidade de Nuremberg. Porém, devido a esse enclausuramento, Kaspar não possui habilidade de fala e nem de escrita, nem tampouco consegue se manter em postura ereta.

Quando se encontra agora no meio social, Kaspar é “educado”: lhe ensinam a andar corretamente, a comer com talheres, a escrita, a fala. Ele de fato, aprendeu a ser homem, no sentido social. Nesse ponto, faço o questionamento inevitável: temos um caso de coerção social?

Coerção social, em termos gerais, é um conceito desenvolvido por Émile Durkheim, sociólogo francês, que se refere ao fato dos moldes de agir e pensar do grupo acabarem por se impor ao indivíduo.  Basicamente o sujeito se submete aos ditames do que já está posto: o coercitivo se mistura com a coletividade.

Nesse caso, Kaspar foi educado, no sentido lato, para conviver como e com a maioria. Isso foi necessário para a aceitação. Isso é realmente suficiente, para arguimos que alguém precisa se apropriar de algo? Durkheim previu muita coisa, porque esse assunto é atemporal, ainda mais nessa sociedade que vivemos.

Ensinar é uma tarefa quase dúbia. Por um lado, se pensa a prática, pelo outro a aprendizagem. A ponte entre aluno e professor, entre sujeito e objeto que também é sujeito. Ensinar é servir ao outro no propósito da aprendizagem deste. Disto não abro mão. Não estou deixando o ensinar de lado: apenas acho que o paradigma certo é a aprendizagem.

Portanto, moldar, ensinar, coerção são a mesma coisa. Porque o aprendiz muita das vezes não quer aprender, porém a sociedade lhe oprime a ponto de querer os resultados da fábrica de aprendizes. Escores e mais escores. Ou você não chega e fica na margem. Esse tipo de coerção é o standard da nossa frígida educação: Propedêutico, pensando em x, você aprende x-1, até onde os documentos mandam.

Essa questão se estende pra fora do âmbito da educação. Quando falamos das lutas das minorias, pensamos na resistência contra a coerção social, do ajuste do normal. Anomalias são concatenadas para a trivialidade e assim, o mundo fica preto e branco: Jesus não tem dente no país dos banguelas.

Aqui deixo apenas a pulga atrás da orelha. Não se pode acabar as discussões em textos. Eles nunca devem estar prontos: prontidão é mais uma coerção social, trabalhista, pós-moderna. Esse texto, assim como todo ensaio, pretende terminar com interrogações, assim como andou todo o tempo. Então, onde está o limiar da aprendizagem e da coerção? Aprender pra quê? E mais: pra quem?

As perguntas me movem. O que te move?

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Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

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