sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O mal que há em nós

Por: Talita Dantas

post

— Mas o nosso interior é muito feio — disse Marcos ao monge.

— Quem está nas trevas não sabe que está nas trevas — o monge respondeu — se você é capaz de olhar pro seu interior e identificar o que há de feio nele, é sinal de que a luz tocou aí.

Esse diálogo compõe mais de um de meus textos, tamanho o meu apreço pelo ensinamento que nos veio de presente, numa manhã despretensiosa de sábado em que resolvemos pedalar até a Ermida Dom Bosco.

Vez ou outra rememoro esse dia e me indago a razão da repulsa que muitos sentem ao se verem tocados pela luz. Há um esforço inócuo em dissimular a própria humanidade e concentrar-se no cisco do olho alheio, em detrimento da trave nos próprios olhos. Inócuo porque, já dizia Jung, “ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão“.

Nesse sentido, o filme “O experimento de Milgram”, lançado em 2015 e dirigido por Michael Almereyda, muito me fala a respeito. Milgram, psicólogo social do século passado, foi bastante criticado por seus métodos voltados à comprovação dos perigos da obediência, cujas conclusões, no dizer de Jeff Sutherland (no livro Scrum, “A arte de fazer a metade do trabalho no dobro do tempo”), indicam que na situação propícia, somos todos capazes de sermos nazistas.

Em uma breve síntese, o experimento consistia em induzir alguém a acreditar que dava choques numa terceira pessoa (a qual encenava claros sinais de sofrimento), em função de um experimento científico, para cuja conclusão lhe era dito ser imprescindível a ação de provocar dor no paciente.

Os estudos demonstraram que pessoas comuns têm poucas condições de resistir a uma autoridade, mesmo que seus preceitos morais não se mostrem consonantes com o ato imposto. Não se veem responsáveis pelas próprias atitudes quando alguém tido como hierarquicamente superior lhes diz como agir. Um (suposto) cientista, no caso.

Algumas das críticas dirigidas à pesquisa de Milgram diziam respeito ao fato de a pessoa analisada não saber ser ela o objeto da análise, o que parece muito mais uma nítida tentativa de desmerecer seus resultados para esquivar-se de admitir a própria natureza humana, falha e imperfeita; de permanecer na negação quanto à própria maldade; de afastar para longe de si os horrores do Holocausto, como se tais características fossem peculiares aos alemães; de manter uma ilusão de moralidade e bondade tão frágil…

A mim, a questão Milgram indica dois pontos de suma relevância: a autorresponsabilidade e a honestidade para consigo próprio.

A autorresponsabilidade ou, em “linguagem de coaching”, senso de ownership, envolve o reconhecimento de que eu sou responsável por minhas escolhas, por meus sentimentos e necessidades; que cabe a mim e não ao outro zelar pelo meu próprio bem-estar, felicidade, alcance de objetivos, coerência entre minhas ações e os valores que admito como verdadeiros para mim.

Envolve compreender que ninguém pode nos fazer sentir nada e nem determinar o modo como escolhemos agir, porque pessoas diferentes, se expostas à mesma situação, reagem de modo diferente, o que significa dizer que a circunstância externa pode estimular, mas não determinar nossos sentimentos ou reações. Há um componente que nos pertence e, se é nosso, podemos atuar sobre ele. Sempre temos escolha!

Como diria Marshall Rosenberg, psicólogo e mediador de conflitos norte-americano, mesmo que estejamos com uma arma apontada para nossas cabeças, ainda assim temos uma escolha. Pode ser que essa escolha nos custe a vida, mas nós a temos e, queiramos ou não, somos responsáveis pelas consequências.

Ao negar isso, nos tornamos potencialmente capazes de cometer barbaridades inimagináveis, sob a justificativa de que não somos senhores de nossas decisões. Vale recordar, o nazista Eichmann ficou famoso por “estar apenas cumprindo ordens”.

A autorresponsabilidade é um grande presente. Nos permite sermos os coautores de nossas próprias vidas; nos exonera da autopiedade, do papel exaustivo de vítima das circunstâncias; nos exime da necessidade de buscar a todo instante a culpa no externo e volta o nosso foco a nós próprios. O que eu posso fazer? Que recursos eu tenho? Que forças e virtudes minhas eu poderia explorar melhor? O que mais é possível? Que habilidades preciso desenvolver? Preciso de ajuda? A quem posso recorrer?

O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós”. Jean-Paul Sartre.

De igual modo, a autorresponsabilidade também nos redime, pois, ao tempo que nos revela a impossibilidade de o outro determinar nossas ações, também nos mostra a nossa própria impotência diante das escolhas dos outros e a eles confere a responsabilidade por si próprios, pelos próprios sentimentos e necessidades.

Assim, podemos nos concentrar em melhorar a nós mesmos, em nos tornarmos o melhor que pudermos como seres humanos, em desenvolver plenamente nossos potenciais, em multiplicar nossos talentos, em atribuir sentido para nossas vidas, em fazer a nossa parte (em vez de só reclamar do coleguinha que não fez a dele) em prol da melhoria das relações, em batalhar pela realização de nossos sonhos… ou seja, podemos alcançar aquilo que a psicologia positiva chama de felicidade autêntica – uma vida engajada e com significado – e podemos também deixar ao outro a responsabilidade pela própria felicidade.

É uma dádiva desprender-se da ilusão de que podemos fazer alguém feliz, além de nós mesmos. Não podemos senão contribuir com a felicidade do outro. Ser feliz é uma questão de decisão e decisão é uma questão de foro íntimo, ato personalíssimo, privativo a cada um de nós. Tarefa inglória é lutar para fazer feliz alguém que não tenha decidido sê-lo e que não refaça essa escolha instante a instante. Eu não mudo o outro, porque só o outro pode mudar a si mesmo.

A honestidade consigo próprio também pode ser entendida como humildade, ou seja, como a admissão sincera do nosso real tamanho, dos nossos defeitos e também das nossas qualidades, um passo essencial para o crescimento. Aquele que se vê espelho da perfeição não se permite aperfeiçoar. É o paradoxo do filósofo, o mais sábio porque sabe que nada sabe. Sábio justamente porque admitir a falta de sabedoria é o que permite a sua busca. Só pode aprender aquele que reconhece não saber. Só pode melhorar aquele que se reconhece imperfeito. Admitir é o primeiro passo.

Ao depararmo-nos com nossa feiura interior, não convém apagar a luz, para manter a aparência de que somos bons, de que somos melhores, de que os outros é que são a encarnação da mal. Os outros, os diferentes, os que não congregam da nossa opção religiosa ou partidária. Como se o mundo fosse de fato dividido entre mocinhos e bandidos, nós e eles…

Rótulos… superficiais e ineficientes, embora úteis para nos situar no mundo em que vivemos, desde que não os confundamos com uma verdade absoluta e deixemos sempre espaço ao aprendizado, a partir da consciência de que o outro é muito mais do que se apresenta e que não apenas ele como também eu nos encontramos em constante desenvolvimento.

Ao nos despirmos da necessidade de fingir perfeição até para nós mesmos, ao admitirmos que também em nós há a semente do mal, podemos começar a nos concentrar não naquilo que nos torna diferentes, prática que alimenta a intolerância, mas naquilo que nos faz semelhantes. Assim conseguimos nos conectar, compreender, colaborar, amar… No fim das contas, entendemos que somos apenas pessoas, num maravilhoso processo de evolução.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER