domingo, 22 de outubro de 2017

Como vovó já dizia

Por: Talita Dantas

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“Coração do homem é terra que ninguém pisa” — dizia minha avó e repetia minha mãe.

— Por que, vovó, que ninguém pisa “no coração” do homem? — eu questionava, intrigada, imaginando alguém esmagando um coração com os pés.

— Porque ninguém conhece o que se passa no íntimo do ser humano, minha filha!

Minha avó mal sabia assinar o próprio nome. Ela me ensinou desde bem cedo que sabedoria e conhecimento não são sinônimos. O conhecimento pode me levar à sabedoria, mas é preciso cuidado para que não me leve apenas à arrogância.

Terra que ninguém pisa… Cresci refletindo. Mais de uma vez, talvez centenas delas, me peguei divagando sobre o coração ou mesmo a mente dos outros. Só para no fim me recordar: terra que ninguém pisa… Que ninguém conhece. Que é impossível conhecer precisamente, principalmente por meio das conjecturas do pensamento, já que, mesmo que o outro aparentemente me permita o acesso, por meio da expressão voluntária, espontânea ou coagida, ainda assim é impossível a certeza plena de que é aquilo que verdadeiramente se passa em seu interior, pois ele sempre pode dizer algo distinto daquilo que realmente pensa, sente ou crê.

Se o coração dos outros é terra que eu não posso pisar, também o meu é inacessível a quem quer que seja. O que significa dizer que há no mundo um lugarzinho especial em que só eu mesma posso entrar. Ninguém mais pode explorar o território inacessível das minhas emoções, das minhas forças e virtudes, dos meus vícios e defeitos. A mim e somente a mim foi reservado o direito de imergir em mim mesma e de expressar o que sou em essência. Nesse sentido, se há um lugar que só eu posso conhecer, que só eu posso dizer à humanidade como é, não o fazer é um crime inescusável.

Se ninguém mais pode sentir por mim, se não há quem possa falar as palavras que estão na minha boca, é mais que uma necessidade, um dever, uma questão de honra saber quem sou, para que eu possa dizer ao mundo a que vim. Uma obrigação moral, segundo Jung.

Essa obrigação moral da qual ele fala significa viver aquilo que percebemos, seja o que for encontrado nos campos elísios da psique” — Clarissa Pinkola Estés

De fato, não fui a mesma ao longo da vida, o que significa dizer que autoconhecimento é um processo infindável. A todo instante necessitamos redescobrir quem nos tornamos, quem somos nós diante de cada novo desafio. Mais ainda, incumbe-nos conhecer as múltiplas faces de nós e conciliá-las constantemente. Não há um só caminho e nem uma só receita.Múltiplas ferramentas, métodos, possibilidades estão disponíveis.

Eu particularmente me encontro na Filosofia, na escrita, no coaching e até no Direito… Na Filosofia, eu me questiono, me faço humilde, abro minha mente, deixo espaço ao aprender. Na escrita, me compreendo, me defino, me expresso, medito, oro, agradeço. No coaching, eu me planejo (e replanejo), me desafio, otimizo o uso das minhas forças, me realizo, ajudo o outro e, sobretudo, me ajudo. Do Direito, eu pego valores, princípios, ideais, sede de um mundo mais livre, justo e solidário, técnicas de tomada de decisão…

A bem da verdade, todos se inter-relacionam. Não estão em caixinhas separadas e hermeticamente fechadas, de modo que, em certa medida, uns mais outros menos, todos confluem para o ampliar do autoconhecimento, o foco em melhoria contínua e o expressar da essência.

Mas isso é o que funciona para mim. Não há receita! Cada grão de areia no universo é único. Cada ser humano também. É trágico que nos comportemos como se fôssemos produzidos em série numa fábrica de Henry Ford. O mundo precisa de todo tipo de mente. Basta refletir, se todos pensássemos como engenheiros, não teríamos médicos. Se todos pensássemos como médicos, não teríamos chefs de cozinha. Como consequência, grosso modo, teríamos uma sociedade com muitos prédios, em que viveríamos muito pouco, ou uma sociedade em que viveríamos muito, sem os prazeres da boa mesa.

A diversidade nos faz fortes, torna rica nossa cultura e nossa experiência. Daí a importância de ouvir. É que minha visão de advogada-coach-escritora-mediadora é limitada, não consigo ver o que vê um engenheiro, não consigo observar do ponto de vista de um médico, não enxergo pelo prisma de um chefe de cozinha.

De certo modo, tão mandatório quanto expressar o que se é em essência, em razão da reserva de conhecimento íntimo privativa a cada um de nós, é o reconhecimento de que podemos até saber muito, mas nunca saberemos tudo. E se não sabemos, humildade é reconhecer que para que eu esteja certo o outro não necessariamente tem de estar errado. É apreciar o ponto de vista do outro, sem a necessidade de ao dele sobrepor o meu.

Nesse sentido, ouvir com atenção, “com os ouvidos da alma”, é o mais próximo que conseguimos chegar de “pisar o coração do homem”. É um enxergar com os olhos que não são meus um terreno em que eu não posso penetrar, quando o outro me permite conhecer um pouquinho daquilo que fora reservado só a ele. Quem sabe, a partir daí, eu consiga ver alargada a minha compreensão, transformado o meu próprio universo interior.

Quando trabalhamos isso no âmbito dos relacionamentos, quando nos escutamos e esforçamo-nos para compreender o outro, quando expressamos nossos sentimentos com verdade e sem violência, conseguimos nos conectar no nível do coração — ou seja, entendemos mutuamente nossas necessidades e sentimentos, e, assim, após enxergarmos nossos próprios horizontes e valores, podemos trabalhar em prol da construção de um horizonte comum.

Em seu coração há uma estrada que só você pode percorrer. É um privilégio única e exclusivamente seu descobrir-se e ser verdadeiramente você. Encare o desafio. É incrivelmente compensador. É verdade que há esforço, tanto quanto é necessário esforçar-se para ter uma casa organizada ou um corpo saudável. Mas, de igual modo, o esforço compensa. Trilhe essa jornada. E permita aos demais trilharem as suas.

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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