terça-feira, 24 de outubro de 2017

Apologia àqueles cujo CORAÇÃO resiste

Por: Genialmente Louco

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Resiliência. Sf. 3. Poder de recuperação. Tomo a liberdade de associar esse termo a obra notável de Zygmunt Bauman a que muitos vem falando a respeito: Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. A perspectiva que Bauman nos coloca abrange de maneira geral o caráter social e diversas relações humanas: econômicas, hierárquicas, sociais, de interesse, de exclusão, enfim. De modo que é um quase pecado de minha parte vir até aqui me atentar apenas para a relação romântico-amorosa, contudo, sinto que preciso fazê-lo, e se o faço é por experiência própria e por necessidade. Não sou apta a expor minha vida publicamente, mas não tem jeito melhor de convencer as pessoas de uma circunstância que fazê-las perceber que sua existência é real.

Acredito que a maioria das pessoas não seja capaz, e deliberadamente não queira, se colocar como alvo das palavras duras do sociólogo. Contudo, se não for você mesmo o norteador de sua própria condição, quem o faz então? O fato é que as palavras de Bauman bateram lá no fundo da minha existência, porque vi refletida na sua crítica minha própria hipocrisia. Estilo controladora do meu próprio destino, dona da minha situação. No fundo insegura da realidade, temerária do sofrimento. Depois de viver algumas relações que arrancam de você uns pedaços, como recomeçar sem que nada tenha acontecido? Minha experiência como ser humano e artista me diz que mesmo que quiséssemos não é possível. O brilho eterno de uma mente sem lembranças ainda não existe aqui, por isso se não soubermos lidar com nossas relações acabaremos na escuridão eterna de uma mente sobrecarregada.

Acumulamos fatos, lembranças, informações, dizeres, sentimentos. Inevitavelmente aquilo que nos fez sofrer será inconscientemente repelido por nós. Minha ilusão de controle sobre meus novos relacionamentos fazia isso por mim, impedia que eu me sentisse “fazendo papel de trouxa” novamente. Quando entrei num novo relacionamento, um ano e meio depois da catástrofe anterior, eu não poderia ser essa pessoa que vos escreve. Não poderia ser na verdade criatura mais desprezível, cujo relacionamento comigo mesma eu não suportaria. Impaciente, rebelde sem causa, controladora, insegura, intransigente e entediantemente pontual. Ele era o completo oposto: irresponsável, fora dos padrões, inconsequente, radical, segurança que beirava a prepotência, não fazia absolutamente nada no prazo ou na hora. A única coisa que unia nossas ideias e nossa relação era a liberdade.

Começamos a relação porque nos apaixonamos no momento em que dividimos a vontade de conhecer o mundo, as culturas, todas as comidas, todas as crenças, todas as pessoas. Dividimos a revolta com a educação universitária, parcial e de pouca perspectiva, e como esperávamos o dia de sairmos viajar e começarmos a viver todas aquelas emoções que até agora só tinham sido sufocadas no coração para o cumprimento dos deveres habituais de uma vida humana: escola, faculdade (prova, pesquisa científica, estágio, TCC) e trabalho (cujo genial Charles Bukowski, pra mim, descreve muito bem: “como, diabos, pode um homem gostar de ser acordado às 6h30 da manhã por um despertador, sair da cama, vestir-se, alimentar-se à força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?”).

O que ninguém até hoje entende é como estamos juntos, e noivos, depois de quase dois anos e meio de uma relação particularmente difícil: ele é francês, e quando eu o conheci ainda ficaria na faculdade por 2 anos, na França, lógico. Eu, brasileira, ainda ficaria na faculdade por mais três, se não tivesse saído do curso em questão e começado tudo de novo porque resolvi libertar as emoções que, como disse anteriormente, vivia sufocando. Ora,isso parece totalmente insustentável pra nossa sociedade em questão: um casal de namorados, ainda na faculdade o que já é difícil de acreditar, separados por um oceano de distância e cuja situação continuaria como tal por pelo menos mais alguns anos, ter sobrevivido.

É particularmente exaustivo falar disso com qualquer um. As pessoas quando conseguem não fazer um comentário desagradável sugerindo casos inumeráveis de traição por todos os lados, olham admiradas e incrédulas de que tal situação vá progredir. Por isso deixo aqui minha resposta à opinião geral, polidamente reelaborada porque algumas pessoas não vão terminar de ler o meu artigo se eu perder a compostura: vão para certos lugares do corpo humano, úmidos e inóspitos, aprender a como viver suas vidas sem minimizar a felicidade das outras pessoas, isso seria muito bom. Mas continuando.

O fato é que nesses dois anos, que é um período relativamente curto, crescemos mais que em décadas. Não por um motivo que seja intrínseco e especial de nós dois, mas pela situação. Diversas vezes a atitude mais fácil teria sido por um fim a tudo, recomeçar, encontrar outra pessoa que estivesse morando a 11 minutos de carro, e não a 11 horas de avião. Em cada desentendimento a dúvida surgiu. Surgiu o medo, a incerteza de estar passando por uma situação de tamanha dedicação cujo fim era incerto. Porém, sobre cada acaso prevaleceram as coisas boas, os momentos que tínhamos divididos juntos, os sonhos.

Prevaleceu a vontade de consertar as coisas ao invés de joga-las fora e buscar outras. Prevaleceu a escolha de ficar naquele relacionamento, a escolha de querer dividir a vida com aquele ser humano especificamente. E mesmo quando veio a dúvida, a possibilidade da nossa felicidade ainda estar por aí atrelada a outra pessoa, nos veio a realidade de que se a felicidade do indivíduo não pode estar além dele, a do relacionamento não pode estar além dos envolvidos, de maneira que ela estaria ligada a mim e a ele se quiséssemos, se nos empenhássemos pra fazer dar certo, os dois juntos.

A liquidez de que fala Bauman pra mim está então relacionada à resiliência a medida que você não consegue mais se recuperar dos sofrimentos e dificuldades que são inerentes da vida humana, e então abandona tudo pela metade, na esperança de que em uma nova situação não haverá tropeços. Mas seja com a pessoa x, y ou z, os relacionamentos sempre serão permeados pelos mesmos sentimentos humanos. A única coisa que, ao meu ver, põe um fim definitivo às circunstâncias, é a exaustão. Exaustão essa que se liga ou a parte que gostaria de continuar lutando, mas que não vê na outra o mesmo empenho. Ou se liga à parte que não quer se empenhar, que se exauri pela própria incapacidade de examinar os fatos, suas palavras e atitudes, e então parte em busca de um novo alguém que não a faça se chocar com a realidade de que ela é um ser cheio de defeitos e precisa crescer.

Pra mim é essa a verdadeira barreira que precisa ser rompida, a de que hoje as pessoas preferem fugir a encarar os problemas, na esperança de que em outras circunstancias esses problemas não vão existir. Os erros daquele relacionamento são então covardemente jogados sobre uma das partes, enquanto a outra, ou ambas, continua acéfala a sua incapacidade de entender a si mesma. Que fique claro, por fim que eu não me refiro aqui a todos os términos. Claro que alguns envolvimentos não dão certo e vão ser terminados, mas uma coisa é o fim que teve seus recursos esgotados, onde o amor existiu, lutou mas não pôde sobreviver. Outra coisa é o começo que já é fim iminente, o amor que começa e já parece destinado ao abandono com o primeiro desvio, a primeira derrapada na curva. Essa é a diferença entre o fim sincero e o abandono, entre a desilusão verdadeira e a covardia. Isso muda tudo.

E já que provavelmente ele e muitas outras pessoas boas vão ler este artigo, não tenho a intenção de termina-lo em tom de tragédia de Shakespeare. Amores reais são possíveis. Ouçam o gênio do nosso tempo que é Bauman e façam com que sua perspectiva influencie suas vidas neste momento, e não no futuro quando as oportunidades já tiverem ido embora para dar lugar a meias lembranças. Não se atenham só ao amor romântico, por favor. A maior prova de amor é continuar amando depois que acaba a paixão, o amor que transcende a rotina, que ao decorrer dos anos pode não ser mais louco e inconsequente, mas é pacífico e traz tranquilidade. Alegria súbita que aquece o coração, sincera, que não duvida, não maltrata, não desconfia. E que sabe, que espera: aquela pessoa vai entrar pela porta daqui alguns minutos, então vou ver seus olhos. Simples assim.

ps: Je t’aime, mon coeur, et merci pour tout.

 

Fonte: Bianca Ferreira/Obvious.

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Sobre o autor

Genialmente Louco

“Loucos são apenas os significados não compartilhados. A loucura não é loucura quando compartilhada.” Zygmunt Bauman.

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