terça-feira, 24 de outubro de 2017

Não sabe brincar? Desce pro play e aprende!

Por: Talita Dantas

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Estava eu numa das muitas palestras a que costumo ir, com a expectativa de apenas assistir passivamente a exposição — como é usual em palestras. Já estive em outras nas quais a interação entre público e palestrante é grande, mas, convenhamos, não são a maioria.

Passados poucos minutos desde que tomei assento, já tendo tirado meu caderninho e minha caneta da bolsa (essa mania de escrever me acompanha a todo canto), a oradora anuncia:

— Esse aqui é o Cássio, ele é meu professor de dança, trabalha com ritmos e, como estamos aqui para fazer um tributo a Joseph Campbell, autor que muito enaltecia a arte, não podíamos deixar de trazer artistas para homenageá-lo.

“Ah nem”! Eu pensei. “Já vão querer que a gente vá lá pra frente, aposto. Não vou lá na frente não”.

O pensamento é uma coisa engraçada. Num segundo a gente dá a volta ao mundo. O impulso de me segurar à cadeira e permanecer imóvel não deve ter durado mais que isso, porém, nesse segundo, um milhão de justificativas para não participar se passaram pela minha cabeça. “Não, não sei dançar… Todo mundo vai me olhar… Vou parecer ridícula… Prefiro só observar…”

Lembrei-me dos milhares de momentos em que eu estava na sala de aula e o professor fazia uma pergunta. “É isso”, pensava comigo. “Eu acho que é, mas é melhor não falar, porque vai que não é…” Daí alguém respondia e eu pensava: “que droga! Eu sabia que era isso. Devia ter falado”.

— Avança a fita! — Eu disse a mim mesma, em relação à dança para a qual, eu pressentia, seria convidada já já.

— Se você não for, o que vai acontecer?

— Vou ficar aqui, com cara de tacho, olhando todo mundo participar e me sentindo mal por não ter coragem de ir também.

— E se for?

— Provavelmente ficarei muito satisfeita comigo mesma por ter vencido minha zona de conforto…

Ainda estava em dúvida quando o professor efetivamente fez o convite, mas, quando o rapaz ao meu lado se levantou, não pensei duas vezes, fui no embalo. Dane-se se eu não sei dançar. Eu não nasci sabendo nem fazer xixi no vaso.

Só de levantar e caminhar até o palco do Anfiteatro 5, eu já estava satisfeita comigo mesma. O professor tinha a alma no olhar. Dava pra ver que era dessas pessoas raras que acreditaram em si, no seu talento, no seu potencial; que apesar de todas as vozes que ressoam “não dá pra viver de dança”, “arte é hobby, você precisa de um emprego de verdade”, e bla bla bla, seguem em frente obstinadas; que entendem a frase de Campbell “o privilégio de uma existência é ser quem você é”.

Essas pessoas têm um troço diferente. Você olha pra elas e enxerga na cara a plenitude, a satisfação, a alegria com que fazem o que fazem. E não fazem pra ganhar dinheiro. Não só e não precipuamente. Fazem porque amam fazer. Porque escolheram florescer. Porque decidiram multiplicar os talentos que receberam como dádiva. Porque optaram por não deixar fenecer os dons. E o legal de ficar perto de uma pessoa assim é que essa energia seduz, contagia, inspira, entusiasma, motiva a gente a querer brilhar também.

No meio da dança, quando a vergonha já tinha ido embora e o encontro do meu olhar com a energia contagiante do olhar do professor já tinha me permitido estampar um sorriso no rosto, olhei pra galera que decidiu ficar sentada.

Acho que era um empate técnico. Metade no palco, metade nas cadeiras. Todo mundo tem seus próprios motivos para escolher uma coisa ou outra e eu não tenho a menor condição de dizer o que cada um dos que apenas observavam estava sentindo, mas a feição de uma delas, em especial, falou comigo.

Ela apoiava o cotovelo esquerdo sobre a mesa e a bochecha do lado esquerdo sobre a mão esquerda fechada. Em seu rosto, eu vi o meu, a expressão que eu teria se tivesse escolhido ficar sentada. E nesse momento, meu pensamento deu outra volta fenomenal — eu podia ouvir duas de mim. A que veio e a que ficou.

Uma feliz, por estar ali, se permitindo fazer parte, e a outra triste por ter se excluído, ainda mais convicta de que não tem o direito de pertencer, estampando no olhar a frustração e a tristeza, repetindo a si mesma: “é, você não sabe dançar. Seria legal estar lá, mas todo mundo riria de você. Seria ridículo se você fosse. Foi melhor ter ficado aqui mesmo”.

A dança acabou. O empate técnico se desfez. Voltamos todos ao auditório e pomo-nos a escutar — música, poesia, filosofia… A alegria e a leveza me acompanharam durante a palestra  inteira – se é que se pode chamar isso de palestra, uma vez que o termo me parece muito aquém do que realmente foi. No final, convidaram-nos para outra dança. A essa altura, o ridículo, a falta de técnica e o medo já tinham perdido tanta força que nem me passou pela cabeça ficar sentada. Devo ter sido a primeira a levantar.

Saí dali feliz como uma criança, lembrando de que, quando a minha irmã completou dois anos (e eu tinha 4), eu escolhi ir pra festa com três bolsinhas e um guarda-chuvas. Minha mãe tentou a todo custo me convencer de que três bolsas não compunham um visual muito legal e que era totalmente inconveniente levar um guarda-chuva pra festa, mas eu não ligava.

As bolsas eram minhas, eu achava legal daquele jeito e eu já tinha premeditado um bom uso para o guarda-chuva. Quando eu penso nessa festa, me vem à cabeça uma imagem de mim dançando frevo, feliz da vida de ter levado a sombrinha, sozinha no meio do salão. Frevo a meu modo, do meu jeito, porque eu tava a fim, porque era legal e ponto.

Foi na quarta série que isso mudou. Eu lembro bem. Tive uma professora de educação física que organizava um evento de dança. Eram vários passos a decorar e tinha um bendito que eu não conseguia fazer de jeito nenhum.

Ela já tinha puxado minha orelha nos ensaios algumas vezes. Eu queria muito dar conta. Eu queria muito participar. Então vim pra casa e ensaiei, ensaiei e ensaiei, até conseguir. No dia seguinte, cheguei ao colégio empolgada para contar a ela, mas, antes que eu tivesse a chance, ela me disse que eu estava fora, que eu não estava dançando bem, então não poderia apresentar.

Eu tinha 10 anos. E daí pra frente eu só queria dançar se fosse sozinha no quarto. Nada de frevo em festas infantis. Alguns anos mais tarde — na época em que eu bebia — eu voltei a dançar, mas só depois de umas cervejinhas…

Talvez vocês esteja aí pensando, “mas que professora f.d.p, hein”! Já ouvi isso algumas vezes depois de contar essa história. Mas a verdade é que sou grata a ela. É o romper do casulo que faz com que a borboleta tenha forças para bater as asas. Sem resistência, sem desafio, a gente não cresce! Fica lagarta pra sempre. Devo tudo o que sei a meus professores —aos formais, a quem sempre enalteço, e aos mestres com quem me encontrei nos caminhos da vida. As lições prazerosas e as lições duras, todas são importantes.

Já faz um tempinho que optei por parar de deixar a professora da quarta série dizer que eu não posso participar (ela ainda vive dentro de mim, reforçada por uma série de outras vozes que, com a dela, formam um coro aqui dentro). Ela até fala, mas eu não dou tanta importância e também não preciso mais de nenhuma substância para fazê-la calar a boca. Eu fiz dança cigana, zumba e até arrisquei uns passinhos de salsa com um amigo numa festa outro dia.

Só que eu sei que o fato de eu ter dançado zumba, salsa ou qualquer outra coisa, não me garante que amanhã eu vá lidar bem com isso. Tudo depende das escolhas que eu faço instante a instante. Se eu começar a deixar minha professora determinar o que eu posso ou não fazer, se eu começar a aceitar de novo a ideia de que não sou boa o suficiente, logo logo estarei grudada na cadeira, imóvel, com a bochecha apoiada na mão e o cotovelo sobre a mesa, me convencendo de que fiz a melhor escolha ao me negar o direito de confraternizar, de interagir, de me divertir, mesmo sem saber, sem ser perfeita…

De nada importam os louros ou os fracassos do passado. O que importam são as minhas escolhas aqui e agora. Aqui e agora, nove anos atrás, eu escolhi deixar o cigarro. Instante a instante, eu renovo essa escolha. Aprendi a não fumar. Posso não me tornar uma exímia dançarina, mas, instante a instante, renovando a escolha de dançar (pra ser feliz e não pra agradar ninguém), eu vou aprendendo a bailar com a vida.

O que importa mesmo é que eu tenha consciência de que eu tenho uma escolha. Sempre!

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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