sábado, 28 de outubro de 2017

O doce sabor do erro

Por: Talita Dantas

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Era uma reunião de mulheres. Falávamos do processo criativo. Uma delas mencionou ser ruim na cozinha. Eu emendei: “tenho certeza de que já fui muito pior”.

Ela comia um pedaço do bolo de tomate seco que eu tinha feito à tarde: “kkkkk, até parece”!

Eu comecei a cozinhar aos sete anos. No meu primeiro bolo, esqueci de colocar farinha de trigo😓. Como esse, vários foram os erros subsequentes. Tantos que também comecei a acreditar que eu era ruim. Apesar disso, não desisti.

Com o tempo, os erros foram ficando cada vez menores e os acertos maiores. Evoluí. No nível seguinte, comecei a saber o que poderia substituir o que. Por exemplo, qual a proporção de óleo eu devo usar se quiser substituir a manteiga, o que vai bem no lugar da farinha de trigo, etc.

Deu- se início, posteriormente, ao que chamo de cozinha intuitiva. Não raro, entro na cozinha como se fosse o meu laboratório, sem a menor ideia de qual será a experiência do dia. Começo a juntar os ingredientes e de repente, como fiz com o bolo salgado de tomate seco, vou inventando uma receita nova. E é no meio da receita mesmo que ela vai se transformando.

Não me tornei infalível, é fato. Às vezes minha criação não fica nada apetitosa, como o peixe na crosta de coco e molho de mel. Não combinou nadinha. Mas, muito frequentemente, o resultado é bem legal. Surpreendente até pra mim.

Cozinhar é um hobby (e acaba sendo chato quando faço sem vontade alguma). Não sou chef e nem pretendo, mas hoje eu não me acho nem um pouco ruim de cozinha. E não sou ruim porque me permiti ser ruim durante muito tempo. Porque me permiti aprender com os meus erros e por ter persistido, por mais que algo em mim dissesse que eu não era lá muito boa.

Criar, na cozinha, na literatura, no teatro, no trabalho, na família ou seja lá onde for que eu precise de uma solução criativa, requer o não-julgamento, a permissão de cogitar ideias que parecem à primeira vista absurdas, mas que podem dar origem a inovações incríveis; requer o direito de errar, de testar essas ideias loucas, pra ver se na prática correspondem ao que se imaginou; e requer visão prospectiva.

Não tem como corrigir o bolo que assou sem farinha de trigo, mas, no próximo, posso por a farinha antes de assar. Não tem jeito de tirar do peixe o sabor doce provocado pelo mel, mas posso no futuro, talvez, fazê- lo no molho de maracujá.

Um dos grandes segredos de aprender é saber que quem é bom hoje não nasceu (não é e nem será) perfeito. Há um caminho a ser trilhado. Tudo o que eu preciso é identificar qual o caminho que eu quero seguir, com a consciência de que haverá tombos.

Tombos não são um problema, desde que eu aprenda com eles o que é preciso para não cair mais do mesmo jeito. O problema não é errar, é deixar de tentar por medo do erro ou errar do mesmo modo sempre, porque não se aprendeu o que o erro tinha a ensinar. Ouse cometer novos erros e aprender com os velhos. No lugar do gosto amargo do arrependimento (de ter feito ou de ter deixado de fazer), saboreie o doce néctar do aprendizado. É só uma questão de perspectiva.

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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