domingo, 5 de novembro de 2017

Cidadania robótica: o futuro que paira sobre nós

Por: Alberto Silva

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A robô Sofia lançada no final de outubro último em evento na cidade de Rhyad na Arábia Saudita é o sinal de que os futurólogos, categoria antiga na contagem premonitória da história dos eventos, estavam certos quando já no final do século XIX anunciavam que, em longo prazo, máquinas e homens terão de conviver em um mesmo espaço. Inaugurada com uma inteligência artificial sofisticada que permitiu com que investidores presentes ao acontecimento ocorrido no país dos sheiks pudessem fazer algumas perguntas a robô e terem de pronto respostas muito bem elaboradas, e com direito à cidadania concedida pelo país, Sofia é a materialização de um “futuro” de radicalização tecnológica na qual carros voadores, viadutos mais parecidos com montanhas russas, conservacionismo radical do meio ambiente e telepatia entre seres humanos convivem em um mesmo espaço possível.

A “AI” (artificial intelligence) é uma velha conhecida do público comum. Na ficção, o filme com esse título, que foi ao ar nos cinemas em 2001, dirigido por Steven Spielberg, é uma das representações mais consistentes do fato na sétima arte. No momento em que Hollywood (a cidade dos escândalos sexuais de Harvey Weinstein e outros na atualidade) se deparou com essa “película”, a clonagem da ovelha Dolly já havia ocorrido e conjecturas a respeito da clonagem humana vinham à baila. A utopia de criar cópias de seres humanos – espécies de “avatares” de nós mesmos soltos por aí – não se concretizou, mesmo porque a ética científica, que como qualquer ética profissional é relativizada em uma sociedade que fala a linguagem do lucro – proíbe experimentos com seres humanos. Nos códigos legais, não é cabível que os médicos de hoje se comportem como os serviçais de Hitler.

Bem-vindo admirável mundo novo, em que máquinas são iguais a seres humanos. A sociedade das inovações também é a sociedade das contradições. A Arábia Saudita, país que dá cidadania à Sofia, renega o status de cidadãs a milhares de mulheres que lá vivem, ainda obrigadas a obedecerem à dominação masculina irrestrita. Não que no “Ocidente” – termo que eu passo a detestar cada dia mais – tenhamos exemplos de igualdade de gênero para aqui e alhures, com exceção de uma política maciçamente feminista a exemplo da Suécia. É inegável no entanto que no referente a direitos subjetivos a Europa ou os EUA, em franco declínio moral, apresentam condições substantivamente melhores para o exercício das liberdades básicas da maioria da população. Relativizar as culturas é importante, mas defende-las não deve ser nosso objetivo. Opressões são também produtos culturais.

Para os subalternos, falar em perspectivas culturais e identitárias fixas pode ser perigoso. E antes de discutir o mundo das distopias robóticas, é necessário ver até que ponto conseguimos garantir o mínimo de cidadania para boa parte da humanidade, repleta de pluralidades e subjetividades. Logicamente que sabemos o intento dos bilionários sauditas e estrangeiros envolvidos na empreitada de humanização dos robôs: o fomento a um novo tipo de economia. Não sou contra a guinada tecnológica, acho que ela tem o potencial de transformar vidas e em alguma medida democratizar o conhecimento e o acesso a informações, inclusive as dissonantes. Porém, fetiches como a democracia digital direta ou a circulação livre e desiniba daquilo que colocamos nas redes são meras ilusões. Se entusiasmar com isso é esquecer que a internet representa uma das formas de controle mais avançadas já criadas pelo homem. Para isso, basta ver que a ideia de um “anonimato” razoável simplesmente desapareceu nos espaços públicos. Nostalgias de tempos não vividos à parte, é certo que a tranquilidade social há cinquenta anos não se compara com o ritmo frenético e produtivista do “trânsito” acelerado da “pós-contemporaneidade”.

Robôs cidadãos em uma sociedade onde alguns são ainda vistos como não humanos (tema que eu já coloquei de maneira dispersa nos demais escritos dessa coluna) é mais uma das contradições sob as quais nós terráqueos, aficionados pelo ganho e pela bulimia dos dados materializados na tecnicização da vida e na imagem de um mundo onde ninguém precisa sair mais da cadeira para obter aquilo de que precisa, em suas necessidades mais básicas, enredamos nas narrativas do presente. A cidadania robótica é a antecipação de um futuro no qual já se dizia, máquinas e homens convivem bem mas posteriormente se confrontam e em algum grau se destroem. Serão essas grandes lutas sociais inovadas uma parte da composição de um panorama de esvaziamento existencial (sex cam como serviço de encomenda está ai para provar) e radicalização do domínio corporativo? Ou saberão os inventores e empresários envolvidos no arranjo inédito de Sofia – que nem é tão inédito assim visto os robôs japoneses – controlar essa nova população criada de cima-para-baixo?

 

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Sobre o autor

Alberto Silva

Alberto Luís Araújo Silva Filho. Graduando em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí e membro do Grupo de Estudos em Teoria Política Contemporânea (DOXA), vinculado ao Grupo de Pesquisas sobre Instituições e Políticas Públicas (CNPq). Além de amante da ciência política, é também apaixonado por sociologia, cinema e literatura. Colaborador semanal do Genialmente Louco.

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