domingo, 5 de novembro de 2017

Escrita que liberta

Por: Talita Dantas

post

Eu estava convicta. A julgar pelas vozes que sentia presentes em minha cabeça, era esquizofrênica. Tudo bem que isso era tudo o que eu sabia sobre esquizofrenia, que esquizofrênicos ouviam vozes dentro da cabeça. Preferi nem comentar com ninguém, com receio do que pudessem pensar.

Essa ideia, a da esquizofrenia, persistiu até o dia em que ouvi um sermão sobre uma passagem bíblica a respeito de uma mulher possuída por milhares de demônios. Imediatamente me apeguei à possibilidade de estar endemoniada. Multiplamente endemoniada.

Imaginação fértil! Cheguei a essa conclusão por muito apreciar filmes de exorcismo. Foi uma boa conclusão, diga-se de passagem, tendo em vista a providência que adotei a seguir. Tinha visto num dos filmes, o melhor deles, na verdade. O Ritual. Anthony Hopkins. Para livrar-se dos demônios, é preciso saber seu nome.

Como descobri como se chamavam meus demônios? Estratégia simples. Como conheci meus amigos? Aproximei-me, conversei com eles, permiti-me ser vulnerável. Talvez fosse esse o caminho a trilhar para conhecer meus demônios, intuí.

Detive-me, num primeiro momento, a ouvi-los. Não havia ninguém além de mim a observá-los. Poderia deixá-los falar sem a necessidade de fingir que só penso coisas certinhas. Sem medo de assumir o que se passa de verdade na minha cabeça. Sem precisar fazer papel de boa moça até no pensamento.

Eram tantos… Uma legião. Falavam tão compulsiva e simultaneamente que, para distinguir uma voz da outra, me vi diante da imprescindibilidade de pegar um papel e uma caneta e escrever o que diziam. À medida que escrevia, que trazia à luz aquilo que cada um falava, conforme compreendia o que cada qual tinha a dizer, eu lhes nomeava. Raiva, medo, mágoa, orgulho, vaidade, presunção, autopiedade, inveja, luxúria, ganância…

Foi ao mesmo tempo um alívio e um espanto. Um alívio perceber que não era esquizofrênica, nem tampouco endemoniada e que as vozes dentro de mim eram só meus sentimentos maravilhosamente desordenados e em conflito uns com os outros. Um espanto, porque passei longos anos dizendo a mim mesma que certos deles jamais morariam aqui dentro.

Um espanto e um milagre, porque negá-los nunca os fez deixar de existir, mas assumi-los, isso sim, me tornou capaz de vencê-los.

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on TumblrPin on PinterestEmail this to someone
Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

COMENTÁRIOS

BUSCAR

facebook instagram twitter youtube

Tem uma sugestão?

Indique um post!

NEWSLETTER