domingo, 5 de novembro de 2017

Música pra quê?

Por: Talita Dantas

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Não faz muito tempo que, num dos muitos treinamentos de coaching que fiz, ouvi uma trainer sugerir que abortássemos as músicas em prol de “coisas mais úteis”. A ideia foi explanada num contexto relacionado ao aumento da produtividade. Em vez de músicas, ela sugeria, seria melhor dedicar as horas aos audiobooks, às audioaulas, etc. No trânsito, na caminhada, na academia, nada de ficar “gastando tempo” com melodias.

Eu sou adepta aos áudios de palestras, aulas e livros, confesso. Eles me ajudam a não pegar o celular no trânsito, por exemplo. Isso porque, quando estou dividindo minha atenção entre a pista e o que o narrador está dizendo (desde que não seja um péssimo narrador, ocasião em que é melhor mudar o livro), não me passa pela cabeça a ideia de catar o telefone, quando paro no sinal, para ver seja lá o quê (99,9% das vezes, não há nada de tão urgente no smartphone que não possa aguardar mais quinze minutos).

Não obstante eu aprecie ouvir sobre mil assuntos no trajeto entre um canto e outro, não deixo também de apreciar uma boa música. Assim, alterno. Às vezes os audiolivros, às vezes uma boa palestra e às vezes uma playlist do Spotify. E não, não é uma perda de tempo!

O documentário Alive inside, disponível no Youtube, ressalta o efeito surpreendentemente benéfico que a música tem sobre o cérebro. Tão surpreendente que se mostra um excelente remédio para combate do mal de Alzheimer. De acordo com o geriatra Bill Thomas, entrevistado no documentário, um remédio melhor que qualquer remédio, cujo poder também é ressaltado pelo neurologista Oliver Sacks.

Outro entrevistado no filme, o músico Samite Mulondo, relata sua experiência com mulheres africanas que vivenciaram situações graves de violência e o modo como utilizou a música para tirá-las de um estado emocional negativo e levá-las à alegria.

Segundo Mulondo, todos temos a música em nós, todavia situações de trauma podem encobri-la. O que ele faz é usar a música para que as pessoas que sofrem, e têm por isso a sua própria encoberta, a reencontrem. Mulondo cria uma conexão autêntica com o outro a partir de sua música, contribuindo significativamente para o processo de cura emocional.

No caso das mulheres africanas, primeiro Mulondo entoou uma canção triste, representativa da dor que aquelas pessoas sentiam, criando rapport, uma ligação de sintonia e empatia. Em seguida, passou a melodias mais alegres, auxiliando-as no caminho de ressignifcação do trauma experimentado.

Conforme se vê, não obstante sejam os pacientes com Alzheimer o foco precípuo do documentário Alive Inside, os benefícios da música não se esgotam aí. Eles vêm sendo amplamente estudados pelos neurocientistas para uma série de outros problemas.

No TED Entre a música e a medicina, Robert Gupta faz menção aos estudos do Dr. Gottfried Schlaug, um dos neurocientistas de Harvard que se dedica ao estudo da interação entre cérebro e música.

“Quando eu tinha 17 anos, eu visitei o laboratório do Dr. Schlaug, e numa tarde ele me mostrou algumas das principais pesquisas sobre a música e o cérebro: como os músicos têm estruturas cerebrais fundamentalmente diferentes dos não-músicos; como a música, e ouvir música, poderia iluminar por completo o cérebro, desde o córtex pré-frontal até o cerebelo; como a música se tornava uma modalidade neuropsiquiátrica para ajudar crianças com autismo e ajudar as pessoas que lutam com estresse, ansiedade e depressão; quão profundamente os pacientes de Parkinson poderiam estabilizar seu tremor e seu caminhar ao ouvirem música; e como pacientes com Alzheimer em fase final, cuja demência era tão avançada que já não podiam reconhecer suas famílias, podiam reconhecer uma melodia de Chopin ao piano, que tinham aprendido quando pequenos”. Ele conta

Gupta, na visita mencionada, buscava o que no coaching chamamos de modelagem, isto é, literalmente, um modelo em quem se inspirar, passos que possam ser seguidos. Isso porque era de seu conhecimento que Schlaug também havia tido que optar entre a música e a medicina.

Violinista da Orquestra Filarmônica de Los Angeles desde os 19 anos, Gupta seguiu a carreira musical, mas, nem por isso deixou de se interessar por neurologia e saúde mental. Assim como Schlaug, o qual, tendo optado por medicina, também se dedica à promoção do casamento entre as áreas.

Noutro TED, intitulado Música é remédio, música é sanidade, o violinista narra seu encontro com Nathaniel Ayers, cuja história ficou tão conhecida que acabou se transformado no filme “O solista”, de 2009, dirigido por Joe Wright.
Um dos poucos alunos negros da famosa Julliard School quando jovem, Nathaniel teve sua carreira abreviada em virtude da esquizofrenia. Tratado com eletrochoque, Ayers terminou por abandonar a terapia psiquiátrica e tornou-se sem-teto. Apesar disso, seu amor pela música sobreviveu. Tocando nas ruas um violino com apenas duas cordas, Ayers chamou a atenção do colunista do Los Angeles Times Steve Lopez, um encontro que mudou os rumos de sua vida.

Anos mais tarde, Ayers manifestou desejo de ter uma aula de violino com Gupta, para a qual chegou desnorteado, falando “sobre demônios invisíveis e fumaça, e como alguém estava envenenando-o durante o sono”.  Gupta, abalado pela possibilidade de que Nathaniel se perdesse para sempre em suas fantasias, simplesmente se pôs a tocar.

E ao tocar eu percebi que uma mudança profunda estava acontecendo nos olhos de Nathaniel. Era como se ele estivesse nas mãos de um farmacêutico invisível, uma reação química, para a qual a música que eu tocava era o seu catalisador. E a fúria maníaca de Nathaniel foi transformada em entendimento, uma curiosidade tranquila, e elegância. E em um milagre, ele puxou seu próprio violino, e começou a tocar, de ouvido, alguns trechos de concertos para violino que ele me pedia então para completar, Mendelssohn, Tchaikovsky, Sibelius. Começamos a conversar sobre música, de Bach a Beethoven, Brahms, Bruckner, todos os B´s, de Bártok, todo o caminho até Esa-Pekka Salonen.

E percebi que ele não apenas tinha um conhecimento musical enciclopédico, como se relacionava com essa música em nível pessoal. Ele falou sobre aquilo com a paixão e entendimento que compartilho com meus colegas da Filarmônica de Los Angeles. E ao tocar música e conversar sobre música esse homem se transformou do homem paranóico e perturbado que acabou de chegar perambulando pelas ruas do centro de Los Angeles, no charmoso, erudito, e brilhante músico treinado em Juilliard.

Não só a música como também outras artes se revestem de um potencial magnífico para contribuir com a saúde da mente. Em Nise, o coração da loucura, filme de 2016, dirigido por Roberto Berliner, é retratada a luta antimanicomial travada pela médica Nise da Silveira, percursora no tratamento da saúde mental por meio das artes plásticas.

Numa época em que tudo o que alguém que sofre com problemas mentais poderia esperar seriam os desumanos manicômios, com suas terapias de eletrochoque, lobotomia e outros tratamentos igualmente agressivos, Nise implementou uma terapêutica pautada na pintura, na modelagem e no contato com os animais. Introdutora da psicologia junguiana no país, Nise ganhou reconhecimento internacional por seu trabalho.

Mais recentemente, a médica geriatra Ana Cláudia Quintana Arantes ficou conhecida por tratar de forma diferenciada seus pacientes em cuidados paliativos. A médica que prescreve poesias! Em vez de sedar as pessoas das quais a medicina já não pode contribuir para a cura da doença, ela se volta a cuidar do sofrimento, para que tenham uma vida digna, ainda que estejam seriamente doentes.

É uma mudança de perspectiva que transpõe o foco da doença para a pessoa, para seus sentimentos, sua alma, por assim dizer. Alma que se acessa e que se cura com música, pintura, poesia, compreensão, compaixão, carinho, apoio…

Daí o porquê de eu não deixar a música (nem a escrita e nem a poesia). É que não é gasto, é investimento! Investimento em memórias boas a que sou remetida quando ouço, investimento em estados emocionais positivos, os quais, consoante estudos recentes da neurociência e da psicologia positiva, contribuem significativamente para um estado de maior satisfação e bem-estar em relação a vida.

Noutras palavras, não largo a música para que, na ânsia de produzir, eu não acabe deixando cair a produtividade, em virtude da falta de equilíbrio. Não a deixo, porque não quero padecer da “síndrome do tenho que” dar conta de tudo, ser 100% em tudo, a qual normalmente me leva a não dar conta de nada. Não quero entrar na zona de burn out, experienciando um esgotamento que praticamente anula qualquer chance de que eu venha a ser produtiva.

Mantenho a música e também a poesia, porque a música vivifica e a poesia liberta o amor, o entusiasmo, a fé que vivem em mim.

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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