quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O Brasil e o novo Ensino Médio: o retorno à reprodutividade social dentro da escola em 3 pontos

Por: Luciano Pontes

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Deixando claro que estou escrevendo esse texto em pleno dia de prova do ENEM, de redação, que a meu ver só confirma o que eu vou dizer aqui nesse texto. Mas sobre ela, outro momento.

Eu decidi entrar no site do MEC e ler sobre o que a repartição mais importante da Educação no País tem a dizer a respeito da Reforma do Ensino Médio, além de comentários que eles fazem sobre questões pontuais. Sendo assim, esse texto tem um formato de “Fichamento”, mas longe de qualquer parametrização, prefiro dizer que é um “recorte – opinião”.

Antes de começar, falarei em termos gerais o que é a Reprodutividade Social. A premissa que segue toda essa teoria é a Compreensão como forma de libertação do status quo. A cultura da elite se sobrepõe à cultura média e da massa, indexando as categorias, isto é, colocando cada um em seus devidos lugares.  Se pensarmos a cultura de um povo como significados, técnicas, hábitos e crenças (antropologicamente falando), o que eu disse faz todo o sentido: A Elite mantém o código da criação da cultura e de todos os abarcados por ela, portanto, a cultura de classes. Desse modo a cultura, hierarquizada, mantém as distâncias entre os que tem o “Capital cultural” e os que não tem.

Desse modo, o que Bordieu e Passeron acreditam em sua obra é que a escola, ao invés de locus da libertação ou da diminuição do distanciamento dessas classes acaba tendo o papel oposto: é na escola que as diferenças se assentuam, pois o acesso aos “códigos” de cultura são desiguais nas escolas. Isto se mostra evidente na relação do saber. O aluno da escola de classe pobre tem uma relação com a obra de Machado de Assis, O Alienista, por exemplo, diferente de um aluno da classe dominadora.

Isso pode ser verdade. Como assim? É mais uma correlação entre essa teoria do que uma coisa do tipo “isso sempre causa aquilo”. Mas o que eu vou mostrar aqui que essa correlação tem se acentuado, com o Novo Ensino Médio:

1 – Eles afirmam que esse novo ensino médio é “fundamental para a melhoria da educação no país”. Bem, melhoria no currículo sim, mas e todo o resto? A escola é apenas o seu currículo? E as universidades, que formam professores, foram consultadas? Não vejo melhoria, se um aspecto é priorizado e os demais ignorados (começando pela própria reforma, que é uma “medida provisória”)

2 – A BNCC será comum a TODAS as escolas. Destaquei todas porque não há como saber isso. Não há fiscalização para as escolas da Elite. As competências e habilidades, que a meu ver, poderiam ser chamadas de “tecnicismo strikes back“. Ou seja, a Elite continua aprendendo a cultura (aprendendo tem dois sentidos, de aprendizagem e apreensão) enquanto o pobre deixa de aprender trigonometria pra aprender “competências”.

3 – O PCN ano que vem completa 20 anos. Nada mudou de 1998 pra cá. Os alunos não conseguem discernir o que é contextualização e o que não é.  Uma pesquisa da OCDE mostrou que a matemática ensinada na sala não favorece o aluno. Essa pesquisa, feita em 64 países, enfatiza que os alunos de 15 anos, comparando os mais ricos com os menos favorecidos, tem uma diferença grotesca de 2 anos escolares. E mais: os alunos que aprendiam “macetes” se saíram muito pior do que os que aprendiam os conceitos matemáticos (Deixo a fonte da pesquisa no fim do texto)

O que eu quero dizer é que: os alunos da elite estão aprendendo os conceitos matemáticos, não apenas os “macetes”. Esse é o grande pretexto dos que defendem a retirada dos conteúdos do ensino básico: adquirir habilidades e competências. Sem fazer o alicerce, a casa cai, no menor vento que bater.

Estamos caminhando ao contrário. Não estamos formando cidadãos coesos e coerentes com os documentos que nos aportam. O ensino caminha propedêutico, de mãos dadas com o mercado. Não há melhoria no ensino enquanto não trouxemos à tona o discurso de que do lado de lá, estão tendo uma melhor educação. A educação é libertação, não reprodução do status quo. A escola deve ser o locus da transformação.

Infelizmente, essa realidade está galgada nessas assertivas. E os locais de formação continuam a se indagar: o que eu fiz nesses 4 anos de graduação vão me ajudar? Como disse no ponto 1, há uma discrepância lancinante entre a Academia, o governo e a escola. Não há diálogo, só interesses de A e B mediados pelos que legislam.

Novamente, o texto e o debate não encerram aqui. Nada está pronto, sempre está em constante dialética. Trazer uma reflexão é importante, pois nos move em direção à realidade. Trago de novo, a fala de meu amigo educador matemático Elyton: o que te move?

Link da Pesquisa: http://hechingerreport.org/schools-exacerbate-the-growing-achievement-gap-between-rich-and-poor-a-33-country-study-finds/

Link do texto em português: https://universoracionalista.org/e-melhor-ensinar-matematica-pura-em-vez-de-matematica-aplicada/

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Sobre o autor

Luciano Pontes

Apenas eu. Nem pó, nem estrada. Devagar, com a cabeça em outro lugar...

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