sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O lado bom de queimarem a bruxa

Por: Talita Dantas

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Muitos de nós ficamos bem passados com o protesto contra a filósofa Judith Butler, no qual manifestantes literalmente queimaram uma boneca com a foto do rosto da filósofa e um chapéu de bruxa em sua cabeça. Para completar o espetáculo, só faltou mesmo uma fogueira com livros de filosofia.Lamentável? Como tudo, depende do ponto de vista. Sim eu lamento, pelas 70 almas que queriam queimar uma mulher viva por dizer o que pensa. E olha que a maioria das pessoas que eu conheço, inclusive no meio acadêmico, nem sabe o que de fato ela pensa, porque nunca a leram ou a ouviram.Isto é, só querem queimá-la – aqueles que querem – porque alguém disse que ela disse algo favorável a uma tal ideologia de gênero a qual, de novo, a maioria das pessoas não consegue delimitar o que é e nem apontar as fontes ou os argumentos que as fizeram concluir seja lá o que for que elas pensam que seja. A única coisa que é sabido é que – como as crianças que nunca comeram, mas já sabem – elas não gostam.

Sim, eu lamento. Lamento pelos que se deixam inflamar pelo ódio com base no disse-me-disse, pelos 70 que lá estavam e pelos demais que ainda têm a mente presa na Santa Inquisição. Deve ser uma dor insuportável ter vindo do passado viver no século XXI. E o medo dessa nova realidade deve ser o que lhes faz agir com tamanha selvageria.

Lamento por esses, mas comemoro por um grande número de pessoas (quero acreditar que há um grande número de pessoas) que odiavam essa mulher gratuitamente e tomaram um choque com o espetáculo estapafúrdio de ontem.

Assim acredito – que houve um choque e uma chamada a por a mão na consciência -, porque, em alguns grupos dos quais faço parte, há muitos animadinhos em defesa da família tradiciona brasileira (e eu nem sei que família é essa, porque, particularmente, não conheço de perto nenhuma família doriana – a mais próxima de mim é mesmo a do Rodrigo Hilbert).

Nesse grupos, é comum ler manifestações iradas contra uma infinidade de coisas que as pessoas pensam que sabem o que é. Como era de se esperar, dado o contexto, muitas foram as vezes em que vi sendo compartilhadas mensagens enraivecidas acompanhadas de links para uma petição que visava brecar a exposição da Sra. Butler.

Todavia, diante do espetáculo grotesco de ontem, o silêncio reina. Não vi ninguém (graças a Deus) defendendo uma queimada de bruxas ou aplaudindo a manifestação ostensiva de ódio contra uma pessoa que nem veio ao Brasil para falar de gênero coisa alguma.

Isso, pra mim, é um bom sinal. Silêncio indica reflexão (ou pudor, o que também já é um começo, pois é bom que as pessoas se envergonhem de querer matar tão cruelmente outro ser-humano). Reflexão no sentido de que, talvez, e só talvez, o grupo que eu me inflamo a defender não seja lá tão sensato quanto eu achei que fosse e talvez eu precise pensar mais e melhor sobre o assunto, antes de só repetir como um papagaio o que o MBL sai dizendo por aí.

Se eu estiver correta, esse é um despertar que merece ser celebrado. Talvez, a partir dele, uma nova consciência quanto à importância do diálogo, de uma sociedade plural, da liberdade de expressão, do respeito às diferenças… comece a ser delineada na mente e nos corações dos muitos que estranharam a cena medieval.

Talvez seja essa a brecha esperada para que as pessoas parem de ouvir só para contra-argumentar e comecem a tentar entender, antes de responder.

Talvez esse possa ser o começo, para alguns, de uma nova percepção da realidade que não se restringe ao ganha-perde, ao “para eu estar certo o outro tem que estar errado. Eu estou certo, logo, não importa o que ele diga, necessariamente ele está errado, então eu não preciso nem ouvir”.

Ontem vi um vídeo de um homem de meia idade que nasceu “color-blind”, isto é, via tudo em preto e branco. Ele ganhou um óculos que lhe permitiu enxergar colorido pela primeira vez na vida. Foi emocionante vê-lo maravilhado com o novo mundo que se abriu para ele.

Talvez eu seja muito Poliana e esta minha percepção seja muito utópica, mas eu espero de verdade que meus coleguinhas de grupo e tantos outros como eles, que ora silenciam quanto à fogueira e ao desejo de morte à bruxa, estejam começando a despertar de seu mundo binário, em preto e branco, e a ver as milhares de cores e nunces que existem entre um extremo e outro.

E que algum dia todos nós possamos nos encantar com a diversidade humana, tanto quanto o senhor que viu as cores pela primeira vez. E não, eu não preciso gostar de todas as cores, posso escolher as que vou vestir, com quais delas pintar minha casa, mas não preciso desejar que uma cor não exista só porque não gosto. Tampouco preciso me enfurecer com a cor da roupa alheia ou com a pintura da casa do vizinho, porque, afinal de contas, a casa é dele!

E assim eu penso, porque levo a sério aquela história de não desejar para o outro o que não gostaria de ter para mim. Muito honestamente, odiaria ter alguém me dizendo que cores eu posso ou não usar, que livros eu posso ou não ler, o que eu posso ou não falar, em que eu posso ou não acreditar, o que eu devo ou não escrever.

Ironicamente, mais uma vez na História, muitos dos que levantam a bandeira da fogueira, o fazem em nome de Cristo – o mesmo Cristo que interpelou a atirar a primeira pedra quem nunca pecou, e o mesmo povo que também já sofreu perseguição por ser cristão. Estranho objetivo de vida, tornar-se perseguidor.

Imagino que também doa neles. É que, como diria Ghandi, “felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia”. Logo, essa falta de coerência entre os princípios de seu líder e aquilo que praticam na vida deve ser de uma infelicidade lastimável. Infelicidade que transborda em raiva, em agressão. Raiva trágica, diria Marshall Rosenberg, porque os torna ainda mais distantes da felicidade que almejam. Agressão digna de pena, digo eu, porque consistente num barulho ensurdecedor que os impede de ouvir o próprio interior.

Você pode não concordar comigo, mas não precisa me odiar por isso, porque eu não tenho a menor intenção de te obrigar a pensar como eu penso. Na verdade, eu agradeço a pluralidade de pensamento. Dou graças até pelo seu pensamento discordante. Porque é a antítese que me leva a conclusões melhores, que me faz crescer, amadurecer, desapegar da necessidade egocêntrica que eu tinha quando adolescente de querer estar sempre certa.

A bem da verdade, se todos pensássemos igualzinho, se na natureza não houvesse tantas cores, tantas espécies, tantos cantos diferentes dos passarinhos, essa vida seria de uma monotonia entendiante. E se um Deus onipotente nos fez a todos, é certo que não nos fez diferentes para querer que nos tornássemos todos iguais. Então bendito seja esse mundo policromático!

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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