domingo, 12 de novembro de 2017

A beleza está na imperfeição

Por: Juliana Santin

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Andei meio distante dos textos nos últimos tempos, mas foi em parte porque estava me dedicando bastante a uma outra atividade artística: o desenho. Descobri o gosto e talvez certa aptidão para o desenho há pouco tempo e dediquei várias horas ao aperfeiçoamento dessa arte. Continuo dedicando, mas justamente o desenho me gerou inspiração para escrever um texto.

Gosto de desenhar especialmente a figura humana, de observar cada pedacinho do rosto e passar isso para o desenho. Dessa forma, comecei a estudar muitas coisas, inclusive, as famosas proporções áureas (aquelas proporções matemáticas da Monalisa).

Nessa onda de desenhos, fiz um desenho dos olhos de uma pessoa muito querida, que, em minha opinião, tem olhos lindos. Os olhos que desenhei são verdes da cor do mar do Caribe e, por isso, fiz um desenho artístico dos olhos transbordando o mar caribenho. Quando entreguei o desenho a ela, o comentário me surpreendeu: ela disse que, diferentemente das proporções áureas, ela tinha um olho mais “tortinho” que o outro e que eu tinha conseguido captar exatamente isso, deixando o retrato muito fiel.

Na hora, pensei comigo mesma: onde será que ela vê esse tortinho? Não há nada de errado nos olhos dela. São realmente lindos.

Depois, ao desenhar meu filho, que recém completou 12 anos e é meu modelo favorito, ouvi comentários semelhantes, sobre como a cara dele tinha coisas “bugadas”. Insisti com ele que medi cada pedacinho de seu rosto com régua e que é completamente proporcional, mas não o convenceu…

Pensei comigo mesma: qual o problema das pessoas com a própria aparência? Meu filho tem só 12 anos. Concluí, então, que nós temos – todos nós – uma herança do pensamento platônico muito arraigada. Somos todos platônicos. Não se trata nesses casos citados de apenas uma pressão social para se ter uma aparência perfeita; o buraco é mais embaixo. Até onde eu sei, não há exatamente uma pressão social para olhos redondamente perfeitos. Talvez o padrão mais desejável de olhos no nosso país sejam os olhos claros, já que são os mais raros por aqui, mas os olhos da minha amiga são verdes.

Quem conhece um pouco de Platão sabe que ele dividia o mundo em inteligível e sensível. O mundo inteligível é o famoso mundo das ideias, onde estão as verdadeiras coisas em sua forma mais perfeita. Esse mundo só é acessado pelo pensamento (“alma”). Pessoas com pensamento aguçado e treinado, como os filósofos, eram os que tinham acesso ao verdadeiro mundo ideal. Já o mundo sensível é o mundo de carne e osso, o mundo real, esse que a gente sente na pele. Esse, para Platão, não passa de uma cópia mal feita do verdadeiro mundo perfeito.

Então, por exemplo, nós olhamos uma galinha e reconhecemos que se trata de uma galinha, porque de alguma forma acessamos o arquivo original “galinha” em sua forma perfeita e ideal no nosso pensamento. Acessamos o conceito de galinha, como uma galinha ideal deveria ser, e reconhecemos ao vermos uma galinha de verdade no mundo real, embora, obviamente, a do mundo real seja imperfeita e falha, a começar pelo fato de que ela morre.

O conceito de beleza de Platão ia na mesma linha. O belo é o ideal. O mundo real é tosco e imperfeito. Quanto mais parecido com o mundo ideal, mais belo no mundo real. Ora, vejam só, e não é que todos nós pensamos assim até hoje? Quando a minha amiga olha no espelho e considera seu olho tortinho é porque comparou com um ideal que está na cabeça dela, com o que deveria ser seu olho. Assim como meu filho. Assim como eu e você todos os dias ao nos olhar no espelho e ver aquele monte de imperfeições, aquele monte de desvio com relação ao nosso ideal.

Isso não tem relação direta com a pressão da sociedade, porque as sociedades mudam de prioridade e padrões com o tempo, mas as pessoas continuam a idealizar e se frustrar com o mundo sensível, o mundo real.

Esse platonismo é tão interessante, que a própria educação é platônica. Quando uma professora vai ensinar para crianças sobre, por exemplo, uma flor. O que ela faz? Desenha na lousa um conceito de flor. Nem passa pela cabeça dela sair da sala de aula e mostrar uma flor real para as crianças. As crianças aprendem o conceito de flor.

Nunca me esqueço de quando meu filho estava estudando na escola sobre a reprodução das flores e a gente saiu para passear em busca de flores para poder observar na prática aquelas partes todas que ele estudou na escola. Qual não foi nossa surpresa quando não encontramos nenhuma flor que se encaixasse no conceito estudado. Nenhuma! Todas eram diferentes! Algumas continham algumas partes mais semelhantes ao esquema, outras possuíam outras partes semelhantes, mas uma flor contendo todas as partes de uma forma muito próxima ao esquema estudado, não encontramos.

O que isso acarreta na nossa vida? Frustração, tristeza, busca de um ideal que não existe! Por exemplo, nos estudos sobre desenho, procurei referências e encontrei diversos desenhos lindos e perfeitos com a legenda: como desenhar olho realista. Esses olhos não são realistas, são idealizados. Ninguém tem a pálpebra totalmente paralela e curvinha (sem tortinhos) ou os cílios todos perfeitamente curvados e do mesmo tamanho. Eu sei, você vai dizer que é arte. E, de fato, é. São desenhos muito, muito bonitos. Só discordo da afirmação de que se trata de um desenho realista, pois não é.

Ainda, para piorar, temos o mau hábito de dar valor às características de acordo com o “gabarito” idealizado. Então, um olho mais redondinho e perfeito seria nota 10. O meu, que é um tanto quanto diferente desse padrão merece no máximo uma nota 7… o mesmo fazemos com as demais características de nosso corpo. Com isso, acabamos nos dando uma média muito baixa, baseada em um gabarito inalcançável. Isso diminui muito nossa autoestima e nos frustra, porque não alcançaremos o ideal e sabemos disso. Nascemos tortinhos…

O que as pessoas não notam é que é justamente o tortinho que dá nossa identidade. A beleza está nas imperfeições, nos tortinhos, naqueles detalhes que fogem do “padrão”, mas que são exatamente o que tornam a pessoa quem ela é. A beleza está na imperfeição, porque o mundo sensível é o mundo real, o que nos afeta, que nos alegra e entristece. O mundo real é imperfeito e é isso que o torna belo. Somos demasiado humanos, como disse Nietzsche enfatizando exatamente isso. Humanos são imperfeitos, tanto no seu olho tortinho como em todo o resto. A busca pelo ideal platônico gera uma frustração certa.

Isso não significa que temos que largar tudo, deixar de nos cuidar, porque, afinal, somos belos assim. Sempre devemos buscar ser a nossa melhor versão, mas sempre usando como referência o mundo real, o gabarito certo, que é a gente mesmo.

Costumamos ser muito duros com os autojulgamentos. Assim, há uma grande chance de outras pessoas se encantarem exatamente pelos nossos “defeitos” e acharem graça neles. Aquele dente um pouco separado, um nariz um pouco mais comprido do que o “ideal”, uma carequinha, podem ser justamente o detalhe que o outro gostou na gente. E independente disso, ainda que o outro também busque em nós ideais platônicos, mais importante mesmo é aceitarmos nossas imperfeições e, mais do que isso, gostar delas.

Dentre meus treinos e estudos, houve alguns treinos de posturas corporais. Peguei um banco de fotos tiradas especificamente para desenhistas para treinar desenhar diferentes posturas e poses. Uma delas era uma moça bem gordinha, vestida com top e calcinha de biquíni. Conforme fui desenhando aquele corpo, ia me encantando com cada pedacinho, cada estria na barriga (que me mostravam as marcas de uma gestação), cada dobrinha. Que bonito é o corpo humano! Também desenhei um homem com muitos gominhos de músculos na barriga e me encantei igualmente.

Antes de terminar esse texto, quando não sabia ao certo como faria seu fechamento, estava relendo Rubem Alves e, como sempre, ele veio me ajudar. Parece que ele acertou na mosca ao me contar qual talvez seja a maior dificuldade de nós, humanos, ao buscar a beleza no mundo real: a poesia que enterramos dentro de nós conforme vamos crescendo. A poesia: essa sim deveria ser nosso gabarito, nosso padrão de beleza.

O que acontece com a maioria de nós é o mesmo que acontecia com Adélia Prado, que dizia que às vezes, Deus lhe tirava a poesia, de forma que ela olhava pedra e via pedra mesmo. Nós olhamos o tortinho e enxergamos um olho torto. Esquecemos de nos conectar com nossa poesia e de olhar para o tortinho e enxergar a gente mesmo!

 

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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