quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Em nome de DEUS, da FAMÍLIA e da HIPOCRISIA do Povo Brasileiro

Por: Erick Morais

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Eduardo Galeano costumava dizer que entre nós (do terceiro mundo) as tragédias se repetem como tragédias. De fato, a desmemoria parece ser uma tônica entre a raça humana, sobretudo, para nós que habitamos os “trópicos”. No Brasil, nem se fala. Logo em seguida a acontecimentos funestos, rapidamente a vida volta ao comum, à trivialidade, como se nada tivesse acontecido.

É como se a história fosse reescrita o tempo inteiro pelos donos do poder, ou melhor, da história. E, assim, as tragédias continuam se repetindo, como uma espécie de eterno retorno, construído pelo “Ministério da Verdade”, que não está nem um pingo preocupado em não repetir seus erros. Aliás, que erros, já que tudo é guardado, escondido, nos armários do sistema?

O Brasil vive um regresso conservador, colocado à galope desde o impeachment (ou golpe) da presidenta Dilma Rousseff. A esquerda e os movimentos progressistas estão cada vez mais acuados e perdendo voz de influência e ação. Projetos (com caráter conservador) se tornaram uma constante, bem como as conversas nos botequins, que não raras vezes justificam a existências de tais projetos e, por consequência, as bancadas congressistas que os sustentam, como a bancada evangélica, da bala e ruralista.

Em uma democracia (se bem que usar esse termo no caso tupiniquim se tornou um problema quase existencial), é evidente que deve haver uma pluralidade discursiva, de modo que discursos e ideários conservadores podem e devem poder existir. Entretanto, medidas, leis, que mudarão substancialmente a vida das pessoas, afetando milhares de trabalhadores, mulheres e grupos minoritários (representativamente no congresso), precisam passar por discussões mais longas e amplas com a sociedade. É necessário, acima de tudo, que especialistas e os grupos diretamente afetados participem efetivamente das discussões.

Não é legítimo, tampouco racional, que leis que modificarão grandemente a vida dos trabalhadores não sejam problematizadas com os trabalhadores. Como também, leis que atingirão especialmente as mulheres sejam decididas por grupos majoritariamente masculinos. Ou que uma reforma na educação desconsidere totalmente os educadores. Que tipo de “transformações” são essas? Indo além: que tipo de “democracia” é essa, em que a vontade de certos grupos deve ser imposta goela abaixo aos demais? E pouco importa se as mudanças são em nome de Deus, da Família ou do Papai Noel, porque isso é uma questão individual, do foro privado dos indivíduos, como está expresso na Constituição Federal – que até segunda ordem –  é a carta magna do Brasil, e não a Bíblia.

Mais uma vez, não se trata de não poder haver posicionamento assim ou assado, de direita ou de esquerda, conservador ou progressista, porque as pessoas são diferentes, complexas e antagônicas, de modo que um mesmo sujeito pode comportar opiniões que isoladamente ocupam posições distintas no espectro político. O que não pode haver é a imposição de determinadas visões de mundo, sejam elas quais forem. A problemática hoje gira em torno de uma agenda conservadora, mas isso não significa que uma agenda, em tese progressista, possa ser imposta para a população sem que haja um debate amplo e prévio com a mesma.

Por trás dessas problemáticas, entretanto, se observam as velhas elites, os velhos discursos, os velhos joguetes políticos, que historicamente – e isso é uma comprovação – não permitiram o verdadeiro desenvolvimento da nação, tanto no sentido produtivo, quanto no humano, afinal não basta produzir riqueza, crescer economicamente (como já aconteceu em vários momentos do Brasil), se a grande massa trabalhadora (e aqui incluo a classe média, que na sua cegueira, não consegue se enxergar como pertencente à classe espoliada do país; mas tão somente como uma “elite em potencial”) só recebe migalhas. Os dados que demonstram que apenas 6 pessoas possuem renda equivalente a 100 milhões não me deixam mentir.

Aliás, é extremamente curioso como as pessoas que se revoltam com um beijo gay na novela global, pouco se importam com a obscenidade da desigualdade social ou com o racismo do jornalista da mesma emissora, que – diga-se de passagem – não possui compromisso nenhum com o jornalismo. Mas, o assunto não é a Rede Globo, e sim, a conjunta política do país (se bem que uma coisa e outra são praticamente inseparáveis).

Reitero o meu posicionamento de que o problema não consiste em existir posturas conservadoras no Brasil, mas no modo como essas visões de mundo têm sido incorporadas pelo âmbito legislativo e, por consequência, atingindo o tecido social. Obviamente, sou contrário a tais posicionamentos. Não acredito que a classe trabalhadora tenha que sempre pagar a conta por uma festa que ela sequer foi convidada, tampouco acho que os poderes políticos (Executivo, Legislativo e Judiciário) devam ser ditadores de costumes.

A nação brasileira precisa de mudanças estruturais, de base, como sempre precisou. No entanto, o que aconteceu quando um então presidente, legitimamente eleito, decidiu colocar essas pautas em discussão? Será que nos lembramos? Acredito que preferimos esquecer e nos voltar para os “problemas” (ou pecados) que existem nos outros, já que o inferno são sempre os outros, lembrando Sartre.

Definitivamente, há algo de podre no reino do Brasil. Não à toa estamos nos aproximando dos EUA (o admirável mundo novo) como o maior consumidor mundial de antidepressivos e ansiolíticos. Também pudera, com tanta miséria, desigualdade, indiferença, egoísmo e violência contra o outro, como poderia ser diferente? Mas, por que, então, essas questões não são discutidas? Se forçar um pouquinho a cabeça, acho que todos descobrem o porquê.

Diante de tantas coisas, acredito que precisamos reafirmar o nosso valor enquanto humanos. Isto é, permitindo que o diálogo possa existir, mesmo entre sujeitos e grupos que pensam o mundo de formas diferentes, porque quando isso não acontece é preciso questionar onde está o Deus que tantos clamam e/ou a consciência política que tantos exprimem. Como diz Hannah Arendt: “Quem habita este planeta não é o homem, mas os homens. A pluralidade é a lei da terra”. Portanto, precisamos respeitar o outro, pois é no contanto com o mundo, que o nosso mundo se forma. Não permitir que isso aconteça é retirar o que há de gente em nós. Sabemos bem para onde a humanidade caminhou quando essas coisas aconteceram. Quer dizer, sabemos?

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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