quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mindfulness – encontre o seu estilo

Por: Talita Dantas

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Trekking é a palavra que usamos no Brasil para nos referirmos às trilhas em meio à natureza. Nos EUA, eles usam hiking, porque trekking pressupõe que não exista caminho (assim me corrigiram minhas professoras de inglês nativas, mas há controvérsias). Ou seja, nesse contexto, trekking implicaria que você próprio fosse criar a sua trilha (coisa que, dos meus companheiros de caminhada, que eu saiba, só quem faz é Geraldo Hermes Bertelli, dono da Ecopousada Rebendoleng e excepcional guia de São João da Aliança, portal da Chapada dos Veadeiros).

No entanto, como diria Shakespeare, que diferença faz o nome, se uma rosa com outro nome ainda exalaria o mesmo perfume?

Eu faço trekking, brasileiristicamente falando. Para alguns, andar 17km (ou mais) num único dia, com uma mochila pesando uns 12kg nas costas, em condições climáticas normalmente adversas, para dormir desconfortavelmente num saco, dentro de uma barraca, é uma grande insanidade. Pra mim, entretanto, é uma forma de falar com Deus (ou com o Universo, a Natureza, a Vida, o Todo, Gaia, ou como você preferir, já que, no meu entendimento, o direito mais inestimável que um ser-humano tem é o de se relacionar com o Mistério à sua maneira).

Em geral, no princípio dos desafios, sinto raiva do peso, do desconforto, da dor… Costumo me perguntar: por que mesmo que eu fui me meter nisso? Mas bastam alguns quilômetros pra que eu me dê conta de que mal começamos. Temos um longo caminho pela frente. A escolha mais sabia é me concentrar no próximo passo. A energia empregada em reclamar, mesmo que mentalmente, não só não ajuda, como atrapalha.

Nessa hora, em que a dor, a raiva e a necessidade de culpar os outros se calam, posso estar inteiramente ali. Posso reconhecer o valor inestimável da brisa que toca o meu rosto quando andamos na seca e o calor é terrível. Posso ser infinitamente grata, quando estou morrendo de sede e, depois de algum tempo andando à procura, finalmente encontramos um ponto de água. Posso me sentir abençoada, quando, depois de um dia exaustivo, nos deparamos com uma paisagem tão linda quanto a lua cheia dos Castelos do Açu.

Anselm Grüm define o espaço interior da quietude como sendo o espaço de silêncio no qual mora o Sagrado em nós. O espaço a que não se adentra quando o coração está cheio de expectativas e reivindicações, juízos e condenações, palavras ofensivas e agressivas, autoacusações, preocupações, temores, culpa…

“no espaço interior do silêncio, posso estar em minha casa porque ali posso entregar- me totalmente às mãos amorosas de Deus”.

Em coaching, falamos de mindfulness, nome bonito que significa algo bem simples, estar presente. Presente no exato momento em que se vive, sem remoer situações passadas e sem se alvoroçar por questões futuras. Sim, podemos nos valer de técnicas para alcançar tal estado. Há várias e diferentes técnicas. Elas podem ser externamente úteis e eficazes, mas isso não quer dizer que o que funciona pra mim funcionará pra todo mundo.

Muitas pessoas não se sentirão nem um pouco como eu descrevo estando numa trilha. Há quem prefira Yoga. Há os que relatem alcançar um estado de presença por meio da natação ou do teatro. Há quem medite sentado, em silêncio, e quem prefira meditações ativas, com movimento e gritos. Cada um é cada um e não há um único jeito certo. O mais importante é encontrar meios que funcionem para nós.

Pra mim, toda caminhada me transforma. Toda caminhada me traz conexão. Toda caminhada me mostra a beleza e o valor das coisas simples. E quando volto ao “mundo real”, com todas as suas convenções e obrigações, posso fechar os olhos um instante, quando meu coração se faz turbulento, e voltar ao Vale do Pati ou ao Pico da Bandeira, onde encontro serenidade.

Coaches ajudam seus coachees a criarem âncoras em si mesmos. Somos treinados para isso. José Roberto Marques define âncora como “um estímulo externo que causa uma reação interna. Símbolo, imagem ou som capaz de despertar a sensação e/ou o sentimento de desencadear emoções e sensações”.

Ancorar emoções positivas (alegria, gratidão, serenidade, esperança, amor, diversão, inspiração, dentre outros), segundo estudos da Dra. Barbara Fredrickson, um dos grandes nomes da Psicologa Positiva, nos permite ampliar os pensamentos e construir recursos pessoais, sejam eles físicos, intelectuais, psicológicos ou sociais.

Todos temos âncoras, positivas ou negativas. E todos podemos criar novas âncoras, preferencialmente positivas, é claro. Ou seja, todos podemos tecer associações positivas as quais, quando recorremos intencionalmente, nos permitem reviver determinadas emoções que podem nos ajudar a alcançar novas perspectivas de uma situação e a pensar, a partir delas, em soluções criativas que não somos capazes de enxergar com uma visão limitada por um estado emocional negativo.

Certa vez, ouvi um conto zen, narrado pela prof. Lúcia Helena Galvão, uma das pessoas que mais me inspiram (e aqui aplico outra técnica de coaching, a modelagem, da qual falarei mais noutro post). O conto dizia que a dor é como um punhado de sal. Se o coloco num copo de água, o sabor é intragável, mas se o coloco num lago, praticamente não o percebo.

É pressuposto do coaching que o coach viva aquilo que propõe ao coachee. Trekking é, pra mim, um modo não só de praticar mindfullness, mas de encontrar o lugar adequado para minha dor. É dali que vêm muitas das âncoras que dão às coisas e a mim mesma o real tamanho que possuímos, que me permitem não fazer tempestade em copo d’água (não colocar o sal no copo e sim no lago). Mas eu sei que o fato de eu me encontrar com o Sagrado assim, não quer dizer que todos tenham que trilhar esse caminho. Cabe a cada um encontrar aquilo que melhor responde às suas necessidades. O que funciona pra você?

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Sobre o autor

Talita Dantas

Apaixonada por desenvolvimento humano, filosofia e escrita criativa. Advogada, coach e mediadora de conflitos, acredita verdadeiramente no diálogo como via para construção de uma sociedade mais livre, justa, solidária e colaborativa. Define a si mesma como uma flor no asfalto.

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