domingo, 19 de novembro de 2017

Desprezo: uma arma a serviço de tiranos

Por: Geylson Rayonne Cavalcante

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“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.”

Shakespeare

Talvez a vida guarde mesmo surpresas que nem sempre farão com que a gente se sinta à vontade para recebe-las. Talvez ativar o modo sentimental seja uma forma de enganar a si mesmo, de camuflar a ineficiência que rodeia a ideia de reciprocidade nas relações liquidas modernas. No entanto, viver está para além disso e não é interessante reduzir nossas experiências afetuosas à pessoas e a vínculos que por si só não se sustentam. A prerrogativa é bem simples: aceitar a própria presença, a própria existência. Não se agarrar em idealidades, em afetos que são desprovidos de reconhecimento. Não é a dor do coração partido, não é o cotovelo que corrompe nossas emoções, é a potencialização da vida por meio do contraste natural de tudo aquilo que nos constitui que nos possibilita entender o que se passa em nossa subjetividade. Veja o seu redor: como é sedutora a infâmia romântica de nosso tempo, torna-se notório salientar que somos enganados, desprezados. E o que é pior: esquecidos.

Mas, quais são as razões que levam isto a acontecer? Bem, não é fácil entender o mundo e aqueles que nele estão inscritos, não é fácil descortinar as complexas relações humanas. Lá no fundo, somos, forçosamente, homens do conhecimento (Nietzsche) e estamos a necessitar da arte para dar sentido ao que não enxergamos com facilidade a olho nu: que tudo tende a acabar, mais cedo ou mais tarde. Não é novidade que o universo não é nenhuma entidade transcendental e que ele possui regras próprias, regras estas que são inaceitáveis, razão pela qual o homem sempre ter criado categorias filosóficas para enganar a caterva. Veja como é pobre uma metafísica de carrascos.

E o esquecimento? Assim como o desprezo ele é um dado da existência, um instituto mental, um ato utilizado pelos covardes para fingir que as pessoas não passaram por suas vidas. Pobreza existencial: entrar e sair no mundo de alguém com a pretensão de elevar a si a mesmo reduzindo o outro a um objeto. Modernidade é isso: quem tem a melhor oferta no mercado dos afetos acaba obtendo o sexo rápido, o cinema barato, a atenção passageira, a preocupação fingida. É errado? Não confunda este que vos escreve. A moral não é discutível, as pessoas modernas fazem o que tem de fazer, é quase que uma imposição sistêmica a elas.

O envolvimento amoroso é que requer profundidade emocional e poucos seguem essa premissa. Se você gosta de flores e vinhos, de literatura, blues, samba, MPB e poesia, quem me garante que a tua perspectiva liquida de vida não esbarre na carência afetuosa do outro? Tudo pode acontecer. Os valores são complexos (Edgar Morin) e nada é fácil de absorver sem um verdadeiro senso crítico. Dessa forma, estaremos diante de algo que somente os espíritos livres se propõe a prestigiar; angustia, como bem lembra Clóvis de Barros Filho, é um sentimento típico de quem possui autonomia para deliberar sobre o que fazer com a própria vida. Contudo, o que fazer com a existência do outro? Não é uma resposta, em Ensaios Sobre a Alteridade, escreveu Lévinas que:

“A compreensão, ao se reportar ao ente na abertura do ser, confere-lhe significação a partir do ser. Neste sentido, ela não o invoca, apenas o nomeia. E, assim, comete a seu respeito uma violência e uma negação. Negação parcial que é violência. E esta parcialidade descreve-se no fato de que o ente, sem desaparecer, se encontra em meu poder. A negação parcial, que é a violência, nega a independência do ente: ele depende de mim.”

Doloroso. A dependência não é uma virtude, tampouco uma síndrome de nobreza, ela é um reflexo do que não atingimos: o estado mais potente de quem somos. Não é tão difícil entender: eu existo no outro e o outro existe em mim. Percebeu? Claramente, quando desprezamos alguém, em verdade, desprezamos a nós mesmos, pois a trivialidade abrigada em nossos corações não nos permite enxergar que podemos, sim, maximizar a vida e machucar quem conosco se importa. Somos maiores, creio nisso. A negação de si e do outro em nome da sistematização sociológica do que sentimos não pode prevalecer ante as misérias seculares que nos impedem de viver. Será mesmo tudo uma farsa? Não sabemos. Se os poetas e filósofos são picaretas, então estamos a mercê de seus delírios e nos resta colocar em prática, não o desprezo, mas o enfrentamento. Em que sentido? Seja claro com aqueles que estão ao teu dispor, sem fingimento, sem distanciamento, apenas diga o que tem de ser dito. Quando os afetos acabam e o silêncio se faz presente, a tormenta torna-se um suplício. Disse Shakespeare:

“Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente.”

Que a lição do dramaturgo por nós seja encarada como uma forma de remodelar as estruturas emocionais de nossa vida. A gente aprende, não necessariamente, a desprezar as pessoas, mas a entregar a elas somente o tamanho e espaço que merecem. Somos soberanos.

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Sobre o autor

Geylson Rayonne Cavalcante

Um substrato do universo.

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