domingo, 19 de novembro de 2017

Qual o sentido da vida? uma interpretação de Nietzsche e Samuel Beckett

Por: Erick Morais

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O que esperar da vida? O que esperar de nós? O que esperar do outro? O que esperar do tempo? O que esperar do incontrolável? Do fugaz? Do passageiro? Do precário? O que esperar enquanto se espera? A resposta será dor? Tristeza? Talvez alegria ou quem sabe amor? É sinceramente não sei ou como dizia um matuto por aí – “Só sei que foi assim”. É assim que chegamos e é assim que vamos. Sem certezas. Sem respostas. Ou será que ele tem as respostas. É, vamos esperar. Esperar Godot.

Todos esses questionamentos nos permeiam em algum momento da vida, uma vez que a existência parece ser uma linha tênue entre o ser e o não ser, como indagou o príncipe da Dinamarca shakespeariana. Essas incertezas existenciais estão presentes na peça “Esperando Godot” de Samuel Beckett. A obra-prima do irlandês nos faz viajar internamente e desperta o questionamento sobre o que é a vida.
 
Obviamente que aqueles que possuem uma inquietação existencial maior, isto é, que não se contentam com respostas prontas e buscam quebrar paradigmas, a fim de encontrar respostas próprias para os seus questionamentos, sofrem mais e, portanto, sentem-se mais tocados pelos questionamentos existencialistas presente na peça.
 
No entanto, como já dito, em algum momento todos nós questionamentos o sentido da vida e o porquê de estarmos aqui. Como a resposta não é tão simples de ser encontrada, a angústia para alguns se torna crônica, já que, se não sabemos o real sentido da vida, como podemos fazer escolhas e agir do modo correto?
 
A genialidade da obra, dessa forma, reside exatamente em não responder questões que não são passíveis de resposta ou que só podem ser respondidas individualmente. Estamos vivendo e enquanto estamos vivendo vamos experimentando novos sabores, construindo novos olhares e tateando as coisas de modo diferente, de tal maneira que certezas são desconstruídas, convicções são transformadas em mentiras e a verdade sobre o real sentido da vida parece ser algo muito escorregadio.
 
A grande questão é que viver sem certezas é difícil e por vezes insuportável. Assim, sempre buscamos encontrar a essência das coisas, a verdade sobre elas. Lembrando Nietzsche, esse comportamento se revela por dois motivos. O primeiro se dá pelo fato de sentirmos dificuldade em viver sem algo que apóie a nossa existência, o que o bigodudo chamava de “muletas existenciais”. O segundo, por sua vez, acontece por ser muito mais forte em nós a vontade da verdade do que a verdade em si mesma.
 
Ou seja, o próprio desconforto de existir nos faz questionar o que é a vida e o que devemos fazer dela. Mas, a mesma precariedade que nos leva a fazer esses questionamentos, também nos impede de obter satisfatoriamente uma resposta, ainda que alguns digam conseguir. Mesmo não conseguindo obter uma resposta que satisfaça por completo os nossos anseios, tentamos nos dar ou aceitar conclusões que pareçam plausíveis e que, portanto, ainda que transitoriamente, acalme o turbilhão interior e nos proporcione a impressão de que estamos no lugar certo, fazendo a coisa certa, dando ao nosso ser suspiros de existência.

“Estragon: Estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos?”

 
Dessa maneira, percebemos quão doloroso é encarar a vida, o universo, a própria existência e enxergar lacunas, hiatos, vazios. Enxergar que somos precários. Que sabemos mais do que devíamos e menos do que precisamos. Que somos os únicos seres dotados de mortalidade, pois somos os únicos que sabemos que invariavelmente morreremos. E, portanto, somos os únicos preocupados em dar um sentido à existência, querendo entender o que nos circunda, o porquê de não controlarmos quase nada e o que rege tudo isso. Em outras palavras, viver não é suficiente. Necessitamos de algo que explique de onde viemos, o que fazemos e para aonde vamos. Isto é, o que esperar da vida.
 
Godot representa essa falta, essa espera, esses questionamentos, esse vazio e a esperança de que algo/alguém chegue e resolva todas as nossas angústias. Todavia, uma vez sendo impossível responder tais questionamentos, não seria mais importante questionar o valor da liberdade diante da inexistência de uma resposta para o sentido da vida? Digo, o real significado não seria fazer da existência algo que valha a pena, que seja grande e possua valor? Não seria a responsabilidade de encararmo-nos como os grandes responsáveis por aquilo que fazemos e deixamos de fazer?
 
Entretanto, como já exposto, o homem sempre sentiu dificuldade em encarar o seu vazio e aceitar que é incapaz de explicar o sentido do universo e da sua própria vida ou que talvez nem haja sentido. Não há como saber se as coisas estão interligadas, se seguem um propósito ou se apenas estamos vagando por aí, tentando ludibriar o tempo e ser o seu senhor mesmo que seja por alguns instantes. Mas, mesmo quando fazemos isso, o fim sempre é trágico, pois no fim tudo partirá, encerrará o seu ciclo e mais uma vez o tempo vencerá, o incontrolável se mostrará mais forte e nós continuaremos sem respostas.

“Pozzo: Não vão parar de me envenenar com essas histórias de tempo? É abominável! Quando! Quando! Um dia, não é o bastante para vocês, um dia como os outros, ficou mudo, um dia, fiquei cego, um dia, ficaremos todos surdos, um dia, nascemos, um dia, morremos, no mesmo dia, no mesmo instante, não basta para vocês?”

 
O fim inevitável, a precariedade, a força implacável do tempo e a angústia de sabermos que estamos cercados por áreas de escuridão impenetrável confirmam a tragédia da peça e da vida. Tão trágica que às vezes torna-se risível. Cíclica, como se as coisas acontecessem do mesmo modo, sem que pudéssemos controlar ou malmente nos lembrar. O que traz a impressão de que o tempo passa sem que possamos de fato senti-lo, absorvê-lo, torná-lo memória. A impressão de que tudo se repete, mas ao mesmo tempo nada acontece.

“Estragon: Nada acontece, ninguém vem, ninguém vai, é terrível.”

 
Sendo assim, a única certeza que possuímos é a da espera. Esperar Godot era a única certeza de Vladimir e Estragon. Esperar é a única certeza que nós temos. Não conseguiremos ter respostas para tudo que nos inquieta, para todos os questionamentos suscitados. Entretanto, temos a certeza da espera e se temos certeza da espera, o mais importante não é necessariamente o que chegará; o que é Godot. E sim, o que fazemos enquanto se espera, pois por mais trágica que seja a vida e precária que seja a condição humana, a certeza que possuímos é que estamos vivos agora, que neste instante a humanidade somos nós e que podemos representá-la com dignidade.
Pode-se, porque enquanto se espera, se é livre. E mesmo que outros também possam fazer o mesmo que nós, a diferença é que para cada um foi dada a oportunidade de descobrir o que estamos fazendo aqui e por mais que a resposta seja difícil ou até inatingível, a oportunidade nos é dada. Cabe a nós aproveitar essa liberdade que, embora pesada, nos permite descobrir o valor de uma vida que vale a pena ser vivida.

“Vladimir: Não percamos tempo com palavras vazias. Façamos alguma coisa, enquanto há chance! Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes a toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo. Representar dignamente, uma única vez que seja, a espécie a que estamos desgraçadamente atados pelo destino cruel. O que me diz?”

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Sobre o autor

Erick Morais

Um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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