segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Não somos egoístas por amar alguém, somos egoístas por esquecer quem amamos

Por: Geylson Rayonne Cavalcante

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“O amor revela as qualidades sublimes e ocultas do que ama, – o que nele há de raro, de excepcional: nesse aspecto facilmente engana quanto ao que nele há de habitual.”
Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal

O que torna um amor marcante? Momentos que constituem lembranças ou dores que consagram a materialidade de nossa memória? Veja, nossos afetos são condicionados, geralmente, por quem somos ou por aquilo que representamos ser. Posso explicar. Sozinhos, somos livres, soberanos em nossa subjetividade. Com alguém ao nosso lado, as emoções oscilam e passamos, em determinadas ocasiões, a assumir um personagem, uma caricatura mistificada por sentimentos que não se sustentam. E assim, de amores em amores (fajutos ou não), fazemos o roteiro de nossas vidas, escrevemos as páginas de nossas decepções, esculpimos as dores proporcionadas pelo desprezo e pelo esquecimento. Nesse contexto, vale a pena amar? A resposta é de uma simplicidade que chega a nos espantar: sim, amar é uma condição, uma particularidade e, por essa razão, atribuir ao amor o valor de nossas vivencias é a forma mais humana de aceitar quem somos.12884345_1065539123518421_1011448203_n

Sem filosofia ou poesia, as palavras só dificultam a tradução imediata do que sentimos. Eu já amei, você já amou. Mesmo que temporariamente, houve uma consagração de nossa potência, momentos de ganho incalculável de alegria. Por força do acaso ou pelo poder do destino, o universo, a natureza, Deus, eles escolheram justamente aquela pessoa para conosco conviver, mesmo que por um curto período de tempo, mesmo que ela tenha saído de nossas vidas sem dar “tchau”, sem esclarecer os motivos pertinentes que levaram ao desfecho inadiável do que mal começou. Não caia no erro de culpá-la. Não seja vigarista. Reconheça o que viveram, dê aplausos às lembranças e, quem sabe, esqueça quem te esqueceu sem desmerecer o que a vocês foi possibilitado vivenciar. O ser humano busca, incessantemente, um sentido para as relações, para os afetos, para a vida; claramente, não é algo tão fácil de ser encontrado. Contudo, verifico que só é possível ter resultado para esta busca quando consagramos a dor e o sofrimento como fatores de cura para a ilusão que chamamos de realidade. Com efeito, só temos certeza da vida quando a racionalidade se faz presente por meio da solidão e da liberdade. Tenhamos clareza: amor é interesse.

“Bem que existe no mundo, aqui e ali, uma espécie de continuação do amor, na qual a cobiçosa ânsia que duas pessoas têm uma pela outra deu lugar a um novo desejo e cobiça, a uma elevada sede conjunta de um ideal acima delas: Mas quem conhece tal amor? Quem o experimentou?” (Nietzsche, A Gaia Ciência).

Infelizmente, a busca pelo que é novo e por novas sensações significa que você é descartável, que a tua presença na vida de quem você ama e te esqueceu não possui legitimidade, tampouco importância. Não é tão simples: o processo de desapego produz sofrimento. Motivo: quando você é tão bom para alguém e passa a proporcionar uma base sólida de respeito e confiança, a tendência é o afastamento por excesso de maturidade. Sim, a maioria não está preparada para um relacionamento saudável, com responsabilidade e reciprocidade. Apesar dos textos de Facebook dizerem o contrário do que afirmo agora, a essência é uma só: amamos profundamente quem nos despreza. Você acha que o amor não gera tristezas? Não seja tolo. Kant, filosofo alemão do século XVIII, por meio de seus imperativos, já vislumbrava a hipótese de uma pessoa agir bem e produzir dores, e agir mal e produzir alegrias. Nada é tão óbvio que não possa ser problematizado. Oscilações de quem somos.

“O amor é o estado no qual o homem vê as coisas como totalmente não são. A força da ilusão alcança seu ápice aqui, assim como a capacidade para suavização e transfiguração. Quando o homem está apaixonado sua tolerância atinge ao máximo; tolera-se qualquer coisa. O problema consistia em inventar uma engenhoca na qual se pudesse amar: através disso o pior que a vida tem a oferecer é superada – tais coisas sequer serão notadas.” (Nietzsche)

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Uma hora você aprende. Uma hora você assume. Apesar dos pesares, das promessas de amor, dos encontros marcados, a lógica moderna é esquecer e abandonar, é ser usado e ser trocado: somos mercadorias. Devemos ser contra essa ideia? Não sei. Não estabeleço modelos à serem seguidos. A vida é sua, você possui autonomia o suficiente para escolher ou para ser escolhido. Contudo, esqueça quem te esqueceu, jogue fora todas as formas frustradas de amor, pontue somente o que é necessário. Não dizem que a fila anda? Então: a vida é feita de partidas. Ninguém está preso a ninguém. Não somos gaiolas. As pessoas gostam de voar, gostam de elevar as próprias vivencias, de cuidar de si mesmas. Não somos egoístas por amar alguém, somos egoístas por esquecer quem amamos.

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Sobre o autor

Geylson Rayonne Cavalcante

Um substrato do universo.

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