segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Porque não somos o umbigo do mundo

Por: Juliana Santin

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“O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça, mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos”. Essa frase é do livro Ostra feliz não faz pérola, do Rubem Alves. Ela veio totalmente ao encontro do que penso e é absolutamente pertinente no mundo de intolerâncias, berros e certezas absolutas que observamos hoje, especialmente na internet.

Pensei em usar um desenho como uma metáfora para uma explicação muito didática sobre isso que Rubem Alves disse e que é condição básica e essencial para que tenhamos uma coisa chamada tolerância, ou seja, entender e aceitar que as pessoas têm pontos de vistas diferentes e que isso não nos dá o direito de as atacar.

Observe esse desenho:

Bola 1

Trata-se de um desenho muito simples que fiz tentando reproduzir um efeito 3D em uma folha de papel – 2D, portanto. Quando olhamos o desenho nessa posição da foto acima, o que vemos? Uma esfera flutuando sobre a folha de papel. Vamos chamar o observador desse desenho nessa posição de Observador A. Essa pessoa, em seu posicionamento e com sua possibilidade de ver essa situação, consegue enxergar uma esfera flutuante.

Agora, observe esse mesmo desenho, olhado de cima:

Bola 2

Esse é o desenho “verdadeiro”, ou seja, uma esfera esticada e distorcida, com recortes calculados na folha de papel, para que, ao ser observado de frente, dê a ideia de se tratar de uma esfera flutuante. Vamos chamar o observador que está vendo a esfera esticada de Observador B. De onde essa pessoa está, não há a mínima chance de ela ver uma esfera flutuante.

Pois bem, agora vamos imaginar que essa esfera é uma situação da vida real, alguma coisa que nós enxergamos de determinada maneira e temos plena convicção de que aquilo é o certo. Assim, eu vejo uma situação e enxergo uma esfera flutuante; meu amigo, por sua vez, me olha com certa estranheza e afirma que estou completamente errado ou cego, porque aquilo jamais poderia ser uma esfera flutuante, já que é claramente uma esfera esticada.

Qual dos dois está mentindo nessa situação? Nenhum. Ambos estão falando aquilo que realmente consideram ser a verdade e estão vendo a única possibilidade para eles de acordo com seu ponto de vista naquele momento.

“Vemos pouco, vemos torto, vemos errado”, continua Rubem Alves. “Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parêntesis, ainda que provisoriamente, as nossas opiniões”.

Assim, na prática, é extremamente necessário que tenhamos a humildade de admitir que nosso ponto de vista sobre diversos assuntos não é o único que existe e que se o outro está vendo diferente de você, não é porque ele é burro ou porque está, sim, vendo o “certo”, mas distorce tudo para tirar vantagens sobre isso. Possivelmente é porque essa é a única coisa que ele consegue ver.

Às vezes, nos parece absolutamente inconcebível que o outro não veja o que a gente vê. Como assim, é ÓBVIO que se trata de uma esfera flutuante. Quem em sã consciência poderia realmente dizer que se trata de uma esfera esticada? Ele não está vendo? Resposta: não está. E está tudo bem.

Ainda que aqui, com esse meu exemplo, considerei apenas dois pontos de vista, mas o certo é que existem 360 graus ao redor do mesmo desenho, e cada posição tem uma visão diferente.

Assim, se temos pontos de vista sobre valores que são muito, muito essenciais para a gente e que não conseguimos realmente suportar a convivência com pessoas que veem diferente da gente nesses valores, devemos, sim, nos aproximar e escolher conviver de forma mais íntima com pessoas que enxergam o mundo mais parecido com a gente. Isso vai gerar menos conflitos.

No entanto, ainda temos que entender que existem 7 bilhões de pessoas no mundo e que cada uma enxerga o seu próprio mundo. Querermos achar que a nossa visão de mundo é a única é, no mínimo, presunçoso. O Rubem Alves, em outro texto do mesmo livro, escreveu: “Os portugueses se horrorizavam ao saber que os índios matavam as pessoas e as comiam. Os índios se horrorizavam ao saber que os portugueses matavam as pessoas e não as comiam. Tudo depende do ponto de vista.”

É por isso que em valores menos espinhosos podemos e devemos entender que o outro enxerga diferente da gente sobre diversas coisas e está tudo bem. Não é necessário fazer uma guerra por cada esfera flutuante vista. É possível e saudável exercitarmos a tolerância e colocarmos os nossos pensamentos entre parêntesis quando estamos lidando com um mundo completamente diferente do nosso, que é o outro.

Então, se você é um cristão fervoroso, pode ser amigo de cristãos menos praticantes ou até mesmo de ateus. Basta para isso que haja, especificamente nesse assunto em que cada um realmente vê uma coisa diferente, um respeito pelo ponto de vista do outro. “Não somos o umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo”, continua Rubem Alves.

Assim, basta não tentarmos mudar o pensamento do outro, ou seja, incutir na cabeça dele o nosso pensamento – e vice-versa – que podemos conviver de uma forma muito agradável com pessoas que pensam diferente da gente em diversos assuntos.

Se for possível, vale a pena tentarmos olhar do ponto de vista do outro também. Se conseguimos sair da nossa visão de Observador A e olhar do ponto de vista do Observador B, podemos constatar que, sim, é verdade, de onde o outro está vendo, não há possibilidade de ele ver a esfera flutuante. Assim, entendemos muito mais o outro – e é isso que chamamos de empatia. A empatia consiste em nos colocarmos no lugar do outro de verdade, ou seja, sair da nossa posição e olhar pela posição dele.

Isso nem sempre é possível. Há situações em que a gente realmente não consegue enxergar como o outro enxerga, por mais que nos esforcemos. Mas devemos ainda assim nos esforçar sempre para chegar o mais próximo possível. E, mais ainda, exercitarmos a tolerância e o respeito pelas diferenças de ponto de vista, lidando com as nossas emoções negativas que derivam dessa descoberta.

Não devemos nos esquecer que a única pessoa que podemos mudar é a gente mesmo. Assim, se nos incomodamos extremamente com uma pessoa que pensa diferente de nós, não tentemos trocar o pensamento dela pelo nosso; basta que nos afastemos. Se não queremos ou não é possível nos afastar, então, vale o esforço para tentar ver como ela, colocando nosso pensamento entre parêntesis. Se nem isso for possível, podemos apenas evitar os assuntos espinhosos e focar nos pontos onde há concordância entre nós. Isso permitirá uma convivência mais agradável para todos e nos ajudará na difícil tarefa de aceitar com docilidade que não somos o umbigo do mundo.

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Sobre o autor

Juliana Santin

Humana, demasiado humana, apreciadora da companhia de crianças, adolescentes e velhinhos que retomaram o gosto pela vida, em busca constante por pessoas que mantêm o brilho nos olhos.

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